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Quarta-Feira 21.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Coluna

Como penetrar em Mentes Programáveis

Aprendendo com a institucionalização manicomial dos corpos

Postado em 24 de Outubro de 2018 - Emerson Merhy

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Nada é da ordem do espanto se percebermos que um estudo feito sobre o perfil de 500 mil contas do Google, realizado por um grupo de ingleses, foi com a clara intenção de entender como as “pessoas”, que se vinculavam a essas contas, produziam e consumiam as mensagens que essa ampla rede social viabiliza(va).

Aquele grupo, chamado Cambridge Analytica, construiu, a partir das suas análises das 500 mil contas, em torno de 35 tipos de perfis de produtores e consumidores de mensagens. Perceberam que esses 500 mil corpos eram ensinados, eram marcados, eram constituídos por algumas questões e modos de representá-las, modos de imprimir nas mesmas sentidos para o seu próprio viver, modos de viver valores que emitiam e consumiam subjetivamente.

A partir daí fizeram testagens, como se fosse em um laboratório de estudos comportamentais, de como poderiam influenciar nos modos de cada um daqueles 35 tipos de perfis agirem, ou valorarem certas informações e não outras, ou acreditarem em mensagens sem fundamentos mas que tinham um gancho de verdade no jeito como o corpinho do perfil se constituía.

Toda a construção dessa imaterial tecnologia comunicativa opera(ou) pela conexão de uma lógica comunicação-ação, onde uma palavra de ordem pode(ia) gerar e agenciar, no outro, produções de novas ideias e sentidos, antes não existentes. Palavra de ordem que carrega(va) em si um grande poder de construção performática do modo do outro passar a ser e agir.

Em algumas teorias sobre a linguagem e a ação, como a Teoria dos Atos de Fala, isso já era bem conhecido, porém o que não se tinha ainda experimentado era tudo isso no campo das possíveis manipulações, via redes sociais, em momentos decisivos como um plebiscito ou um processo eleitoral.

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O grupo da Cambridge Analytica, uma empresa privada inglesa de prospecção de processos comunicativos em redes sociais, sabia que tinha conseguido acessar uma informação valiosa para poder mexer e induzir certos corpos já bem programados, e tinha noção do valor de mercado que ela poderia ter se mostrasse um uso bem inédito. Foi a fome com a vontade de comer o encontro entre esse grupo e o grupo de apoio do Trump, na disputa americana.

Esses grupos sabiam que havia uma quantidade de corpinhos que não eram permeáveis a esse processo de interferência comunicativa, mas havia um outro tanto altamente vulnerável a essa ação. Corpinhos com certas certezas sobre si e seus projetos de viver tornam-se mais impermeáveis a estratégias de manipulação desse tipo, mas os outros corpinhos mostravam-se bem aptos a esse exercício.

Sabendo, na eleição americana, que a votação absoluta era favorável à opositora de Trump, mas que em alguns estados menores alguns eleitores dela estavam no limite da incerteza sobre o voto, o grupo de apoiadores do Trump, de posse da tecnologia construída pela empresa inglesa, passa a agir de modo pontual no esforço de modificar certas escolhas ou mesmo induzir escolhas de indecisos em 3 estados que poderiam, pela lógica da proporcionalidade na eleição americana  - que não é por voto direto, virar o jogo de delegados nacionais em favor do Trump. E isso aconteceu.

O que será que eles fizeram?

Por exemplo, imagine o leitor que eu descubra que um indeciso que mora em um desses estados tem um perfil na rede social que me mostra o quanto para ele é problemático tornar a compra de armas ilegal, mesmo que ele não seja alguém que anda armado.

Pelo manejo da rede social - por exemplo o WhatsApp - posso mandar só para ele uma mensagem dizendo: a candidata opositora do Trump disse agora que vai mudar a legalização da compra e porte de armas. Mando essa mensagem com direção certa e crio um mecanismo para que ela desapareça duas horas depois de enviada. Apago o meu rastro e a mensagem em si.

