Semana On

Quarta-Feira 18.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Bolsonaro encabeçará um governo em que ministros falam em pedir demissão antes mesmo de assumir

Veja seis contradições do presidente eleito sobre seus ministérios

Postado em 16 de Novembro de 2018 - Mário Magalhães (The Intercept_Brasil), Chico Marés e Leandro Resende (Folha de SP)

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Paulo Guedes é um Roberto Campos com menos livros lidos e mais fanatismo pelo cada-um-por-si na economia e na vida social. O economista e diplomata Campos ganhou dos detratores a alcunha brejeira de Bob Fields, tamanho o fetiche pelo capital estrangeiro e a devoção pelos Estados Unidos.

De 1964 a 1967, o seminarista que desistira do sacerdócio foi o primeiro ministro do Planejamento da ditadura. Era tão brilhante que não se converter à sua lábia hipnotizante constituía exercício intelectual desafiador. No alvorecer da década de 1980, o cardeal brasileiro do liberalismo foi esfaqueado na barriga – pela amante, e não por um abilolado. Morreu em 2001.

Embora ministro do marechal Castello Branco, cujo governo cassou mandatos de parlamentares e fechou o Congresso, Campos não pronunciava intimidações vulgares como “prensa neles!”, truculência com que Guedes pretendeu peitar senadores e deputados para votar logo as mudanças na Previdência. A jornalista Cristiana Lobo contou que até a semana passada o futuro ministro da Economia ignorava que o Orçamento de 2019 será elaborado em 2018.

Numa reportagem da revista piauí de setembro, o banqueiro bem-sucedido – Bob Fields malogrou como dono de banco – se referira a Jair Bolsonaro como indivíduo pertencente a uma fauna indeterminada. A repórter Malu Gaspar narrou: “Guedes fez uma pausa e prosseguiu, parafraseando as críticas ao seu candidato: ‘Ah, mas ele xinga isso, xinga aquilo… Amansa o cara!’ Pergunto se é possível amansar Bolsonaro. ‘Acho que sim, já é outro animal’.”

Se um animal está amansado, o outro escoiceia. Guedes já especulava sobre ser ministro e, surpresa, deixar de ser: “Quer saber de uma coisa? Se não der para fazer o negócio bem feito, que valha a pena, para que eu vou [para o governo]? Ficar escutando essas merdas que estão falando?” A repórter enticou: “Então posso escrever que você desistiu?” O Paulo “posto Ipiranga” Guedes riu com ironia: “Esse é o sonho de todo mundo, todo mundo quer foder o Bolsonaro. Mas esse prazer eu não dou. Só depois que ele for eleito”.

Traulitadas

O capitão se elegeu, indicou Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, e na primeira entrevista coletiva após o anúncio o juiz tagarelou sobre sua eventual partida. Declarou, acerca de divergências vindouras: “A decisão final é dele [Bolsonaro]. Aí eu vou tomar a minha decisão se, para mim, vamos dizer assim, continuo ou não continuo”.

Moro não tratou Bolsonaro como um cavalão, chucro ou domado, mas pareceu inverter a hierarquia de presidente e ministro. Em meio a mesuras, chancelou o eleito, como se fosse necessário: “Pessoalmente, me pareceu ser uma pessoa muito sensata”. O costumeiro é o chefe referendar o chefiado, não o contrário. No domingo, o juiz falou à entrevistadora Poliana Abritta sobre possíveis desinteligências: “Se tudo der errado, eu deixo daí também o cargo”.

Na prosaica transição em que antes da posse os dois superministros miram as portas de entrada e de saída, o vice de Bolsonaro desdenha em público do deputado que o presidente eleito escolheu para comandar a Casa Civil. O general Antônio Hamilton Mourão desclassificou o iminente ministro Onyx Lorenzoni, relataram as repórteres Juliana Dal Piva e Daniela Pinheiro: “Era um parlamentar apagado. Esse é um cargo com outro perfil”.

Guedes já havia desferido uma traulitada em Lorenzoni, fazendo pouco caso dele: “É um político falando de coisa de economia. É a mesma coisa que eu sair falando coisa de política. Não dá certo, né?” Se Guedes cair, quem o presidente convocaria para seu lugar? Mourão já nomeou o substituto: “Eu assumo”. Ao ouvir que “no Brasil os vices costumam virar presidentes”, o general não retrucou com um espirituoso “vira essa boca pra lá” ou um cerimonial “dessa vez será diferente”. “Ele fechou a cara e desconversou”, leu-se na revista Época.

Em contraste com a limitada deferência por Bolsonaro, expressa por Guedes, Moro e Mourão, o servilismo de burocratas excede. A repórter Mônica Bergamo revelou que os organizadores do ato do Congresso pelos 30 anos da Constituição mudaram o nome artístico do tenor Jean William. Na hora de cantar o hino nacional, apresentaram-no como Jean Silva. Temiam que Bolsonaro, presente, se melindrasse com a identidade similar à de Jean Wyllys, deputado que em 2016 lhe cuspiu na cara.

Em Brasília, o capitão se sentiu mais à vontade do que na Barra da Tijuca para se conceder um intervalo na encenação que protagoniza como político anti-establishment. O repórter Guilherme Amado informou que Bolsonaro não se constrangeu diante do totem do poder, José Sarney. Diante do ex-presidente, empertigou-se, prestou continência e reverenciou: “Meu comandante!

