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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

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Brasil

Rincão bolsonarista em SC vive fortemente armado e rejeita passado

Com nome, hino e brasão que celebram a Abolição, Treze de Maio reivindica colonização italiana

Postado em 01 de Novembro de 2018   - Fernando Canzian – Folha de SP

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O município de Treze de Maio, no sul de Santa Catarina, tem nome, brasão e hino que remetem ao fim da escravidão no Brasil, em 1888, mas só 0,8% da população se autodeclarou preta no Censo de 2010. 

Já os que se consideram brancos foram 97% —e votaram em peso em Jair Bolsonaro e no seu PSL, que também elegeu neste domingo (28) o novo governador do estado, Comandante Moisés.

Já o capitão reformado que disse ter visto num quilombo paulista negros que não serviam “nem para procriar” teve 83,89% dos votos válidos no primeiro turno na cidade que homenageia a data da Abolição, a maior votação do país, e 89,24% no segundo.

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Muitos desses eleitores vivem fortemente armados nessa cidade bem organizada e rural de 7.070 habitantes que cultua pistolas, rifles e o agora presidente eleito com um fervor inverso ao que dedicam ao seu passado.

Eles depositam três grandes esperanças em Bolsonaro: ter de volta a prosperidade para a agricultura e para as confecções locais, acabar com a insegurança e eliminar a corrupção identificada com o Partido dos Trabalhadores.

Mas, apesar de sua maioria branca e bolsonarista, Treze, como é conhecida, será obrigada a reencarnar suas origens depois que a ex-presidente Dilma Rousseff assinou decreto, em 2015, reconhecendo que houve um quilombo ali e devolvendo terras aos descendentes de um ex-escravo.

Apesar de muitos moradores torcerem o nariz, isso só não foi feito ainda porque o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) não tem o dinheiro para desapropriar 30,8 hectares a serem dados aos descendentes de Custódio Thomaz, que teria ganho a terra de seu senhor no período da Abolição.

Segundo o Incra, os moradores locais se empenham há décadas em “branquear” seu passado, substituindo-o pela narrativa da colonização italiana, que predomina na região, assim como os eleitores do capitão reformado.

Conta-se na cidade que, após Thomaz morrer em 1945, seus familiares teriam vendido as terras sem documentação a italianos. Mas, na versão amparada pelo Incra, eles foram expulsos após ameaças.

Já o nome, brasão e hino têm origem duvidosa, embora Jaison Bez Fontana, assessor da prefeitura, sustente que foram adotados na emancipação do município, em 1961, por servidores desavisados e vindos de fora, que faziam esse tipo de trâmite na região.

Uma das maiores controvérsias até hoje é sobre a estátua de um negro acorrentado que teria sido retirada da cidade, restando apenas outra, com o mesmo personagem, já sem as correntes, no paço da igreja local. No início dos anos 1990, a estátua remanescente chegou a ser pintada de branco, mas acabou sendo repintada.

Nilton Garcia, superintendente do Incra no estado, diz que os pesquisadores que acompanharam o caso acreditam que a outra estatua deve ter sido mesmo eliminada. 

O que existe hoje, bem na entrada do município, é outro monumento, em homenagem aos italianos que teriam aportado nessas bandas em 1877, subindo o rio Tubarão.

São seus descendentes que hoje predominam em Treze de Maio, muitos ainda em casas de madeira bem ao estilo colonial do sul, erguidas em terras onde têm plantações e, em muitos casos, barracões de confecções onde trabalham terceirizados para indústrias maiores.

O rendimento médio dos moradores locais, segundo o IBGE, é de cerca de R$ 1.520 ao mês, abaixo da média nacional. E, assim como no resto do país, o município vem sofrendo, com a crise iniciada em 2015 —que os bolsonaristas locais associam diretamente ao PT— piora nas suas condições de vida. 

“A gente trabalha duro, mas o que vê é só corrupção e imposto. Tenho foco, vontade de prosperar, mas acho que o PT afundou o país. Teve um momento bom com Lula, mas a conta a gente vê agora”, afirma Iter Bez Fontana, 32, descendente de italianos que prometeu a si mesmo vender sua terra e ir embora do Brasil caso Haddad vencesse a eleição.

