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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

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90% dos eleitores de Bolsonaro acreditaram em fake news, diz estudo

Bolsonaro insiste em Fake segundo o qual Haddad criou kit gay e que Câmara realizou seminário LGBT infantil

Postado em 02 de Novembro de 2018   - Patrícia Pasquini (Folha de SP) e Congresso em Foco

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Estudo da organização Avaaz  apontou que 98,21% dos eleitores do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) foram expostos a uma ou mais notícias falsas durante a eleição, e 89,77% acreditaram que os fatos eram verdade.  A pesquisa, realizada pela IDEA Big Data de 26 a 29 de outubro com 1.491 pessoas no país, analisou Facebook e Twitter.

“As fake news devem ter tido uma influência muito grande no resultado das eleições, porque as histórias tiveram alcance absurdo. A informação das fraudes em urnas eletrônicas com o intuito de contabilizar votos para Fernando Haddad, do PT, alcançou 16 milhões de pessoas nas redes sociais 48 horas após o primeiro turno e a notícia continuou viva no segundo turno”, afirma o coordenador de campanhas da Avaaz, Diego Casaes.

De acordo com dados da pesquisa, 93,1% dos eleitores de Bolsonaro entrevistados viram as notícias sobre a fraude nas urnas eletrônicas e 74% afirmaram que acreditaram nelas.

“As pessoas conhecem o problema das fake news e têm clareza do impacto negativo que causam, mas as notícias falsas trazem elementos passíveis da verdade, como a montagem do vídeo no caso da informação sobre a fraude nas urnas, por exemplo”, declarou Casaes.

O estudo também revelou que 85,2% dos eleitores do Bolsonaro entrevistados leram a notícia que Fernando Haddad implementou o kit gay e 83,7% acreditaram na história. Dos eleitores de Haddad entrevistados, 61% viram a informação e 10,5% acreditaram nela.

CEO e fundador da Avaaz, Ricken Patel disse que a democracia brasileira está se afogando em notícias falsas. “Essas histórias foram armas tóxicas cuidadosamente fabricadas para destruir a elegibilidade de um candidato. E, com a ajuda do Facebook e WhatsApp."

A Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmou que o fenômeno observado no Brasil de uso massivo de fake news para manipular o voto por meio de redes privadas “talvez não tenha precedentes." Diversas pesquisas conduzidas antes do segundo turno por outros institutos concluíram que a maioria das notícias falsas foi direcionada contra o Haddad e o PT.

Campanha contra a prática de fake news nas eleições

A Avaaz recebeu mais de 100 denúncias de fake news desde o lançamento de uma campanha para coibir a prática, em 18 de outubro deste ano.

O objetivo é identificar casos intencionais de divulgação de notícias falsas que possam ter partido de um dos candidatos à Presidência.

A campanha premiará três pessoas com US$ 100 mil cada.

Kit Gay

Durante a entrevista que concedeu ao Jornal Nacional após sua vitória nas urnas, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) repetiu declarações com conteúdo falso a respeito do que chama de “kit gay”.

“Na verdade eu fui contra um kit feito pelo então ministro da Educação Haddad, em 2009 pra 2010, onde chegaria nas escolas um conjunto de livros, cartazes e filmes onde passariam crianças se acariciando e meninos se beijando", afirmou.

Batizado de "kit gay" por Bolsonaro, o projeto ao qual ele se refere fazia parte da iniciativa Escola sem Homofobia, que, por sua vez, estava dentro do programa Brasil sem Homofobia, do governo federal, em 2004. Ele era voltado à formação de educadores e não tinha previsão de distribuição do material para alunos. O programa não chegou a ser colocado em prática.

Elaborado por profissionais de educação, gestores e representantes da sociedade civil, o kit era composto de um caderno, uma série de seis boletins, cartaz, cartas de apresentação para os gestores e educadores e três vídeos. A distribuição do material foi suspensa em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff.

Em agosto, também durante entrevista ao Jornal Nacional, Bolsonaro afirmou que o livro "Aparelho Sexual e Cia" estava dentro do material do programa . A obra do suíço Phillipe Chappuis, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, jamais fez parte do projeto. Tanto o MEC quanto a editora responsável pelo livro negam que a obra tenha sido utilizada em programa escolar. O livro nem sequer foi indicado nas listas oficiais de material didático.

Durante a campanha eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a remoção da internet de vídeos nos quais Bolsonaro falava sobre esse tema, por "gerar desinformação e prejudicar o debate político".

Não ocorreu na Câmara dos Deputados, em novembro de 2010, nenhum evento chamado "9º Seminário LGBT Infantil”. Em maio de 2012, foi organizado no auditório Nereu Ramos, da Câmara, o "9º Seminário LGBT no Congresso Nacional", um evento realizado anualmente. Naquele ano, foram discutidos os temas "infância e sexualidade".

