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Domingo 26.mai.2019

Ano VII - Nº 352

Poder

Embaixador da Noruega responde críticas de Onyx sobre preservação da Amazônia

A Noruega é o principal financiador do Fundo Amazônia, criado pelo governo brasileiro para financiar medidas de preservação da floresta

Postado em 16 de Novembro de 2018 - Lisandra Paraguassu (Reuters) e Josias de Souza (Blog do Josias)

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O embaixador da Noruega no Brasil, Nils Martin Gunneng, usou as redes sociais para responder às críticas do ministro da transição, Onyx Lorenzoni, ao programa de proteção ambiental da Amazônia.

“A Noruega aprendeu muito a respeito de preservação ambiental com o Brasil, @onyxlorenzoni. São 10 anos de parceria entre nossos países. Os resultados pelo #Brasil#FundoAmazonia @bndes são impressionantes para o mundo. Temos orgulho por ter contribuído @onyxlorenzoni”, disse o embaixador em sua conta no Twitter, acrescentando ainda que “seria um prazer” receber o futuro ministro da Casa Civil na embaixada da Noruega em Brasília para discutir esse e outros programas de cooperação.

No último dia 12, Onyx disse que não é possível uma entidade da Noruega vir ao Brasil para dizer o que o país deve fazer na área ambiental e indicou que, por trás do trabalho dessas ONGs há o interesse de receber parte dos recursos obtidos com multas ambientais aplicadas no Brasil.

O ministro da transição disse ainda que o próximo governo tem “preocupação” com o decreto assinado em 2017 pelo presidente Michel Temer que prevê a conversão das multas em serviços ambientais em troca de um desconto. Onyx afirmou que 40 por cento dos recursos arrecadados com multas iriam para ONGs nacionais e internacionais.

Na verdade, o infrator tem direito a um desconto na multa caso empenhe o recurso da infração em serviços ambientais, seja com execução própria do serviço ou através de cotas em projetos maiores. O governo realiza um chamamento público para esses projetos e ONGs nacionais e internacionais podem participar -ou seja, as ONGs receberiam para prestar um serviço.

Um repórter interveio para perguntar se o Brasil reduziria o percentual de conservação de suas matas para 10%. E Onyx, elevando o timbre: “Claro que não… Seria irresponsabilidade escrever isso ou falar isso. Nós vamos preservar o Brasil, mas com altivez. Não dá pra vir a ONG da Noruega ou da Holanda vir aqui dizer o que a gente tem que fazer, porque lá dá três palmos da linha da água, e eu vi, eles plantam tudo.”

Outro repórter recordou ao ministro que a Noruega socorreu o Ibama. Onyx irritou-se ainda mais. “E a legislação brasileira não vale nada? O que nós fizemos não vale nada? O que vale é a Noruega?” Foi nesse ponto que o ministro da transição engatou os ataques aos noruegueses, culminando com a declaração de que o Brasil tem muito a ensinar em matéria de preservação.

“Não dá para vir a ONG da Noruega ou lá da Holanda e vir aqui dizer o que a gente tem que fazer. Porque lá, tu dás três palmo da linha d’água, e —eu vi— eles plantam tudo”, afirmou.

A Noruega é o principal financiador do Fundo Amazônia, criado pelo governo brasileiro para financiar medidas de preservação da floresta.

Essa é mais uma rusga diplomática criada pelo governo eleito. Ao criticar a compra pelos chineses de ativos no Brasil, o presidente eleito Jair Bolsonaro incomodou o governo chinês, que usou o editorial do jornal China Daily para advertir sobre as dificuldades que poderiam advir de uma quebra de relacionamento comercial entre os dois países.

Depois disso, Bolsonaro reafirmou sua intenção de mudar a embaixada do Brasil de Telaviv para Jerusalém, o que abriu uma crise com os países do Oriente Médio - responsáveis pela compra de 40 por cento da carne bovina e de frango exportada pelo Brasil. Na esteira dessa crise, o Egito cancelou uma visita do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, e uma comitiva de empresários.

Onyx ataca quem ajuda a preservar a Amazônia

Nos seus dez anos de existência, o Fundo Amazônia recebeu R$ 3,1 bilhões. A Noruega bancou 93,3% desse total. O resto do dinheiro veio da Alemanha (6,2%) e da Petrobras (0,5%). Diferentemente do que insinuam Bolsonaro e seus auxiliares, não há neste caso risco à soberania nacional. O fundo é gerido pelo BNDES.

Na semana passada, Bolsonaro dissera que 40% da receita obtida com multas ambientais aplicadas no Brasil vão para ONGs estrangeiras e brasileiras. Nesta terça-feira, disse Onyx, o presidente eleito receberá um estudo sobre o tema. “A gente está muito preocupado com isso. (…) A média de conservação (das matas) de países que têm território semelhante ao nosso é de 10%. O Brasil tem 31% de preservação de suas matas. É três vezes mais…”

O dinheiro, como se sabe, não traz felicidade. Mas um governo quebrado como o brasileiro nem sempre tem liberdade para falar isso. Nos últimos três anos, o fundo custeado com verbas da Noruega tapou buracos abertos pelos cortes orçamentários impostos ao Ibama. O Fundo Amazônia pagou até a aquisição de carros e o aluguel de helicópteros para que os fiscais do órgão pudessem trabalhar.

Bolsonaro e sua equipe ainda não se deram conta, mas o excesso de verborragia sobre meio ambiente pode custar a verba da Noruega e de outras fontes. O dinheiro, como se sabe, não costuma aceitar ofensas. Até o agronegócio brasileiro já aprendeu que o descuido com o desmatamento custa caro. Grandes bancos internacionais e multilaterais recusam-se a financiar produtores que degradam o ambiente.


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