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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

Gov dengue

Artigo da semana

Pacificação do país dependeria de estelionato eleitoral de Bolsonaro

Presidente eleito fala em pacificar Brasil, mas não abandona clima de guerra

Postado em 31 de Outubro de 2018   - Leonardo Sakamoto

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Apenas um estelionato eleitoral de grandes proporções irá pacificar o país. Pois se o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), colocar em prática exatamente o que prometeu durante a campanha, o Brasil pode encontrar muita coisa, menos paz.

O fim das eleições já demandará um exaustivo trabalho de redução de animosidades e de sinalização ao lado derrotado, se o eleito colocasse como primeira medida em seu discurso da vitória reduzir a tensão. O problema é que, baseado no que disse até agora, Bolsonaro não parece disposto a trabalhar por isso.

Ele tem voltado atrás quando criticado em assuntos econômicos e políticos, seja em propostas de fusão e extinção de ministérios, mudanças em acordos internacionais, relações a serem estabelecidas com parceiros comerciais ou na de composição de sua base de governo. O mesmo não tem acontecido, contudo, nas questões sociais e de direitos, onde encontra-se a parte mais violenta de seu discurso. Dizer que há uma divisão do país entre ''brancos e negros'' e a culpa é do PT para, logo na sequência, chamar a política de ações afirmativas de ''coitadismo'' mostra que ele não evoluiu nesse sentido.

Bolsonaro prometeu ''uma limpeza nunca vista na história desse Brasil'' após eleito. ''Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil'', afirmou. ''Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria.'' Em suma, varrer, banir, prender ou exilar adversários.

E, nas últimas semanas, não demonstrou indignação à altura das perseguições, agressões e até assassinato cometidos por alguns indivíduos de sua militância. Ele, mais do que ninguém, sentiu na pele o significado da loucura política e do ódio no atentado que sofreu. E como é considerado exemplo e liderança para muita gente, prometendo, repetidas vezes, que iria pacificar o país, poderia ter mudado o discurso, servindo de exemplo para que seus seguidores optassem pelo diálogo ao invés da violência.

Agora, grupos radicais, sentindo-se empoderados pela mudança de governo, vão se sentir à vontade de ir às ruas, atuando como milícias políticas, para monitorar e punir opositores do governo, ativistas dos direitos humanos e jornalistas? Policiais, bombeiros e militares se reunirão para vender ''tranquilidade'' a moradores e empresários, aumentando o número de milícias mafiosas de segurança?

Ironicamente, quem chama de ''exagero'' a possibilidade de Bolsonaro colocar em prática a parte mais dura de suas promessas são os mesmos que, meses atrás, tachavam como ''exagero'' os que apontavam que ele poderia ser o próximo presidente.

Além disso, é espantoso como algumas pessoas afirmam com indescritível certeza que, caso eleito, ele será devidamente controlado – seja pelos freios e contrapesos institucionais (quando as instituições já não estão funcionando perfeitamente), pela força da imprensa e da sociedade civil (quando a imprensa é chamada constantemente de principal produtora de fake news) e pelo mercado (como se o mercado não fosse pragmático).

Clima de guerra

Bolsonaro perdeu a chance de tentar arrefecer os ânimos do país em seus discursos após ser confirmado como o 38o presidente da República. Após o período eleitoral mais violento desde a redemocratização, era de se esperar que ele sinalizasse ao lado derrotado e seus eleitores com o objetivo de reduzir a tensão e fizesse um pedido a todos os seus apoiadores e simpatizantes para que buscassem o diálogo como saída não apenas para a discordância política como também para qualquer diferença nos próximos quatro anos.

Contudo, preferiu abusar de termos militares em seu primeiro pronunciamento, via live do Facebook, falando de marcha do eleitorado, de exército de apoiadores, que ''missão não se escolhe nem se discute, se cumpre''. Depois, em um segundo discurso, mais suave, agora na TV, questionado sobre o que fazer com um país que se encontra dividido, afirmou que trabalharia para ''pacificar o Brasil'' – o que repetiu, em outra live, dizendo: ''seguirei o exemplo do patrono do Exército brasileiro, Duque de Caxias, e irei pacificar o Brasil. Não será mais 'este contra aquele'''.

Não deu mais detalhes do que seria essa ''pacificação''. O que nos resta torcer para que não seja como na Guerra do Paraguai, que teve em Duque de Caxias um de seus principais líderes, quando matamos e morremos às dezenas de milhares, há 150 anos.

Bem faria ao invés de vender nossa imagem como a de uma teocracia militarista (antes do pronunciamento na TV, ele e aliados fizeram uma oração de mãos dadas – talvez, um culto de corpo presente para o Estado laico), Bolsonaro tivesse feito um aceno consistente em nome da distensão.

Bolsonaro não se tornou presidente apenas dos 55% de votos válidos, mas dos outros 45% que escolheram Fernando Haddad, sem contar os votos brancos e nulos e aqueles que, cansados da política, abstiveram-se. Não adianta se dizer defensor da Constituição e de liberdades. Tampouco afirmar que ''não existem brasileiros do Sul ou do Norte'', que ''somos todos um só país''. Precisa, a partir de hoje, agir como futuro chefe de Estado e não como alguém em guerra com parte de seu próprio povo.

Leonardo Sakamoto – Jornalista e cientista social


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