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Sábado 16.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Artigo da semana

Brasileiro é fascista?

Segmentos com interesses autoritários manipulam nossos traços mais violentos

Postado em 23 de Outubro de 2018 - Vera Iaconelli

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Sua vó de direita, até então inofensiva, é chamada de fascista, misógina e racista? Sua tia de esquerda, cujo pior feito até então era apertar suas bochechas na infância, é xingada de ditadora, terrorista e "comedora de criancinhas". 

Em tempos em que as famílias não conseguem imaginar como será possível comemorar o próximo Natal juntos, há que se perguntar: afinal, serão os brasileiros fascistas?

Se servir de consolo, todos temos um lado tirano e destruidor com o qual passamos a vida tentando lidar e que é causa de sofrimento para nós e para quem nos rodeia. 

Para a psicanálise a própria constituição do psiquismo se dá na rivalidade com o semelhante. Descobrimos quem somos no mesmo instante em que percebemos o outro como rival à espreita. Entre "eu" e o "outro", quem vai levar a melhor? 

A cooperação é o pacto que criamos para inibir nosso desejo de nos livrarmos dos outros, evitando o risco de sermos eliminados também. Com o compromisso assumido de sermos "amiguinhos" e o esforço mantido nessa direção, podemos pegar gosto pela coisa.

Chegamos a nos sentir felizes quando somos considerados bons por abrirmos mão da ambição de termos tudo só para nós. Esse círculo virtuoso, qual seja, evitar a violência primária, estabelecer um pacto de cooperação, ser valorizado socialmente por ser legal, sentir-se em paz consigo mesmo e renovar o pacto de cooperação é o que tentamos incutir nas crianças ao longo de suas vidas para que não nos matemos uns aos outros. 

Outro elemento que nos ajuda a sair da lógica do matar ou morrer é a capacidade, também desenvolvida desde a infância, de nos identificarmos com o sofrimento alheio. O nome dessa competência é empatia. Alguns têm muita, alguns têm pouca. Os que não têm nenhuma são chamados de sociopatas ou psicopatas. Eles se consideram únicos a terem direitos, sendo os demais a escória que pode ser eliminada sem perda. Não há culpa ou arrependimento nessas pessoas. 

Para evitar tais arroubos, cabe a criação e aplicação de leis com as quais todos se sintam equanimemente contemplados. Enfim, nossa sobrevivência depende da inibição da violência, do exercício da empatia e da aplicação da lei para todos. 

No Brasil temos um desafio estrutural, pois a diversidade é nossa marca constitutiva. No último dia 21 cartazes neonazistas ultranacionalistas espalhados pela Universidade de Brasília convocavam para um encontro e diziam: "Vamos eliminar índios, negros e nordestinos". Não posso deixar de me perguntar quem sobraria, mesmo entre os manifestantes. Europeus? Essa lógica equivale a tirar o chocolate e o morango do sorvete napolitano e se dizer "ultranapolitano". 

Como todos os povos que sonham com a Europa, queremos oferecer a nossos filhos uma escola de boa qualidade, condução decente, serviço de saúde eficiente, moradia em um bairro seguro, acesso a lazer e cultura, direito a férias e a aposentadoria. Nem sempre somos capazes de enxergar que, para que isso aconteça, assim como aconteceu lá, temos que promover gestos de cooperação.

Não, o brasileiro não é um povo mais fascista do que os demais, tampouco o eram os alemães na Segunda Guerra. Mas certas situações de instabilidade social e econômica podem ser exploradas por segmentos com interesses autoritários, manipulando nossos traços mais violentos e nossas questões menos elaboradas. Cooperação, empatia e justiça são e sempre serão as únicas formas de conter o pior em nós e nos outros.

Vera Iaconelli - Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade”. É doutora em psicologia pela USP.


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