Semana On

Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

Gov dengue

Especial

Liberdade de imprensa será o 1º alvo

Bolsonaro pretende enquadrar jornais e jornalistas e ditar a sua verdade

Postado em 30 de Outubro de 2018   - Redação Semana On

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A liberdade de imprensa é um dos pilares fundamentais de um Estado democrático de direito. Os veículos de comunicação contribuem para a igualdade social no que se diz respeito ao acesso à informação. A pluralidade de fontes dá ao cidadão a possibilidade de compreender a verdade e formar sua própria opinião com base em dados e fatos.

“Muita gente defende a liberdade de imprensa apenas quando lhe é favorável, no entanto, as críticas fazem parte da nossa democracia. Estamos vivendo momentos ruins no Brasil, com a sociedade cada vez mais inquieta. Precisamos ter claro que, para os males da liberdade de imprensa, apenas mais liberdade de imprensa e expressão. A partir daí começamos a depurar o que é fundamental. Isso representa o mais importante da democracia: o direito de ser informada”. A reflexão, do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Claudio Lamachia, feita bem junho passado, é fundamental hoje, quando o presidente eleito, Jair Bolsonaro, em sua primeira entrevista como presidente eleito, fez graves ameaças ao Jornalismo brasileiro.

Na última segunda-feira (29), depois de dizer em entrevista ao “Jornal Nacional” (assista abaixo), que era “totalmente favorável à liberdade de imprensa”, Bolsonaro acusou o jornal “Folha de S.Paulo” de propagar notícias falsas a respeito dele e disse que irá cortar as verbas de propaganda oficial de veículos jornalísticos que agirem, na avaliação dele, “mentindo descaradamente”.

Bolsonaro citou uma reportagem veiculada pelo jornal no início do ano, revelando que uma funcionária lotada no gabinete dele vendia açaí em um pequeno comércio de Angra dos Reis, na mesma rua onde fica sua casa de veraneio. Na ocasião, ele alegou que a assistente estava de férias. Ontem, Bolsonaro desqualificou as informações da reportagem dizendo que o jornal havia mentido no episódio.

Em nota, a “Folha de S. Paulo” afirmou que “o presidente eleito se engana”. “A reportagem da Folha mostrou que uma funcionária sua na Câmara dos Deputados trabalhava em horário de expediente vendendo açaí em Angra dos Reis (RJ) em mais de uma ocasião e em meses diferentes. Tanto que ela acabou exonerada por ele. Jair Bolsonaro, mesmo após eleito presidente, não deixa de ameaçar a Folha. Ainda não entendeu o papel da imprensa nem a Constituição que promete obedecer”, destacou o veículo.

Na entrevista ao JN, Bolsonaro foi questionado se seria do seu desejo que o jornal acabasse. Ele então citou as verbas do governo. “Não posso considerar essa imprensa digna. Não quero que ela acabe, mas, no que depender de mim, da propaganda oficial do governo, a imprensa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente, não terá apoio (financeiro) do governo federal”, afirmou.

Ele também criticou reportagem recente da “Folha de S. Paulo” sobre empresas que bancaram disparos de mensagens falsas contra o PT. Mais cedo, em entrevista à TV Record, o presidente eleito afirmou que não vai atuar para impor limites à liberdade de expressão, deixando a tarefa aos cidadãos. “Quem vai impor limite é o leitor. Tem certos órgãos de imprensa que caíram em descrédito por ocasião das eleições. Estão perdendo assinantes ou telespectadores. Quem vai limitar isso vai ser o cidadão na ponta da linha”, disse Bolsonaro.

Âncora e editor-chefe do JN, William Bonner saiu em defesa da "Folha" e afirmou que o jornal é parte do conjunto da imprensa profissional do país.

“Presidente, me permita. Como editor-chefe do Jornal Nacional, eu tenho um testemunho a fazer. Às vezes, eu mesmo achei que críticas que o jornal 'Folha de São Paulo' tenha feito ao Jornal Nacional pareceram injustas. Isso aconteceu algumas vezes. Mas para ser justo do lado de cá, eu preciso dizer que o jornal sempre nos abriu a possibilidade de apresentar as nossas discordâncias, os nossos argumentos e aquilo que entendíamos ser a verdade. A Folha é um jornal sério, que cumpre um papel importantíssimo na democracia brasileira. É um papel que a imprensa profissional brasileira desempenha e a 'Folha' faz parte desse grupo”, afirmou o jornalista.

O direito à liberdade de expressão e de imprensa é garantido pela Constituição Federal e pelos tratados internacionais que o país assinou. Caso veja erro ou má fé em um conteúdo publicado por uma empresa jornalística, um político deveria buscar, junto ao veículo de comunicação, seu direito de resposta. E se isso for insuficiente, ir à Justiça atrás de reparação. 

De acordo com dados do projeto Ctrl+X, da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Bolsonaro é o 2º político da história que mais tentou ocultar notícias negativas e posts críticos a seu respeito. Nestas eleições, ele moveu 24 processos para retirada de conteúdo do ar.

Em resumo, o presidente eleito ameaçou a imprensa em geral, com o corte de verbas publicitárias, caso se considere atingido por alguma reportagem. Persiste no erro. Como qualquer cidadão, o governante tem todo o direito de reclamar do trabalho jornalístico, mas pelos meios devidos, como a Justiça. Não pode utilizar o poder do Estado para punir veículos por decisão própria, sem qualquer mediação legal. Trata-se de ataque à liberdade de imprensa, protegida pela Constituição.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o cientista político Leandro Consentino, do Insper, apontou os riscos em o Executivo privilegiar abertamente veículos que fazem apenas cobertura favorável ao governo. "Democracia tem a ver com pressupostos e regras claras, e não tem a ver com os melhores amigos."

