Semana On

Domingo 26.mai.2019

Ano VII - Nº 352

Artigo da semana

O holocausto da nossa soberania está em curso

A tal Resistência ao Fascismo forjada no calor da eleição é, na verdade, muito mais discursiva que prática, e o andar da carruagem sugere confirmar aquele famoso clichê de que a esquerda só se junta na cadeia

Postado em 12 de Novembro de 2018 - Alan Kaká

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O futuro governo, vem se utilizando de uma jogada conhecida dos fãs de futebol, em especial do "Bruxo", o craque Ronaldinho Gaúcho: faz o marcador achar que ele vai para um lado com um aceno, enquanto os pés tocam a bola para outro, livrando-se da marcação. A atuação teatral e a técnica se confundem fazendo com que o movimento seja de uma beleza plástica inegável, dando à torcida a chance do grito de "olé" e aos adversários a cara de tacho.

É uma jogada de craque!

Esqueçam a tentativa frustrada de desqualificar o adversário, principalmente no que tange a sua competência política e sua capacidade intelectual: ele pode não saber citar Ludwig von Mises (o teórico expoente do neoliberalismo moderno), como, certamente, o "Bruxo" dos gramados não o faria, no entanto ele põe em prática um método de trabalho que faz parte do discurso/práxis de Steve Jobs:

“Não faz sentido contratar pessoas inteligentes e dizer a elas o que elas devem fazer; nós contratamos pessoas inteligentes para que elas possam nos dizer o que fazer”.

Provavelmente, o presidente eleito esteja misturando Gaúcho com Jobs por intuição e não estudo dos métodos, então convenhamos: isso passa longe de alguém que possa ser considerado obtuso.

Tendo os citados aspectos e práticas acima, sua composição de aparentemente sem sentido a olhos céticos é na verdade uma obra de engenharia mecânica complexa e merece uma análise menos apegada aos detalhes e mais disposta a ideia de que o seu propósito é bem definido e cada peça tem papel crucial no seu objetivo final.

Não olhemos os "pinduricalhos", como a fusão da Agricultura com o Meio Ambiente ou o deslocamento do Ensino Superior do MEC para a C&T. Cada um é grave em inúmeros aspectos, mas são parte do plano.

Jair - com o apoio estratégico de forças infinitamente maiores que "o dono da Havan" ou que Alexandre Frota -

conjurou 4 núcleos de poder aparentemente conflitantes entre si, mas com finalidades estratégicas bastante claras e que agirão em consonância para alcançá-las, mesmo que se contradigam para a mídia (que na verdade faz parte da "Passe do Bruxo").

Essa engrenagem é blocada e cada componente é notadamente de viés autoritário. Mas essa truculência também é parte do jogo de cena.

O Bloco Helenístico

Nesse núcleo se reuniu o que há de mais reacionário nas Forças Armadas com finalidade de conter os ânimos insurgentes que imaginaram que o governo seria militar nacionalista (spoiler: não será!) e dos radicais que acreditam que o autogolpe deva ser imediato. Esse bloco ficará sob a batuta do respeitado general da reserva Heleno - o segundo militar a assumir a pasta desde a redemocratização;

O Bloco Quartzo Preto

O segundo é um composto residual do nosso anacrônico e corrompido sistema político. Segundo a Cristaloterapia, a pedra Onix (Quartzo Preto) é utilizada como proteção contra más energias. A necessidade de compor a Fórceps uma base governista no Congresso, como o utilizado em todos os mandatos desde FHC e é a principal crítica ao sistema presidencialista, fará com que Onix Lorenzoni assuma a Casa Civil. O amuleto do futuro presidente sempre fez parte da bancada da bala e já confessou ter recebido 100 mil reais em Caixa 2 proveniente da indústria armamentícia em 2014. Impune, Lorenzoni - e outros como Magno Malta e Alberto Fraga - nesse núcleo são a antítese do discurso antissistêmico e de moralização da política utilizado pela campanha do presidente eleito;