Ele trabalha com vendas (de segunda a quarta), entregas (às quintas e sextas) e no sítio da família (nos fins de semana) para manter uma renda mensal de cerca de R$ 10 mil. 

A simpatia por Bolsonaro vem também de seu discurso sobre a segurança.

“Chegou a hora de começarmos a usar mais o olho por olho, dente por dente. Ninguém aguenta mais”, diz.
Fontana mantém duas espingardas calibre 12 em casa e diz ter “uns 300 amigos fortemente armados” na cidade, onde a posse de armas parece ser uma tradição passada de pais para filhos.

Um deles é Elton Nascimento, 27, gerente de um supermercado, que guarda uma pistola e um rifle em seu quarto.

Ele diz seguir Bolsonaro há alguns anos, sobretudo após tê-lo conhecido em uma Oktoberfest, em 2012, em Blumenau. “Já tinha ouvido falar dele e da questão do porte de armas para cidadãos de bem. Foi amor à primeira vista.”

Nascimento afirma que pretende criar um comitê do PSL na cidade, turbinando seu grupo de WhatsApp, o “Bolsonaristas do Treze”, e que torce para que Bolsonaro “seja o melhor presidente do Brasil”.

“Já morei em Portugal e visitei outros países. Vejo que ele tem boas ideias para a economia, de mais eficiência, enxugamento da máquina. Aqui, a gente só trabalha, trabalha, trabalha e não consegue nada.” 
“Sobre essas outras coisas erradas que falam dele, não é por aí”, afirma. “Falar mais forte faz parte da campanha.”

Outro desses conhecidos é João Bardini Junior, 34, que diz ter cinco armas de diferentes tipos para a sua segurança.

Segundo ele, sua família nunca sofreu violência na cidade. Mas ele anda preocupado com o que tem lido no WhatsApp sobre sequestradores de crianças que estariam rondando a região e relembra os casos de dois assaltos em Treze de Maio de 2017 para cá.

Bardini também diz trabalhar “de segunda a domingo” para manter “por milagre” 25 funcionários em uma pequena empresa têxtil que fatura cerca de R$ 60 mil por mês.

Também trabalha algumas horas semanais com parentes, lidando com gado e plantio em sua propriedade. “O Bolsonaro vai dar um jeito na economia também”, acredita. 

“O principal é baixar o diesel e o dólar, e ele vai ter a faca e o queijo na mão”, emenda Eduardo Longo, 36. Ele reclama que R$ 100 hoje mal enchem 1/4 do tanque de seu trator e que, por conta do câmbio, o saco de ureia foi de R$ 49 para R$ 90 no último ano.

“Mas a saca de 60 quilos do feijão que vendo não sai dos R$ 80. A gente paga e se endivida para trabalhar”, diz.

Na sua frente, o secretário de Obras da cidade, Valdemar Carvalho, 51, reclamava, neste domingo, da falta de reajuste nas verbas para o município, mais de 80% delas vindas do estado e da União —realidade de 70% das cidades do país. “Desde 2012, são os mesmos R$ 1,2 milhão por mês.”

Ali, ambos tinham acabado de votar em Bolsonaro, assim como a atendente de uma padaria próxima, Patricia Ferreira Rodrigues, 21, que escolheu o candidato “de tanto estar cercada de bolsonaristas”.

Patrícia conta que, durante toda a infância em Mato Grosso, ela e seus irmãos foram criados com a ajuda do dinheiro do Bolsa Família, que também os obrigou, dentro das condicionalidades do programa, a frequentarem a escola.

“Meu pai e a minha mãe sempre votaram no Lula e no PT por causa do Bolsa Família. Mas, na última semana do primeiro turno, viraram o voto. Acabei entrando nessa onda.”

Durante a visita a Treze de Maio, o único negro que a reportagem encontrou na cidade foi dentro da padaria onde Patricia trabalha. Trabalhador de uma confecção, diz se chamar Isaac, é de Gana e mal fala português.


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