Ele lembrou, no entanto, que o governo do ex-presidente Lula (PT) também teve episódios de rixa com os principais veículos de imprensa do País. O petista passou boa parte de seu mandato acusando os jornais e emissoras de TV de "imprensa golpista". "No começo do governo Lula, fizeram uma reportagem e ele [Lula] tentou expulsar um correspondente do País. São situações muito ruins para um País democrático."

Reincidente

Não é a primeira vez que Bolsonaro ataca a imprensa. No sai 21 de outubro (assista acima), em discurso transmitido pelo celular para uma manifestação na Avenida Paulista, ele há havia dado o recado autoritário que deve guiar sua relação com a imprensa crítica.

No discurso, Bolsonaro disse: “Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de São Paulo. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames.”

Associações de jornalistas profissionais manifestaram repúdio aos ataques. Para as organizações, as declarações de Bolsonaro ameaçam a liberdade de imprensa e a democracia, demonstram que o candidato não compreende a função do jornalismo e elas impõem ao público o discurso que é mais conveniente para o militar.

Marcelo Rech, presidente ANJ (Associação Nacional de Jornais) e vice-presidente do Fórum Mundial de Editores disse que o teor das declarações de Jair Bolsonaro revela ignorância sobre a função da imprensa.

"É lamentável esse tipo de comentário, sobretudo vindo de um candidato à Presidência da República, pois demonstra incompreensão sobre o papel do jornalismo. Também é condenável a ameaça de retaliação com investimentos publicitários do governo, que devem seguir sempre critérios técnicos e não políticos", afirmou Rech no dia seguinte a manifestação.​

Para a ABRAJI, políticos atacam a imprensa porque preferem impor ao público o discurso que mais convém aos interesses deles. Ainda segundo a associação, é função do bom jornalismo cobrar que os candidatos, independente da posição ideológica, respeitem às leis e o regime democrático.

“Para demonstrar algum compromisso com a preservação da democracia, o candidato deveria condenar a intimidação de jornalistas, em vez de fomentar essa prática”, disse Daniel Bramatti, presidente da associação.

Para Christophe Deloire, secretário geral da Repórteres sem Fronteiras, a campanha de ódio e difamação alimentada por Jair Bolsonaro fragiliza uma sociedade já fortemente polarizada.

“Os eleitores brasileiros não devem se deixar enganar pelos discursos de fachada, por trás dos quais se esconde uma verdadeira violência que não poupará o jornalismo. Jair Bolsonaro é uma grave ameaça para a liberdade de imprensa e para a democracia", disse Deloire.

Também em nota logo após o discurso do dia 21, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) disse que espera que "a incontinência verbal do candidato Jair Bolsonaro (PSL) em relação à Folha tenha sido proferida no calor das paixões". A se levar em conta a entrevista do dia 29, não foi...

Linchamento virtual de jornalistas

No último dia 24 Bolsonaro já havia feito ameaças a Folha de SP via Twitter. “A mamata da Folha de S.Paulo vai acabar, mas não é com censura, não! O dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar e, mais, com sua credibilidade no ralo com suas informações tendenciosas são menos sérias [sic] que uma revista de piada!", tuitou, seis dias depois de o jornal publicar uma reportagem em que aponta que empresários que o apoiam bancaram o disparo em massa de mensagens via WhatsApp contra o PT. E horas depois de a Folha anunciar que pediu para que a Polícia Federal investigue ameaças a seus profissionais por "indícios de uma ação orquestrada com tentativa de constranger a liberdade de imprensa".

A mamata da folha de são paulo vai acabar, mas não é com censura não! O dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar, e mais, com sua credibilidade no ralo com suas informações tendenciosas são menos sérias que uma revista de piada!

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 24 de outubro de 2018
O jornal denunciou a campanha que foi praticada contra quatro de seus profissionais, entre eles a jornalista Patrícia Campos Mello, autora da reportagem que revelou o esquema no WhatsApp, que pode indicar a existência de uma fraude eleitoral. Um dos números mantidos pela Folha recebeu mais de 220.000 mensagens de 50.000 contatos no WhatsApp. Patricia teve seu aplicativo hackeado e usado para disparar mensagens favoráveis a Bolsonaro, além de ter uma imagem falsa sua atrelada ao então presidenciável Fernando Haddad divulgada na internet. Apoiadores de Bolsonaro também convocaram eleitores do capitão reformado à confrontá-la pessoalmente em um evento em que a jornalista seria a mediadora.

Além de Patrícia, outros três colaboradores da Folha foram vítimas de ataques virtuais. Na noite da o dia 19 de outubro o repórter Ricardo Galhardo, do O Estado de S. Paulo, teve seu celular divulgado no Twitter pelo empresário Luciano Hang, que, segundo a Folha, teria ajudado a bancar o disparo das mensagens, após questioná-lo para uma reportagem. A plataforma removeu a postagem por considerá-la abusiva, contudo o jornalista passou a receber mensagens agressivas de apoiadores do candidato.

Diante dos episódios, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) pediu para que as autoridades brasileiras garantam a segurança dos jornalistas brasileiros que estão cobrindo as eleições no país. "Numa democracia turbulenta como a do Brasil, a liberdade de expressão é um direito fundamental, antes e depois das eleições", disse a entidade pelo Twitter.

As autoridades brasileiras devem garantir a segurança dos jornalistas brasileiros que estão cobrindo as eleições no país. Numa democracia turbulenta como a do Brasil, a liberdade de expressão é um direito fundamental, antes e depois da eleição de 28 de outubro. #Eleicoes2018

— CPJ Américas (@CPJAmericas) 23 de outubro de 2018
Em 2018, 137 profissionais da comunicação foram vítimas de alguma forma de agressão no país. As ocorrências aconteceram em contexto político, partidário e eleitoral. Agressões físicas correspondem a 62 registros, com 60 profissionais atingidos. Os demais ataques, 75, foram praticados via internet e afetaram 64 profissionais diferentes. O Brasil ocupa o 102º lugar, em uma lista de 180 países, na classificação de liberdade de imprensa mundial. O ranking realizado pela Organização Repórteres Sem Fronteiras aponta que o ambiente de trabalho para jornalistas no país é cada vez mais instável por conta de ameaças e agressões durante manifestações políticas e assassinatos de profissionais da comunicação instalados em regiões mais afastadas das metrópoles.