O outro recebe e lê minha mensagem e rapidamente, fazendo sentido para ele, manda para outras pessoas semelhantes ao seu perfil, isto é, do seu grupo da rede social.

A chance de mexer na decisão desse grupo que não irá checar se isso é verdade ou não, é muito forte. E no final do processo eleitoral americano, aqueles 3 estados mudaram a sua tendência em eleger delegados contra o Trump e elegeram delegados pró Trump. Isso mudou o desenho do processo eleitoral americano.

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E aqui no Brasil como será que isso pode funcionar.

Vamos imaginar, brincando de pescador, que você sabe em que parte do lago o peixe que você quer está, e você também sabe que ele gosta de minhoca e não de pão ou de isca de peixe. Então, você vai até aquele ponto do lago e lança sua vara de pescar. Pimba, fisga um atrás do outro.

É essa a ideia.

Com as informações sobre o perfil dos usuários das redes sociais no Brasil, você descobre quais tipos de gentes-peixes existem por aqui, para serem fisgadas conforme a mensagem-isca que você lançar.

Descobre por exemplo que muitas gentes-peixes não associam a imagem do Lula com a do Haddad, ou que consideram Lula autêntico mas o Haddad um mero pau mandado. Pimba, de posse do acesso a rede dessas gentes-peixes você lança sua vara de pescar e, pronto, fisga.

Pode descobrir que muitas gentes-peixes são bem preconceituosas quanto a existência dos comunistas e que acreditam que eles existem mesmo e vão fazer o mal, e pior que eles são os vermelhos. Pimba, de posse dessa informação você lança várias iscas e pesca um montão.

Se a gente-peixe que você quer pescar tem uma vida pobre em experimentações de várias redes de contato diferenciadas, se ela só vive um ou pouco tipo de experiências de opiniões sobre a vida, se o seu pensamento é binário: ou isso, ou aquilo, aí então a coisa é uma baba. É como pegar peixe que está cambaleando, quase não escapa um.

Ao contrário, se a gente-peixe é bem experimentada em várias opiniões e respeita a diferença, tem um pensamento mais complexo, aí você terá dificuldade de pescá-la. Com exceção daqueles que concordam com a visão de mundo do pescador. Aí não é necessária a pesca, pois são todos pescadores, também.

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Óbvio que isso só é possível porque atualmente, por estas paragens, coisas desse tipo são permitidas, mesmo que sejam imorais e antidemocráticas. Por outro lado, problema de quem ficou tanto tempo na direção de governos e não apostou de modo profundo em mudar essas situações, ampliando de fato o viver democrático de todos e todas, tanto em termos econômicos, quanto políticos, sociais e culturais. A pobreza na experimentação da vida em si é mais importante aqui nessas situações do que a material. A pobreza na experiência subjetiva para gerar por si conhecimento sobre as coisas e não só crença empobrece as convivências e radicaliza a intolerância. Seja do lado do espectro político da direita, seja da esquerda. Ambas se mostram intolerantes e preconceituosas.

Esse tipo de vida pobre em conexões existenciais torna os corpinhos mais facilmente programáveis, por aqueles mecanismos comunicativos que descrevemos.

O viver passa a ser do tipo da vida manicomial, isto é, empobrecida no exercício amplo do desejo e da convivência em aberto com qualquer outro que possa se apresentar para um vínculo. O Manicômio de há muito já nos mostrou que a produção de vidas institucionalizadas, pouco desejantes por mundos outros, criam corpos-manicômios aptos a serem facilmente manipulados e abertos a produzirem em si uma vida propriamente empobrecida.

***

Mas, a vida continua. Os dias e as noites continuarão acontecendo. Em encontros outros, afetar e ser afetado continuará funcionando. Novos experimentos de si como obra de arte existencial sempre serão desafios para os que só querem gente-peixe para fisgarem. O lago irá transbordar e novas formas de gente aparecerá. A produção da vida se contraporá àqueles que acham que a violência contra o outro é a melhor forma de fazer política.

A memória sobre vidas melhores e lutas coletivas será vingativa.


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