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Ano VII - Nº 328

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Mundo

Analistas internacionais veem democracia em risco, mas também oportunidade

Chefes de Estado se dividem entre felicitações e preocupação com democracia e acordos

Postado em 30 de Outubro de 2018   - Redação Semana On

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Um retrocesso, uma ameaça aos direitos dos cidadãos e à democracia, um risco à educação, ao ambiente e ao pluralismo. Mas também um basta a um sistema carcomido e uma resposta à corrupção da elite política, à recessão e a serviços precários.

É assim que especialistas estrangeiros que acompanham a política brasileira veem nosso copo após a eleição de Jair Bolsonaro: cheio de riscos e de novidade. O equilíbrio entre eles só o tempo revelará. 

"Não acho que, subitamente, [Bolsonaro] criará um Brasil autoritário", diz Ian Bremmer, da consultoria de risco político Eurasia, acrescentando que as instituições brasileiras —sobretudo o Judiciário— são fortes e que será preciso negociar no Congresso. 

"Após o impeachment da Dilma [Rousseff], a prisão de Lula e a Lava Jato, as pessoas queriam alguém diferente, mesmo que não seja a melhor ideia. Não acredito que as consequências de seu governo serão dramáticas."

Scott Mainwaring, da escola de política de Harvard, é mais cauteloso e espera, no melhor cenário, um "Alvaro Uribe brasileiro”, em alusão ao ex-presidente da Colômbia: “Haveria sérios abusos de direitos humanos, mas ele abriria um processo de construção de Estado, tornando-o mais efetivo, o que é essencial para o desenvolvimento".

Para ele, os desafios de curto prazo são corrupção, violência e crescimento econômico. No longo prazo, cita Justiça, desigualdade e ambiente.

No pior cenário, haveria erosão da democracia e colapso. O atalho para isso é prender líderes de oposição —algo que o presidente eleito mencionou quando candidato. "Não acho provável, mas esse cenário pareceria com a Venezuela a partir de 1999 ou a Rússia depois que Putin chegou ao poder, ou a Nicarágua agora." 

Isadora Moura Mota, historiadora da Universidade de Miami, vê uma guinada conservadora na educação. "Há ameaça ao pluralismo democrático, à liberdade de ensino e à igualdade racial e de gênero", afirma ela, para quem Bolsonaro “defende uma intervenção federal para controle do conteúdo nas escolas". 

James Green, brasilianista da Universidade Brown, é o mais pessimista: “A vitória do Bolsonaro representa o maior retrocesso sofrido no Brasil desde 1964, quando os militares tomaram o poder”, diz.

"É uma ameaça direta à democracia e às conquistas de movimentos sociais, das mulheres, dos negros, da população LGBT e dos mais pobres”, afirma ele, para quem o argumento de que o discurso é só “retórica” não convence, já que o novo presidente precisará agradar quem o elegeu.

Com ele concorda Bryan McCann, da Universidade de Georgetown (Washington), que prevê enfraquecimento na proteção dos direitos humanos do ambiente. “Levo a sério o que ele fala. Mas claro que não vai conseguir implementar tudo o que promete. A população vai precisar reagir para defender a lei e os direitos civis. Também será importante jornalismo crítico”, diz. 

Thomas Trebat, que dirige o Columbia Global Centers na Universidade Columbia (Nova York) é outro que se diz preocupado e vê riscos à democracia. "A vitória [de Bolsonaro] representa um grande rompimento com o passado recente da política brasileira.  Também é um pulo no escuro, já que sabemos quase nada sobre como ele vai lidar com as questões que o elegeram: violência, corrupção, valores familiares, economia, entre outras coisas", afirma. 

"As instituições estão quase totalmente despreparadas para lidar com comportamentos autoritários. Grupos e indivíduos em todo o país estarão atentos ao seu governo. A imprensa, os partidos, o Congresso, o Judiciário, organizações religiosas e grupos da sociedade civil serão testados. Caso ele tenha sucesso na área econômica, sua legitimidade será ampliada e o partidarismo da sociedade brasileira vai diminuir. Mas se não tiver, e focar em questões que dividem a sociedade, será preocupante." 

Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins, vê na eleição uma resposta à corrupção e outros problemas do Brasil e propõe parcimônia. “Precisamos aguardar ao menos seis meses. Ele conseguirá criar alianças no Congresso? Lidar com o déficit fiscal? Ser um governo de centro-direita e fugir dos extremos?"

Peter Hakim, o presidente emérito do Inter-American Dialogue que há décadas estuda o Brasil, tem uma resposta pouca animadora para essas perguntas.

"A real questão é se Bolsonaro conseguirá resolver as grandes questões que estão arrastando o Brasil para a lama hoje. Ele terá grandes desafios nas áreas da economia, da educação e da saúde. E tem oa corrupção. Ele tem um plano real para fazer mais sobre o problema?", indagou, acrescentando estar pessimista e afirmando que não estaria melhor de Fernando Haddad tivesse vencido. ​

Representante da UE vê "fadiga democrática" em triunfo de Bolsonaro

O comissário europeu de Assuntos Econômicos, o francês Pierre Moscovici, avaliou que o triunfo do presidente eleito Jair Bolsonaro se deve a uma espécie de "cansaço democrático", que vinculou com as sequelas da crise, da qual se aproveitou o próximo presidente do Brasil.

Em entrevista à emissora francesa Public Sénat, Moscovici disse que o ocorrido no pleito no Brasil faz parte de uma tendência de "retrocesso" nas democracias liberais "no mundo todo".

Para o comissário europeu, Bolsonaro é um "democrata não liberal" porque foi eleito nas urnas. Segundo ele, o que está por trás da vitória é um cansaço pelos efeitos da crise e, em particular, pelo agravamento das desigualdades, afirmou o político socialista francês, que fez um pedido aos democratas "sinceros".

"É preciso arregaçar as mangas e atacar as desigualdades que causam prejuízo ao povo e o conduz a apostas que depois são perigosas."

Macron alfineta Bolsonaro, direita o afaga

O presidente francês, Emmanuel Macron, felicitou Jair Bolsonaro (PSL) pela vitória na eleição, mas, num aceno ao discurso autoritário do capitão reformado e a declarações sobre a possível saída do país do acordo climático, mencionou “princípios democráticos” e disse esperar manter a cooperação bilateral no âmbito da “diplomacia ambiental”.

“A França e o Brasil mantêm uma parceria estratégica em torno de valores comuns de respeito e de promoção dos princípios democráticos”, diz o comunicado divulgado pelo Palácio do Eliseu –Macron foi um dos primeiros chefes de Estado ou de governo europeus a se pronunciar sobre o resultado da corrida presidencial brasileira.

“É no respeito a esses valores que a França deseja levar adiante sua cooperação com o Brasil, para enfrentar os grandes desafios contemporâneos do nosso planeta, tanto no campo da paz e da segurança internacionais quanto no da diplomacia ambiental e dos compromissos com o Acordo de Paris sobre o clima”, prossegue a nota.

Em setembro, Bolsonaro havia aventado a hipótese de retirar o Brasil do tratado que busca reduzir as emissões de dióxido de carbono em escala global. Na reta final da campanha, recuou.

Na segunda, o presidente eleito também recebeu os cumprimentos do russo Vladimir Putin. Segundo a agência France Presse, o Kremlin transmitiu ao brasileiro sua confiança na melhora das relações bilaterais entre Brasília e Moscou.

Já Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol e socialista, não incluiu felicitações em sua mensagem em uma rede social. Disse que “os desafios serão enormes” e que “o Brasil contará com a Espanha para alcançar uma América Latina mais igual e mais justa”.

Uma porta-voz da Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, instou Bolsonaro a “trabalhar para consolidar a democracia”, também de acordo com a France Presse.

Na internet, líderes da direita nacionalista da Europa desejaram boa sorte ao presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

O ministro do Interior da Itália e vice-premiê, Matteo Salvini (Liga), escreveu: “Também no Brasil, os cidadãos mandaram para casa a esquerda. Bom trabalho ao presidente #Bolsonaro, a amizade entre nossos povos e nossos governos será ainda mais forte”. Ele encerrou essa postagem com a hashtag #OBrasilVota17.

Salvini disse ainda que “depois de anos de conversas improdutivas [entre Roma e Brasília], pedirei que seja extraditado à Itália o terrorista vermelho #Battisti”.

Ele se refere ao ex-ativista Cesare Battisti, condenado na Itália por quatro assassinatos cometidos nos anos 1970, quando era membro do grupo Proletários Armados pelo Comunismo. Preso em 2007 no Brasil, teve sua extradição autorizada pelo STF, mas barrada pelo ex-presidente Lula.

A aplicação da medida ainda espera apreciação da 1ª Turma do Supremo. De seu lado, em publicação na internet no último dia 16, Bolsonaro prometera “extraditar o terrorista Cesare Battisti, amado pela esquerda brasileira, imediatamente, em caso de vitória nas eleições” –o que afrontaria o STF.

De volta à França, a líder da ultradireita Marine Le Pen escreveu que “os brasileiros acabaram de punir a corrupção generalizada e a criminalidade aterrorizante que prosperaram sob os governos de extrema esquerda”.

Ela disse ainda que o presidente eleito “deverá recuperar a economia, a segurança e a democracia, muito comprometidas no Brasil”.

Antes de Macron se pronunciar, a conta oficial de seu partido (A República em Marcha) em uma rede social amanhecera com a seguinte mensagem:

“O Brasil terá agora em seu comando um presidente orgulhosamente homofóbico, cético em relação ao aquecimento global, sexista e racista. Essa tragédia eleitoral nos força a agir. Não temos escolha, não podemos errar. Senão podemos ver o que nos espera. Progressistas de todos os países, uni-vos!”.   

O presidente interino da mesma legenda, Philippe Grangeon, adotou tom semelhante, dizendo que “o nacionalismo prospera onde nós falhamos. Denunciá-lo não é o suficiente. É urgente trazer respostas novas e combate-lo no campo das ideias”.

Já para o chefe do Partido Socialista francês (do ex-presidente François Hollande), “os brasileiros veem a eleição de um xenófobo, homofóbico, misógino, admirador da ditadura, inimigo da mídia e entusiasta de ‘fake news’”.

Segundo Olivier Faure, “de um continente a outro, de [Viktor] Orbán [premiê da Hungria] a Trump, de Salvini  a Bolsonaro, a democracia vacila. Os nacionalistas captam e deturpam a raiva dos povos. É urgente sairmos dos caminhos conhecidos e despertar uma esperança humanista”.

Um deputado da França Insubmissa, um dos partidos mais à esquerda na cena nacional, foi além. “Depois de eliminar Lula se valendo de uma pseudo-Justiça, o neoliberalismo preferiu Hitler à Frente Popular [nome dado a coligações, geralmente de esquerda, que se opuseram à ascensão do fascismo e do nazismo na Europa nos anos 1930]”, escreveu Eric Coquerel.   


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