Para Daniel Bramatti, a onda de linchamentos virtuais de jornalistas é uma tendência nova de intimidação e pode apresentar um sério risco à democracia. “O problema é o estímulo à intimidação, a ações coletivas para expor os profissionais e até suas famílias. Isso tudo não é condizente com a liberdade de expressão e com a liberdade de imprensa”, pontua. A ABRAJI lançou uma cartilha com orientações práticas sobre como lidar com ataques nas redes, prezar pela segurança e pelo uso consciente das redes sociais. "Espero não ter que usar o verbo no passado, mas até recentemente nos sentíamos seguros trabalhando nas capitais. É preciso que isso se mantenha, porque um jornalista que não trabalha com segurança, não trabalha com liberdade", diz Bramatti.

O que Bolsonaro e aliados falam sobre imprensa nas redes sociais

Em diversas declarações, Jair Bolsonaro defendeu a liberdade de imprensa. No entanto, ao mesmo tempo, o militar já fez duras críticas às empresas de comunicação e aos conteúdos produzidos com críticas a ele. Em suas redes sociais, aliados do capitão do Exército na reserva também se expressam da mesma forma.

Bolsonaro tem como maior canal de comunicação as redes sociais. Desta forma, analisamos as redes sociais de Bolsonaro, do seu candidato a vice-presidente General Mourão (PTRB), de 3 de seus filhos (Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro), e de seus aliados cotados a serem ministros e auxiliares em seu governo, para verificar o que dizem a respeito da imprensa.

No Twitter do militar pode-se verificar suas manifestações sobre o tema.

No dia 11 de outubro, o candidato do PSL defendeu a liberdade de imprensa: “Sabemos da importância da liberdade de imprensa. Quando cobre os fatos, sem ativismo político e parcialidade, a mídia cumpre seu papel valoroso de informar as pessoas. Apesar do claro aparelhamento, ainda há uma parte que não se rendeu ao sistema e realiza muito bem esta função”.

Bolsonaro afirma que parte da imprensa se “rendeu” a ideologia de esquerda e que frequentemente “distorce informações” e publica notícias falsas a seu respeito.

“Grande parte de nossa imprensa é de esquerda e está a serviço do socialismo. O controle social da mídia é uma realidade que parece não assustar muita gente. Se me censuram é porque defendo exatamente o oposto: liberdade, menos estado, respeito à família”, disse no dia 18 de janeiro.

O candidato do PSL também diz  que a imprensa foi controlada pelos governos do PT. “Queremos uma imprensa livre. O PT tudo fez para censurá-la via controle social da mídia. O povo mostra para a Globo que liberdade não é publicar mentiras”, disse, em 24 de maio.

No dia 20 de outubro, após reportagem da Folha, o militar falou no mesmo sentido, mas afirmando que a esquerda quer controlar os meios de comunicação. “Defendemos a liberdade de imprensa e internet pois trata-se de livre expressão e cabe às pessoas decidir no que acreditar, filtrando e buscando informações. Controlar estes meios, como quer abertamente a esquerda, faz parte do processo de implementação de um estado totalitário”.

Eis algumas manifestações do candidato em seu perfil no Twitter sobre imprensa:

A MÍDIA & A ESQUERDA: "A IMPRENSA TENTA A TODO CUSTO COMPRAR A CORDA QUE IRÁ ENFORCA-LA."

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 29 de outubro de 2016

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Grande parte de nossa imprensa é de esquerda e está a serviço do socialismo. O controle social da mídia é uma realidade que parece não assustar muita gente. Se me censuram é porque defendo exatamente o oposto: liberdade, menos estado, respeito à família, ... Via André Fernandes pic.twitter.com/7Vo4XAMLM0

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 18 de janeiro de 2018

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- Queremos uma imprensa livre.

- O PT tudo fez para censurá-la via "controle social da mídia.

- O povo mostra para a Globo que liberdade NÃO É PUBLICAR MENTIRAS. pic.twitter.com/T6f2oWD5UB

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 26 de maio de 2018

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Por representar um risco à esquerda na sua intenção de controlar a mídia, sou um dos alvos favoritos de mentiras e distorções maldosas veiculadas pela mesma, que atua grande parte à serviço da própria esquerda. É a imprensa lado a lado com quem mais ameaça sua liberdade. Irônico!

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 27 de julho de 2018

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Diferente do candidato presidiário, sempre me posicionei contra o controle da mídia. Mesmo assim sou o alvo favorito. Parece que a liberdade não interessa para parte da imprensa aparelhada, mas apenas as relações$ promíscuas com a esquerda, nocivas à informação e à democracia.

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 28 de setembro de 2018

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Este fiasco grande parte da mídia não mostra! Tentam te convencer de todo jeito que o pai do kit-gay e pau mandado do corrupto preso tem crescido nas pesquisas. As mentiras só aumentarão até o fim! ! pic.twitter.com/x7inDfVRtV

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 29 de setembro de 2018

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Não permitiremos que controlem a mídia e a internet e que acabem com a Lava Jato. Nosso país não merece ser governado de dentro da cadeia ou por seus alinhados políticos mascarados como opções, mas com a mesma essência que nos destrói. Vamos juntos impedir que destruam o Brasil.

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 3 de outubro de 2018

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Sabemos da importância da liberdade de imprensa. Quando cobre os fatos, sem ativismo político e parcialidade, a mídia cumpre seu papel valoroso de informar as pessoas. Apesar do claro aparelhamento, ainda há uma parte que não se rendeu ao sistema e realiza muito bem esta função.

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 11 de outubro de 2018

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Ao contrário do que propõem nossos adversários, SOMOS CONTRA QUALQUER TIPO DE CONTROLE SOCIAL DA MÍDIA E INTERNET.

