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Quarta-Feira 21.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Coluna

Obrigado, Bolsonaro!

O ano em que o Brasil tirou sua fantasia e foi votar

Postado em 17 de Outubro de 2018 - Rodrigo Amém

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Eu tinha como prática evitar falar o nome do cara. Isso de algoritmo, orgânico, blá-blá-blá. Também tinha algo de princípio. Não acho produtivo discutir pessoas. