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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

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Saúde

Como os movimentos antivacina se tornaram um perigo para o planeta

Estudo fraudado levou milhares de pessoas a pregarem a não vacinação de crianças

Postado em 30 de Outubro de 2018   - Galileu

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Em meio a crises políticas e econômicas, 2018 também será o ano marcado pela volta de uma doença que havia finalmente sido considerada erradicada no Brasil em 2016: o sarampo. Na Europa, os casos aumentaram 400% em 2017, com mais de 20 mil casos e 35 mortes decorrentes da doença. Por aqui, 1673 casos foram confirmados até o dia 10 de setembro, com 7738 ocorrências em investigação e oito mortes. Como se não bastasse, há risco de a poliomielite, doença viral que causa paralisia infantil erradicada em 1990, voltar a aparecer. Segundo um alerta do Ministério da Saúde, mais de 300 cidades estão com cobertura vacinal abaixo de 50%, sendo que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é 95%.

Mesmo assim, a Campanha Nacional de Vacinação contra o Sarampo e a Poliomielite demorou para conseguir atingir a meta de imunizar 95% do público alvo estabelecido (crianças com entre um e cinco anos de idade). O prazo, que inicialmente iria de 6 a 31 de agosto, foi prorrogado para o dia 14 de setembro, e alguns estados precisaram estendê-lo ainda mais — São Paulo, por exemplo, só conseguiu chegar aos 95% na segunda-feira, 24, e manteve a disponibilidade de vacinas nos postos até sábado, 29.

Os motivos para isso acontecer são vários, entre eles a despreocupação com doenças que parecem ter ficado no passado e a dificuldade de acesso aos postos de vacinação. Um deles, porém, é um fenômeno mais recente que ganhou força com a internet: os movimentos antivacina.

Quer dizer, mais ou menos recente, visto que a vacinação sempre foi um tema cercado de desinformação e mitos. Desde a criação da vacina da varíola, em 1789, volta e meia surgem argumentos dos mais esquisitos que contrariam evidências científicas. O próprio Brasil foi protagonista de um evento que entrou para livros de história, a Revolta da Vacina. Em 1904, a população do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, protestou contra uma lei que determinava a obrigação da vacina contra a varíola.

Seis dias depois do início da revolta, que acabou se tornando também uma tentativa de golpe militar, foi decretado estado de sítio e a suspensão da vacina obrigatória. 945 pessoas foram presas, 30 mortas, 110 feridas e 461 deportadas para o Acre.

Mas o movimento antivacina atual é curioso justamente por ter origem em um erro corroborado pela ciência. Em 1998, o médico inglês Andrew Wakefield publicou um artigo na Lancet, um dos periódicos científicos mais respeitados e renomados do mundo. Nele, sugeriu uma relação entre as vacinas do sarampo e rubéola com autismo. Alguns anos mais tarde, foi revelado que o estudo foi fraudado e a pesquisa foi refutada pelo próprio periódico. Wakefield também teve sua licença médica cassada no Reino Unido.

Na terra de Donald Trump, porém, Wakefield encontrou voz e tem viajado pelo país promovendo suas ideias. Também é apoiado por celebridades como Jim Carrey e Charlie Sheen. Mesmo 20 anos depois da publicação do artigo e de dezenas de outros estudos que comprovam que não há nenhuma relação entre vacina e autismo, Wakefield se recusa a reconhecer o erro, e continua causando estragos. Ele é diretamente associado a um surto de sarampo em uma comunidade no Minnesota e a uma redução na cobertura vacinal no Texas, estado onde mora.

Como a vacinação é regida pelo princípio da imunidade de rebanho — pessoas aptas a serem vacinadas acabam protegendo as outras — a disseminação das informações falsas pode literalmente fazer mal para a saúde, afetando a população como um todo, não só quem espalhou as mentiras ou se recusou a se vacinar.


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