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 11 de outubro de 2018

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Imprensa lixo! https://t.co/9qq0DDWCMy

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 11 de outubro de 2018

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Defendemos a liberdade de imprensa e internet pois trata-se de livre expressão e cabe às pessoas decidir no que acreditar, filtrando e buscando informações. Controlar estes meios, como quer abertamente a esquerda, faz parte do processo de implementação de um estado totalitário.

— Jair Bolsonaro 17(@jairbolsonaro) 20 de outubro de 2018
Publicações de aliados sobre a imprensa

Todos os aliados de Bolsonaro defendem que a ideia de que a imprensa possui uma ideologia de esquerda por publicar notícias críticas ao candidato do PSL. Também afirmam que a imprensa contribuiu para a chegada de Fernando Haddad no 2º turno, caso o contrário, o militar deveria ter ganho a disputa já no 1º turno.

Verificamos as redes sociais de todos os aliados do militar e encontrou publicações referente à imprensa de: General Mourão, Onyx Lorenzoni, Delegado Francischini, General Augusto Heleno, Marcos Pontes, Marcos Cintra, Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Flávio Bolsonaro.

General Mourão

O candidato a vice-presidente de Bolsonaro, General Hamilton Mourão (PRTB), já afirmou que a imprensa distorce palavras e manipula eleitores.

Eis algumas publicações do general no Twitter:

Bom dia pátria

Estamos extremamente próximos da vitória no 1° turno, conquistem mais um voto de um amigo. O PT, usando o dinheiro de construtoras envolvidas na Lava Jato e com apoio de parte da imprensa, já traçou um plano para manipular eleitores em um possível 2° turno.

— Hamilton Mourão (@GeneraIMourao) 4 de outubro de 2018

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A velha mídia está distorcendo palavras, obrigado Terça Livre por mostrar a verdade. https://t.co/5YkSI3Nzur

— Hamilton Mourão (@GeneraIMourao) 18 de setembro de 2018
Onyx Lorenzoni 

Cotado para ser o ministro-chefe da Casa Civil, o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) só fez publicações em defesa da liberdade de imprensa.

Eis alguns de seus tweets:

Aquela parte da imprensa alinhada ideologicamente com a inversão de valores não contou a história do Soldado Emanoel.

— Onyx Lorenzoni (@onyxlorenzoni) 18 de abril de 2018

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Condenado e ingrato com a parte da imprensa que sempre o bajulou. https://t.co/kaoQZBTL5i

— Onyx Lorenzoni (@onyxlorenzoni) 24 de janeiro de 2018

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Vamos saudar o trabalho da imprensa livre deste país que revela ao mundo toda sujeira dos bandoleiros de Lula.

— Onyx Lorenzoni (@onyxlorenzoni) 5 de abril de 2016
Delegado Francischini

O deputado federal Delegado Francischini (PSL-PR), reeleito e que auxilia propostas de Bolsonaro sobre segurança pública, também já defendeu a liberdade de imprensa: “A imprensa livre faz parte da democracia. Sou contra Controle social da Mídia”, disse em 2012 no Twitter.

No entanto, o deputado também afirma que a imprensa “distorce declarações” e atua contra Bolsonaro.

Eis algumas de suas declarações:

A imprensa livre faz parte da democracia. Sou contra Controle social da Mídia.@irenejornalista #DF

— DelegadoFrancischini (@Francischini_) 6 de janeiro de 2012

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Imprensa tenta de todas as formas destruir Bolsonaro, mas não percebe que está fazendo campanha gratuita para ele.

É esse o Brasil que eu quero! pic.twitter.com/msAuEL6pGs

— DelegadoFrancischini (@Francischini_) 26 de agosto de 2018

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ENQUANTO PETISTAS INFRINGEM A LEI, IMPRENSA ESQUERDISTA DISTORCE DECLARAÇÕES DE BOLSONARO! pic.twitter.com/ZRTv54axis

— DelegadoFrancischini (@Francischini_) 3 de setembro de 2018
Augusto Heleno

O general Augusto Heleno, cotado para ser ministro da Defesa e Segurança Pública, utiliza seu Facebook para fazer críticas a empresas de comunicação, reportagens contra Bolsonaro e à jornalistas.

Para o general, grande parte da imprensa atua a “serviço da quadrilha petista”.

O possível ministro de Bolsonaro chegou a dizer que “a Globo precisava levar a jornalista Miriam Leitão a 1 psiquiatra”.

Eis algumas de suas publicações:

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Marcos Pontes

O astronauta Marcos Pontes, cotado pra ser ministro de Ciência Tecnologia e Inovação, já fez publicação em que afirma que a melhor de conhecer candidatos das eleições “não é pela imprensa”.

Venha conversar conosco hoje em Bauru!

Eleições chegando, é importante conhecer os candidatos e suas propostas.
A melhor forma não é pela imprensa.
A melhor forma é pessoalmente.
Eduardo Bolsonaro,... https://t.co/tHqwklcgjn

— Marcos Pontes (@Astro_Pontes) 15 de setembro de 2018
Marcos Cintra

O mestre em economia Marcos Cintra, que auxilia na forma fiscal de Bolsonaro, já fez publicação criticando a imprensa por ter divulgado informações sobre a proposta citada por Paulo Guedes de “recriar a CPMF”. O candidato do PSL desautorizou a proposta.

Informações equivocadas têm sido divulgadas na imprensa referente à unificação de tributos sobre a movimentação financeira. Importante ressaltar que em momento algum foi proposto recriar a CPMF, algo que rechaço de modo veemente. https://t.co/kxfHAbOCwz pic.twitter.com/HLiuEAQiHb

— Marcos Cintra (@MarcosCintra) 21 de setembro de 2018
Eduardo Bolsonaro

Filho de Jair Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) faz duras críticas à imprensa em seu perfil do Twitter. O filho do militar já afirmou que “as fakes news mais potentes nascem na imprensa”, apesar de já ter feito publicação sobre a imprensa livre.

