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Quarta-Feira 20.mar.2019

Ano VII - Nº 342

Coluna

Máquinas panópticas moleculares

Pela liberdade de pensamento e dos viveres devemos nos livrar do panóptico em nós

Postado em 14 de Novembro de 2018 - Emerson Merhy

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No século XVIII, na Europa, havia uma grande conversa entre vários pensadores sobre o modo como se poderia controlar e vigiar certos modos de existências, consideradas como “anormais” e perigosas. A ideia de se construir grandes estabelecimentos para poder enclausurar, aprisionar esses corpos parecia não suficiente. Havia também a necessidade de se desenvolver modos de discipliná-los e de controlá-los para que nada pudesse escapar dos olhos normatizadores e, ao mesmo tempo, tudo pudesse ser regrado, normalizado.

Um desses pensadores, que se destacou nesse período, foi Bentham, que propôs a construção arquitetônica de grandes estabelecimentos prisionais que tinham a possibilidade de ser um “grande olho” que podia ver tudo que ocorria com os corpos enclausurados.

Um presídio com celas vazadas situadas na periferia do edifício com o centro ocupado por uma grande torre onde ficariam os funcionários vigilantes, que poderiam olhar tudo que estaria acontecendo dentro de todas as celas e, em especial, o modo como cada corpo aprisionado se comportava, sendo merecedor ou não de ações corretivas, disciplinadoras e qualquer outra do mesmo nível.

Esses grandes edifícios ficaram conhecidos como Máquinas Panópticas e foram adotados para a construção de vários outros tipos de estabelecimentos, como hospitais e escolas.

***

Confesso que no dia 29 de outubro acordei em uma ressaca emocional das piores que já vivi. Ter visto mais de 50 milhões de brasileires apoiarem as propostas de alguém que prega a violência contra o diferente como prática política - além de um monte de outras barbáries, como a própria defesa da tortura e da eliminação física do opositor -, grudou em meu corpo uma sensação de fim de mundo e de uma vida cada vez mais difícil, ali no seu cotidiano.

O simples encontro com qualquer um nos meus trajetos ia mobilizando o que de pior havia em mim naqueles momentos. Olhava alguém e ficava imaginando se era ou não um dos 50 milhões e rapidamente vinha uma raiva na minha alma. Isso me incomodou profundamente.

Via-me como eles, como aqueles 50 milhões que fizeram essa aposta incrivelmente equivocada - e que vai gerar muito sofrimento desnecessário, ainda mais porque muitos apostaram nessa violência por terem medo de algo que nem existe mais, como por exemplo os comunistas. Ter medo de comunista hoje, é o mesmo que ter medo do Saci Pererê, ou da Cuca, ou de qualquer fantasma.

Mas, não conseguia sair desse lugar de ficar com raiva só de imaginar que o outro poderia ser uma dessas pessoas equivocadas, e que apostava que alguém como eu deveria ser violentado só por não ter as mesmas ideias e os mesmos medos.

Percebi, em um certo instante, que eu estava funcionando como uma máquina panóptica molecular, ou seja, meu olho virou essa máquina. Ficava rastreando corpos e imputando neles coisas que eu nem sabia se existiam mesmo ou não, e já imaginava que esses corpos deveriam ser disciplinados, punidos e regrados.

Detestei isso, mesmo sabendo que do outro lado também a máquina panóptica molecular estava funcionando, ainda mais que estava sendo estimulada como mecanismo de delação para ações corretivas violentas.

Não é outra a intenção quando alguém propõe que alunos gravem falas de professores para que eles possam ser criminalizados por proselitismo político, como se houvesse qualquer ensinamento isento de algum posicionamento ou da contemplação de vários posicionamentos. Imaginem todes quando um professor de história, ao dar aula sobre os grandes acontecimentos do século XX, se põe a falar da Primeira Grande Guerra de 1914 e da Revolução Bolchevique de 1918, e isso for considerado proselitismo político e não aula sobre a história do ocidente.

Imaginem quando um professor de saúde falar sobre a existência de doenças que se comportam de modo distinto conforme a situação social vivida por um grupo social, mostrando que pobres morrem mais que ricos e de doenças que já nem deveriam existir mais.

Imaginem ….

Quais serão os critérios para resolver isso.

Provavelmente, será o olhar mapeador que enxergará sempre nessas situações proselitismo político por ser conhecimento diferente do seu, não em termos de conhecimento sobre o real, mas sobre crenças em relação ao mundo, sejam religiosas, sejam ideológicas. A definição será moral a partir de um dos campos panópticos.

Mas, o pior disso tudo é que todos que se fiam em uma moral binária agem do mesmo jeito, seja em nome de ideologias de direita ou de esquerda.

A moral binária vê o mundo de um modo muito simples: ou é isso, ou é aquilo, e se eu estou no isso o aquilo é um erro e uma ameaça e, portanto, passível de ser rastreado e violentado.

A política como prática da violência vem atravessando vários períodos da humanidade e quando imaginávamos que já tínhamos feito a crítica deste erro, que eliminou milhões de vidas pelas razões mais bobas, ele insiste em voltar da forma mais primitiva possível.

Nesse momento, de intensa paranoia panóptica, acho que devemos nos desvencilhar dela em nossos corpos e nos desorganizarmos em relação a moralidade binária que nos ocupa tanto. Devemos pelo menos permitir a dúvida sobre essa simplicidade em ver as coisas do mundo, devemos complexificar nossos modos de viver e nossos modos de olhar a realidade, vendo no outro uma riqueza de possíveis e não só um oposto de uma noção simples do bem e do mal.

E, talvez, a única crença que valha é que toda vida vale a pena ser vivida intensamente se isso não implicar na eliminação de um outro vivente.

Pelo fim da política como prática de violência.

Pela liberdade de pensamento e dos viveres.

Democracia, sempre.


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