Idealizador do seminário, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) escreveu no pedido de autorização para organizar o evento que o objetivo era debater com a sociedade civil e o governo federal “sobre a infância e a adolescência de meninos e meninas que sofrem bullying e violência doméstica por escapar dos papéis de gênero definidos pela sociedade".

O lema do seminário foi "Todas as infâncias são esperança”. Especialistas em direito, educação, sexualidade, psicologia e cultura participaram do seminário. Declaração sobre o mesmo tema foi checada também em entrevista ao JN em agosto.

84% dos eleitores de Bolsonaro acreditam no kit gay

A pesquisa da Avaaz revelou que 83,7% dos eleitores de Bolsonaro acreditaram na informação de que Haddad distribuiu o chamado kit gay para crianças em escolas quando era ministro da Educação. No último dia 15, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu Bolsonaro de acusar seu adversário no segundo turno de distribuir material que, segundo ele, estimulava a pedofilia.

Na ocasião, o ministro Carlos Horbach, do TSE, determinou a retirada de seis postagens da campanha do então candidato do PSL no Facebook e no YouTube nas quais Bolsonaro chamava de kit gay o livro Aparelho Sexual e Cia. e o projeto Brasil sem Homofobia. Conforme concluiu o ministro, o programa não foi implantado e o livro jamais foi distribuído para crianças no Brasil. O levantamento mostra que 85,2% dos eleitores de Bolsonaro tiveram acesso à fake news. Somente 10% dos eleitores de Haddad acreditaram na história.

No vídeo, Bolsonaro afirma que o livro é “uma coletânea de absurdos que estimula precocemente as crianças a se interessarem pelo sexo”. Em nota, o Ministério da Educação (MEC) afirmou diversas vezes que não produziu, nem adquiriu ou distribuiu a obra e esclareceu que a publicação é estrangeira e traduzida em dez idiomas. Mesmo assim, o presidente eleito continuou a falar de kit gay no término da campanha e seus primeiros discursos após o anúncio de sua eleição.

Mudança de posição

A pesquisa chegou a conclusões semelhantes em relação a outras quatro notícias falsas compartilhadas. Segundo a pesquisa, 98,21% dos eleitores de Bolsonaro entrevistados foram expostos a uma ou mais mensagens com conteúdo falso.

Conforme a sondagem, 40% das pessoas ouvidas disseram ter mudado de posição nas últimas semanas de "oposição ou com dúvidas sobre" Bolsonaro para "decididos" ou "considerando votar" nele. Isso no mesmo período em que essas notícias falsas atingiram o ápice de popularidade nas redes.

Outra fake news que ficou entre aquelas em que os eleitores de Bolsonaro mais acreditaram está a que dizia que haveria fraude nas urnas eletrônicas. Para 74% dos seguidores dele, essa informação era verdadeira. Outra notícia falsa que confundiu os apoiadores de Bolsonaro foi a que atribuía a Haddad a defesa da prática do incesto e da pedofilia (74,6%). Entre os eleitores do petista, apenas 9,8% consideraram que a informação era verdadeira.

Também enganaram os seguidores de Bolsonaro o texto que dizia que o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) seria o ministro da Educação em um eventual governo petista e a que relatava o pagamento de R$ 600 milhões a duas revistas para difamar o capitão reformado do Exército.

Impacto negativo

De acordo com a pesquisa, os brasileiros têm clareza absoluta sobre o impacto negativo das fake news durante as eleições. Quase 80% dos entrevistados acham que as plataformas de redes sociais deveriam enviar correções das notícias falsas após a verificação de fact-checkers independentes.

O levantamento mostra que 29% dos entrevistados estão muito preocupados com a difusão de notícias falsas; 31% estão preocupados, mas 40% não têm nenhuma preocupação a respeito. Embora as redes sociais influenciem cada vez mais as eleições, a TV ainda é o meio de comunicação mais utilizado pelos eleitores para se informarem (52%). Em segundo lugar aparecem sites dos jornais e portais (51%). Na sequência, Facebook (29%), YouTube (22%), WhatsApp (15%), veículo impresso (12%) e Twitter (5%) foram as outras fontes mais utilizadas pelos entrevistados para se informarem sobre as eleições.

Para o fundador e CEO da Avaaz, Ricken Patel, o Facebook e o WhatsApp precisam tomar medidas urgentemente para impedir que eleições sejam fraudadas com notícias falsas. "Não podemos deixar que a criptografia do WhatsApp seja uma "terra de ninguém" para atividades criminosas. Ativistas pela democracia em países autoritários usam aplicativos mais bem encriptados como o Signal. No mínimo, o WhatsApp deveria ter como padrão uma 'proteção contra a desinformação', dando aos usuários a opção de protegerem suas democracias e a si mesmos das fake news. Outras eleições se aproximam, como nos EUA, Índia e Europa; Zuckerberg tem semanas, e não meses, para tomar uma atitude", afirmou.


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