Para o deputado, “boa parte da imprensa denigre e omite Bolsonaro propositalmente”.

Eis algumas de suas publicações:

As fakes news mais potentes nascem na imprensa. É bizarro como a própria imprensa fala sobre fake news como se ela própria nada tivesse a ver com isso.

— Eduardo Bolsonaro 17 (@BolsonaroSP) 7 de outubro de 2018
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Lá eles tem a Fox, aqui nem isso... https://t.co/MRS8RHDRK1

— Eduardo Bolsonaro 17 (@BolsonaroSP) 17 de setembro de 2018

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Imprensa local é + isenta por ser + independente e dever menos "favores" ao gov.Ao contrário d Lula pregamos q a mídia n pode ser controlada pic.twitter.com/mjMdeiSQ86

— Eduardo Bolsonaro 17 (@BolsonaroSP) 19 de agosto de 2017

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As pessoas estão passa do a ver Bolsonaro como ele é e não como a imprensa (fake news) o pinta.

— Eduardo Bolsonaro 17 (@BolsonaroSP) 10 de outubro de 2017

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Se eleito Lula irá "regulamentar democraticamente" a imprensa, Bolsonaro não. Jornalista tb vota,a bola está c/ vocês.Querem um novo Maduro?

— Eduardo Bolsonaro 17 (@BolsonaroSP) 12 de agosto de 2017
Carlos Bolsonaro

Filho do militar, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) também faz críticas à imprensa. Segundo ele, a grande mídia defende corruptos ou esquecem dos mesmos.

Carlos Bolsonaro já chegou a dizer que a “imprensa é 1 lixo” por publicar notícias contra seu pai.

Eis algumas de suas publicações:

A imprensa vai passar o dia inteiro falando em RACISMO descontextualizando fatos, tentando criminalizar resposta à ofensa e piadas atééé depois do Jornal Nacional... Tudo por falar! Enquanto que os corruptos sendo defendidos ou “esquecidos”! Segue a rotina!

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 28 de agosto de 2018

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Nunca vi tanta rejeição a um candidato! A mídia e os institutos de pesquisa são uma piada! https://t.co/B3yVn45HGi

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 11 de setembro de 2018

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A mídia é um lixo! Tentam a todo custo dizer que Bolsonaro não estaria nem garantido num segundo turno! É inacreditável como cospem na cara da população 24 horas por dia!

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 10 de setembro de 2018

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A imprensa intensifica covarde e maciçamente violências a possíveis eleitores de Bolsonaro tentando colar tais absurdos ao Capitão, ignorando completamente qualquer situação semelhante há tempos de eleitores do marmita do preso corrupto! O sistema está orquestrado e desesperado!

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 11 de outubro de 2018

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Pelo jeito a imprensa nem dormiu esta madrugada! Começaram com a mais maciça ação do período eleitoral por volta de 2:00AM e agindo em bloco. Por que será que não há essa preocupação com os outros candidatos? É o sistema! Muito tranquilo! Mais uma vez se darão mal!

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 28 de setembro de 2018

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A imprensa e os canalhas tentam a todo custo inventar desgastes na campanha de Jair Bolsonaro para beneficiar qualquer outro candidato. Todos sabemos, que graças a vocês, nunca estivemos tão grandes. Não deixemos os abutres plantarem discórdia entre todos nós. Bom dia a todos!

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 20 de setembro de 2018

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A imprensa desesperada nem dormiu de ontem para hoje. Basta ver os “jornalistas” “isentões”, os tais “morde e assopra”, “vai e volta”, falsos difusores da ideia para queimar o presidenciável e ganhar seguidores, vão se mostrando mais e mais! Estamos no caminho certo!

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 10 de agosto de 2018

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Em nome do meu pai, agradeço a consideração de Alagoas-Nordeste! Infelizmente a imprensa não mostrará mais esta bacana e gigantesca reunião, mas graças a Deus ainda temos a internet! É no primeiro turno! pic.twitter.com/xMYXule5O5

— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) 30 de setembro de 2018
Flavio Bolsonaro

Filho do presidenciável e eleito senador em 2018, Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) defende que “a grande mídia fez 1 pacto contra Bolsonaro”.

Flavio já afirmou que a grande mídia “mente tanto que não possui credibilidade“.

Em 2010, o filho do militar também defendeu apoio da mídia à polícia.

Eis alguns de seus tweets:

Razões para “pancadas” da grande mídia não atingirem Bolsonaro:
1) mentem tanto que não possuem mais credibilidade
2) são desmascarados rapidamente aqui nas redes sociais
3) a verdade está com Bolsonaro#FIM #PAZ https://t.co/vKRJwnT7iJ

— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) 12 de maio de 2018

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Acabo de votar contra projeto de deputado do PT criando o “Dia estadual de democratização da mídia” e apresentei outro criando o “Dia estadual da mídia livre e sem censura”. Só deputados de esquerda defendendo a ameaça à liberdade da imprensa. As máscaras vão caindo...

— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) 21 de novembro de 2017
Ataque ao Congresso em Foco

Flávio Bolsonaro também acusou o site Congresso em Foco de receber dinheiro do governo “para fazer militância política esquerdopata”. A afirmação coincide com outras manifestações com que o site foi brindado, nas redes sociais, após publicar editorial no qual deixou explícita a opinião de que "Bolsonaro é o pior que nos pode acontecer".