O Bloco Gestapo

Para tirar a atenção do núcleo político controverso e recuperar discurso moralista, Jair utilizou não mais da jogada do Ronaldo Gaúcho, mas de um artifício digno de Houdini. O espetáculo gerado pelo convite ao midiático e cultuado juiz federal Sérgio Moro, responsável pela prisão do adversário que mais ameaçava a vitória eleitoral de Jair, o ex-presidente Lula, tirou a atenção da mídia e do público (dos dois lados da polarização) do núcleo político viciado. Um super-ministério com super-poderes foi criado e entregue para a expressão máxima da politização da Justiça: o juiz que se utilizou da operação Lava-jato para - por meio do espetáculo e a perseguição política travestida de Justiça - lançar-se como herói no imaginário de parcela da população. Com tal background, mesmo que sua atuação até agora seja uma distorção da Operação Mãos Limpas da Itália (operação essa que teve como efeito eleitoral colateral a eleição de Berlusconi), o resultante da metamorfose do "juiz político" em "político acima da lei" deve ser  o equivalente a maior expressão do autoritarismo e da perseguição ao contraditório (leia-se não só a oposição): a polícia secreta do Terceiro Reich;

O Bloco da "Mão Invisível"

Todo esses núcleos de poder formam o aparato de sustentação para a finalidade do núcleo econômico ultraliberal comandado pelo guru (e investigado por crimes financeiros contra o Estado Brasileiro) Paulo Guedes, que irá aplicar uma política econômica sem precedentes mesmo em países do berço do lideralismo e neoliberalismo: o desmonte total do estado de bem-estar social "garantido" pela CF88 e a irresponsável, criminosa e sistemática entrega privatista (nova privataria) das riquezas nacionais - em particular o Pré-sal, que é a maior reserva de combustíveis fósseis em prospecção do Mundo e o que seria o passaporte do Brasil para o desenvolvimento econômico e social, tecnológico, científico e a nossa independência política em relação às nações imperialistas. Esse tipo de ação suicida/genocida o economista do século XIV Friedrich List cunhou como "chutar a escada" e o economista atual Ha-joon Chang desenvolve demonstrando que, ao fazê-lo, os países em desenvolvimento sabotam sua única via para a condição de autonomia e sustentação econômica duradoura. E aqui voltamos às atribuições cerbericas dos blocos supramencionados: o militarismo brasileiro é (em sua maioria) de viés nacional desenvolvimentista e deve não aceitar de bom grado essa política de desmantelo da Soberania, apesar de ela ter sido anunciada de maneira inequívoca durante toda a campanha.No Congresso as batalhas serão sucessivas para tentar aprovar cada ponto da agenda ultraliberal proposta dentro do rito constitucional. Se der certo, mas em contraposição o comando de Heleno não funcionar para apaziguar os ânimos do setor nacionalista das Forças Armadas, os super-poderes de ministro Moro entrarão em ação, criminalizando esses juntamente com movimentos sociais e partidos de oposição.

Se essa máquina de guerra não funcionar com a truculência pouco democrática, ainda resta àquelas forças maiores e não notórias dar respaldo ao que o vice eleito, o general Mourão, chamou sem nenhum eufemismo - e portanto, sem margem para outra interpretação que não a literal - de "autogolpe".

Enquanto isso a oposição (principalmente à esquerda) trava uma disputa fraticida pela hegemonia do campo democrático-progressista - disputa essa que é resultante da arrogância, egoísmo, desconexão com as bases, recusa à autocrítica e à admissão das culpas, dos projetos eleitoreiros em detrimento aos de nação e dos erros estratégicos irresponsáveis por parte dos principais atores desse campo, desde a reeleição de Dilma até agora.

A tal "Resistência ao Fascismo" forjada no calor da eleição é, na verdade, muito mais discursiva que prática até agora, e o andar da carruagem sugere confirmar aquele famoso clichê de que "a esquerda só se junta na cadeia".

Alan Kaká - jornalista e faz parte da Frente dos Jornalistas Pela Democracia de MS


Voltar


Comente sobre essa publicação...