Contradições do presidente eleito sobre sua futura equipe

Desde que foi eleito presidente, Jair Bolsonaro (PSL) voltou atrás em algumas decisões referentes à estrutura de seu governo.

"[Trabalho] Vai continuar com status de ministério"

Entrevista em 13.nov.18

CONTRADITÓRIO No dia 7 de novembro, após participar de um almoço com o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Bolsonaro afirmou, em entrevista, que o Trabalho seria "incorporado a algum ministério" --mas não deu detalhes sobre à qual pasta se referia. Seis dias depois, na última terça (13), o presidente eleito voltou atrás. "O Ministério do Trabalho vai continuar com status de ministério, não vai ser secretaria. Vai ser 'Ministério Disso, Disso e do Trabalho'", afirmou. Procurado, não respondeu.

"A princípio, [o ensino superior] vai ser mantido no Ministério da Educação mesmo"

Entrevista em 13.nov.18

CONTRADITÓRIO No dia 1º de novembro, quatro dias depois de ser eleito, Bolsonaro disse que o ensino superior seria responsabilidade do Ministério de Ciência e Tecnologia. No mesmo dia, ele confirmou o astronauta Marcos Pontes como titular da pasta.

Segundo o presidente eleito, a mudança na gestão do ensino superior daria um "gás muito especial" para as universidades brasileiras. Na última terça (13), pouco antes de um encontro no Tribunal Superior do Trabalho (TST), Bolsonaro recuou e afirmou que deve manter a gestão das universidades federais sob a responsabilidade do Ministério da Educação. Procurado, não respondeu.

"Comunico a todos a indicação do general-de-Exército Fernando Azevedo e Silva para o cargo de ministro da Defesa"

Twitter em 11.nov.18

CONTRADITÓRIO Aliado de primeira hora de Bolsonaro, o general Augusto Heleno chegou a ser anunciado, ainda durante a disputa do segundo turno, como futuro ministro da Defesa. Após a eleição de Bolsonaro, em entrevista, Heleno detalhou seus planos para a pasta.

Mas na última terça (13), o presidente eleito anunciou outro general para comandar o ministério. No dia 7 de novembro, o próprio general Heleno havia sinalizado o recuo, ao afirmar que assumiria o Gabinete de Segurança Institucional (GSI). "O presidente escolheu", disse em evento no Comando da Aeronáutica. Procurado, não respondeu.

"Não deve existir ministério com esse nome [Ministério da Família]"

A jornalistas em 7.nov.18

CONTRADITÓRIO A declaração de que não deverá ser criado um Ministério da Família foi dada um dia depois de Bolsonaro dizer que era "possível" que o senador Magno Malta (PR-ES) assumisse a pasta, que seria criada para gerenciar os programas sociais do governo. Ontem, o ministro extraordinário da transição de governo, Onyx Lorenzoni, afirmou que estes temas ficarão a cargo do Ministério da Cidadania. Malta é um dos aliados mais próximos de Bolsonaro --chegou a ser cotado como vice em sua chapa, mas preferiu disputar a reeleição para o Senado, acabou derrotado. Procurado, não respondeu.

"Pelo que está parecendo, vão ficar distintos [os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente]"

Entrevista em 1º.nov.18

CONTRADITÓRIO Promessa de campanha, a unificação dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente ficou pelo caminho. A proposta estava em consonância com o interesse da bancada ruralista, mas, segundo o presidente eleito, "os próprios ruralistas acharam que não era o caso, para evitar pressões internacionais entre outras coisas". Assim, no dia 1º de novembro, Bolsonaro afirmou que manteria as duas pastas. Dois dias antes, Onyx Lorenzoni havia insistido na unificação. "Ninguém recuou nada. A questão da agricultura, alimentação e meio ambiente é uma decisão desde os primeiros passos do plano de governo", disse Lorenzoni. Bolsonaro já anunciou a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) como ministra da Agricultura. Procurado, não respondeu.

"Acho que seria prematuro um país anunciar uma retaliação sobre uma coisa que não está decidida ainda [a mudança da Embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém"

Entrevista em 6.nov.18

CONTRADITÓRIO No dia 1º de novembro, Bolsonaro indicou, em entrevista ao jornal israelense Israel Hayom, que transferiria para Jerusalém a embaixada brasileira em Israel --que hoje fica em Tel Aviv. No mesmo dia, disse no Twitter: "Como afirmado durante a campanha, pretendemos transferir a Embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém. Israel é um Estado soberano e nós o respeitamos". Em dezembro de 2017, os Estados Unidos reconheceram Jerusalém como a capital de Israel e informaram que mudariam para lá sua embaixada. Apesar de Israel defender que Jerusalém é sua capital, a cidade também é reivindicada como capital pelos palestinos e não há consenso sobre a situação na ONU.

A declaração de Bolsonaro gerou reação negativa no Oriente Médio —o Egito chegou a cancelar uma visita do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira. Em 6 de novembro, o presidente eleito negou o atrito e disse que a mudança "não estava decidida ainda". Procurado, não respondeu.


Voltar


Comente sobre essa publicação...