Eis o post que Flávio Bolsonaro publicou no último dia 27, para os seus mais de 1,3 milhão de seguidores no Instagram:

“A imputação é falsa da primeira à última letra. Fosse verdadeira a afirmativa de Flávio Bolsonaro, teríamos faturado em publicidade do governo federal no ano passado R$ 1,2 milhão, certo? 100 mil x 12. Pois o faturamento total foi de R$ 70.783,00. Em homenagem a nossos leitores, abrindo mão do sigilo comercial pelo qual toda empresa procura zelar, também informamos as receitas federais faturadas em 2018 (valores em reais):

Janeiro – zero

Fevereiro – zero

Março – 4.424

Abril – 12.715

Maio – 23.662

Junho – zero

Julho – zero

Agosto – zero

Setembro – 12.429

Outubro – zero

Total – 53.230

Fomos ao ar pela primeira vez em 12 de fevereiro de 2004. Dessa data até o final do governo Lula, em dezembro de 2010 – um período, portanto, de sete anos – faturamos contra o governo federal o exato montante de R$ 65.700”, afirma o veículo.

O Congresso em Foco diz que a “esquerdopatia” de que é acusado deve ter sido inspiração para várias reportagens e levantamentos que revelaram com exclusividade o envolvimento em atos questionáveis, e possivelmente ilícitos, de pessoas e instituições ligadas ao PT e à esquerda. Dois exemplos, dentre tantos possíveis, são a matéria que desnudou a operação feita entre a Odebrecht e o BNDES para a construção do porto de Mariel, em Cuba, e a notícia sobre o inquérito em que a Procuradoria-Geral da República investigava a suspeita de que Lula era o chefe do petrolão.

“Esquerdopatia” também evidente no espaço que o Congresso em Foco sempre teve prazer em oferecer às mais diversas correntes de pensamento e personalidades, inclusive algumas que anunciaram voto em Bolsonaro para presidente, como o deputado e virtual chefe da Casa Civil no governo, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e o cientista político Paulo Kramer, que assessora a equipe do futuro governo.

“Não publicamos o editorial em favor da esquerda, do partido P, do candidato H ou de qualquer força ideológica ou figura política. Publicamos em nome da democracia, valor que a família Bolsonaro parece ter grande dificuldade em compreender”, afirma o veículo.

Resposta tímida

Um dos poucos homens públicos a se manifestarem sobre as ameaças de Bolsonaro foi o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB). Por meio do Twitter, disse que os ataques feitos pelo presidente eleito são um "acinte a toda a imprensa"

Ainda segundo o tucano, "alguns fazem críticas aos seus críticos porque não conhecem seus próprios limites."

"Começou mal. A defesa da liberdade ficou no discurso de ontem", publicou Alckmin no Twitter. "Os ataques feitos hoje pelo futuro presidente à Folha de São Paulo representam um acinte a toda a Imprensa e a ameaça de cooptar veículos de comunicação pela oferta de dinheiro público é uma ofensa à moralidade e ao jornalismo nacional. É pretender substituir a liberdade de Imprensa pelo clientelismo de Imprensa. Alguns fazem críticas aos seus críticos porque não conhecem seus próprios limites. O futuro Presidente vai ter de conviver e de respeitar todos e, em especial, os que a ele dirijam críticas."

Os ataques feitos hoje pelo futuro presidente à Folha de São Paulo representam um acinte a toda a Imprensa e a ameaça de cooptar veículos de comunicação pela oferta de dinheiro público é uma ofensa à moralidade e ao jornalismo nacional.

— Geraldo Alckmin (@geraldoalckmin) 30 de outubro de 2018
O candidato derrotado ao governo do Rio de Janeiro Eduardo Paes (DEM) também usou sua conta no Twitter em defesa da Folha de S.Paulo. Na rede social, Paes disse que acabou de renovar a assinatura da Folha e mencionou os repórteres Ítalo Nogueira e Catia Seabra, além do colunista Álvaro Costa e Silva.

"Acabei de renovar assinatura da @folha Aliás, tô sempre c o @italonogueira_ no meu pé. Função dele né? Aliás, já tem umas 3 semanas q o @alvaromarechal não me detona em sua coluna! Falta eu ñ sinto das pancadas q ele dá mas respeito as opiniões por mais duras que sejam." "E adoro que a @catia_Seabra esteja em São Paulo. Mas se voltar p o Rio para ficar no meu pé, continuarei assinando. São necessários!", disse nos tuítes.

Acabei de renovar assinatura da @folha Aliás, tô sempre c o @italonogueira_ no meu pé. Função dele né? Aliás, já tem umas 3 semanas q o @alvaromarechal não me detona em sua coluna! Falta eu ñ sinto das pancadas q ele dá mas respeito as opiniões por mais duras que sejam.

— Eduardo Paes (@eduardopaes_) 30 de outubro de 2018
Outra a defender o jornal foi Míriam Leitão, colunista de O Globo: "Eu quero um Brasil com a Folha de S. Paulo. Longa vida ao jornal do grande e saudoso Otavinho Frias", disse pelo Twitter, citando o diretor de Redação Otavio Frias Filho (1957-2018), morto em 21 de agosto.

Queridos da @folha @monicabergamo @camposmello @MauroPaulino e outros. Eu quero um Brasil com a Folha de S.Paulo. Longa vida ao jornal do grande e saudoso Otavinho Frias

— Míriam Leitao.com (@MiriamLeitaoCom) 29 de outubro de 2018
Antes mesmo do segundo turno, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso já havia saído em defesa da liberdade de imprensa, no dia 25. "Intimidações a pessoas, jornais ou a quem seja são inadmissíveis. Repudio ameaças à Folha e a seus jornalistas, com energia. Os democratas, apoiem um candidato ou outro, votem em branco ou nulo, têm o país, o respeito à divergência e a liberdade de pensamento acima de tudo."

A FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), representante máxima da categoria no Brasil, expressou sua preocupação com o futuro do país após a eleição de Bolsonaro. A Federação emitiu nota repudiando a violência contra jornalistas e, em especial, as declarações do assessor de Bolsonaro, Eduardo Guimarães, que enviou mensagem ofensiva a diversos jornalistas de diferentes veículos de mídia logo após o fechamento das urnas; e à agressão a jornalistas durante a cobertura das comemorações da vitória de Bolsonaro em mais de um Estado brasileiro.

“Os muitos casos de agressões contra jornalistas ocorridos durante a campanha eleitoral e a indiferença de Bolsonaro diante dos ataques reforçam o que a trajetória política dele já demonstrara: o político de ultra-direita é avesso a críticas e não admite ser questionado publicamente, mesmo quando as questões dizem respeito à sua atuação como homem público.

Ainda que Bolsonaro tenha assumido o compromisso de respeitar a Constituição brasileira, é de conhecimento público suas ideias autoritárias, como a defesa da ditadura militar, e até mesmo criminosas, como a apologia à tortura. Resta saber como vai se comportar a partir de agora, e se vai se submeter às regras democráticas, entre elas a do respeito às liberdades de expressão e de imprensa”, questiona a FENAJ.

A resposta tímida da imprensa aos ataques que Bolsonaro e sua cúpula têm feito, reiteradamente, aos meios de comunicação consolida o início "da domesticação buscada pelo autoritarismo", reflete Janio de Freitas na sua coluna "Quando não há resposta a ataques autoritários, perde-se liberdade", publicada no dia 25 passado.

Janio explica que a tímida reação da imprensa diante da ação autoritária e virulenta de Bolsonaro ameaça a liberdade de manifestação política, uma vez que, para haver "relação harmoniosa, é necessário silêncio ou complacência da imprensa sobre as falhas do poder".

"Aqui e fora, sempre que a imprensa não respondeu com altivez aos ataques autoritários, sua tibieza [fragilidade] foi debitada na conta da liberdade. Em geral, não só a de imprensa, mas logo, também, a do teatro (presença infalível entre as primeiras vítimas) e demais artes", afirma.

Janio avalia que, em parte, a postura da imprensa reflete o medo da criação de algo como um Conselho de Ética dos Meios de Comunicação, propostos nos governos petistas, e comum na Europa, porém um mecanismo que vem sendo criticado como controlador.

"O que temeram à toa em Lula e Dilma, as empresas de comunicação temem agora com motivo. No pelotão Bolsonaro, não há general, além do próprio candidato, que não faça à imprensa restrições a seu ver necessitadas de medidas enérgicas", destaca Janio.

Entretanto, por mais que a imprensa procure aparentar indiferença às agressões, isso não impedirá que a cúpula de Bolsonaro enxergue os meios de comunicação como um perigo em um possível mandato. 

Por fim, Janio chama atenção ao perfil daqueles que cercam o candidato, como seu filho Eduardo, gravado ameaçando fechar o Supremo Tribunal Federal, o que obrigou o pai a pedir desculpas em nome da prole. "Pais se desculpam pelos filhos ainda imaturos", pontua o articulista. 

O vídeo do coronel Carlos Alves ameaçando energicamente o STF incluindo frases como "vamos derrubar vocês aí, sim", caso Bolsonaro seja punido pela fraude digital na eleição brasileira, é outro alerta do articulista, chamando atenção, em seguida, para a inércia do poder Judiciário no escândalo do WhatsApp: "A revelação da fraude tem quase duas semanas e os tribunais, nada. E a Procuradoria Geral da República, nada. E a Polícia Federal, nada". 

Em resumo, o governo Bolsonaro terá pouca dificuldade de manifestar seu autoritarismo com instituições fracas e a maior bancada da Câmara dos Deputados, conquistada no primeiro turno. 

O jornalista Renato Rovai, concorda. Para ele, Bolsonaro está conseguindo vencer o braço de ferro com a imprensa tradicional nos primeiros dias após a sua vitória. Ele cita a própria reação da Folha às críticas feitas por Bolsonaro no Jornal Nacional.

“Se fossem Dilma e Lula a dizer isso, hoje este seria o assunto de todos as rádios, jornais, TVs e geraria uma quantidade imensa de notas de associações de imprensa nacionais e internacionais. Bonner sequer teve a coragem de dizer a Bolsonaro que essa sua reação era anti-democrática e ilegal. Que o governo federal tem obrigação de adotar a mídia técnica na distribuição de recursos. Bonner se limitou apenas a fazer considerações positivas acerca da Folha, mas quase que pedindo desculpas a Bolsonaro por não concordar com ele”, afirmou.

Aquele editor do JN de garras afiadas e que não deixava os candidatos a presidente sequer responderem questões se escondeu debaixo da mesa. Sobrou um guaguejante apresentador que rapidamente entregou a palavra a Renata Vasconcellos, quase que pedindo socorro para que ela o salvasse da saia-justa.

Bolsonaro além de ameaçar a Folha disse que o jornal fez fake news no caso da sua funcionária da Câmara que trabalhava vendendo açaí enquanto deveria estar no serviço público. Nada de Bonner falar.

“Mas o mais bizarro foi a Folha dar uma nota dizendo que Bolsonaro se enganou em relação ao episódio. Bolsonaro não se enganou pipoca nenhuma. Ele mentiu de forma deliberada. Mas a Folha preferiu ficar pianinho. Quem esperava um editorial duro do veículo na sua capa por ter sido ameaçado pelo futuro presidente, se decepcionou de novo. A manchete principal ficou para a previdência. E a nota sobre o ataque mereceu pequeno destaque”, opina Rovai.

Para o jornalista, a capitulação da Globo e da Folha são sinais claros de que há medo dessas empresas do que possa vir a acontecer com suas empresas com Bolsonaro no poder. Acontece que além dessas ameaças aos principais grupos de comunicação do país, Bolsonaro e seus principais aliados também estão ameaçando movimentos sociais, adversários políticos, professores de universidades, artistas, jornalistas etc.

“Se os grandes se calam e se acovardam os pequenos fazem o quê? Globo e Folha podem ter com suas reações tímidas aberto o caminho para a ditadura de Bolsonaro. Ainda é cedo para cravar isso. Mas os sinais e a reação de ontem e hoje são absolutamente preocupantes, porque imperou a covardia e o bundamolismo”, argumenta.

Autoengano

Para o jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto, Bolsonaro tem mostrado reiteradamente que seu governo mostra sinais de que irá desrespeitar as liberdades de expressão e de imprensa, quando houver material viés crítico a ele, fomentando um macarthismo à brasileira. “Perseguirá, com isso, veículos de comunicação, jornalistas, intelectuais, artistas, lideranças sociais, ambientais e trabalhistas”, afirma.

“E, novamente, o que ouvimos de volta de muita gente boa e que respeito é que isso não vai acontecer porque 'a instituições estão funcionando normalmente''. Logo após concretizada a vitória do deputado nas urnas, muitos dos negacionistas passaram a tentar vender uma imagem de Bolsonaro que não condiz com a realidade, talvez no intuito de normalizá-lo. Ou na crença de que ele, por bom senso, irá vestir essa nova imagem e proteger as instituições, como a imprensa. Um erro, pois não deveríamos analisar com base na fé, mas nos fatos”, diz o jornalista.

Para Sakamoto, parte da sociedade ignorou o primeiro discurso que Bolsonaro fez após eleito, improvisado, mas sincero, via live do Facebook, no qual abusou do militarismo e não fez uma sinalização concreta para curar as feridas deixadas pela guerra eleitoral. “Parece que as pessoas só tiveram olhos ao segundo discurso, escrito por assessores e transmitido pelas TVs, em que se comprometeu com liberdades e com a Constituição. Ouvi e li repetidas vezes que isso seria a prova de ele estava caminhando no sentido da distensão e pregando a União nacional”, diz.

Durante a campanha, parte dos apoiadores de Jair Bolsonaro passou a atacar qualquer jornalista que trouxesse notícia, análise ou opinião crítica sobre seu candidato. Atiçadas por formadores de opinião simpáticos a ele, que postam declarações grávidas de ódio, campanhas de difamação nas redes sociais e grupos de WhatsApp nos deram uma mostra do que pode ser a barbárie contra os profissionais de imprensa a partir do ano que vem.

“A violência contra jornalistas nunca foi monopólio de bolsonaristas, como mostram os registros de agressões de petistas, como na manifestação que antecedeu a prisão de Lula. Mas parece que eles estão se esforçando para que seja. E entrevistas como essa de Bolsonaro empoderam ainda mais as hordas"

Na festa pela vitória no domingo (28), também na avenida Paulista, outra repórter da Folha, Anna Virginia Balloussier foi cercada e hostilizada por eleitores de Bolsonaro. Foram registrados outros casos de violência contra jornalistas envolvendo, ao menos, profissionais de O Povo, TV Tribuna, Diário de Pernambuco e do RTL Nieuws também no domingo.

Bolsonaro pode não gostar da cobertura de determinados jornais, revistas, sites, canais de rádio e de TV, do posicionamento de colunistas e blogueiros e discordar profundamente da pauta conduzida por uma repórter. Mas o respeito aos jornalistas, sejam eles de veículos tradicionais ou alternativos, mídia grande ou pequena, liberal ou conservadora, segue sendo um dos pilares da democracia. “Sem uma imprensa livre, o poder político e econômico estaria bem à vontade para ser mais tosco do que já é”, argumenta o cientista político.

O problema não são suas ameaças de bloquear anúncios públicos. Isso é bobagem para entregar à horda de fãs de alguma munição para as redes sociais. A Folha, como tantos outros veículos, não depende dessa verba, mas de leitores que considerem importante defender a democracia e um espaço plural de debate. Vai continuar circulando e fiscalizando o governo com ou sem anúncios. Outros governos, como o de Lula e o de Temer, já agiram dessa forma, mirando veículos de diferentes espectros ideológicos com o corte de verba publicitária e a vida seguiu seu curso.

O problema é que Bolsonaro tem copiado o modus operandi de Donald Trump. Elegeu a parte não-alinhada da imprensa como um de seus inimigos durante a campanha e, agora, mantém essa batalha acesa. Isso gera uma constante instabilidade que provoca um medo contínuo quanto a esse inimigo. E, dessa forma, consegue manter controle.

Os ataques a jornalistas não se resumem a enxurradas de críticas, o que faria parte do debate público. Invade sua vida privada, distorce fatos, expõe dados pessoais, ameaça filhos e pais. A perseguição é sempre mais violenta quando o alvo são mulheres, quando o ataque também ganha cunho sexual. Por vezes, transborda a rede e vai para a rua, para o restaurante, para a porta da casa. O processo de ataque aos jornalistas se assemelha à tortura – instrumento de trabalho do açougueiro Brilhante Ustra, assassino da ditadura militar, apontado como herói por Bolsonaro e por seu vice, Hamilton Mourão. Tudo isso não é feito para o jornalista em questão seja punido pelo que fez, mas para que, traumatizado, nunca mais tenha coragem de tratar dele novamente.

“Sempre defendi que Bolsonaro pode ser muita coisa, mas não é burro. Pelo contrário, ninguém sai do zero, sem padrinho, sem estrutura partidária, e chega à Presidência da República se não for esperto politicamente (ou virtuoso, no sentido que Nicolau Maquiavel deu à palavra) para entender a conjuntura e surfá-la. Sempre levei a sério o que disse, mesmo quando pregava no deserto. E, portanto, não acredito que cometerá um estelionato eleitoral quanto às promessas de tentar varrer e banir aqueles que veja como adversários”, diz Sakamoto.

Se conseguirá isso ou não vai depender do nível de fiscalização e resistência que for feita a atos antidemocráticos. E, para tanto, da consciência da população sobre o que está acontecendo. Ou seja, a imprensa se torna ainda mais necessária quando está sob ataque.

Por que parte da sociedade, jornalistas inclusos, insiste, de forma arrogante ou ingênua, em fazer de conta que ele não fará o que ele vem repetindo que fará? Por que não se trata o presidente eleito como a ameaça a certas liberdades que ele pode ser? Vai precisar de quanta gente ameaçada, presa ou morta para que voltemos atrás em nossa fé de que as instituições estão funcionando normalmente?


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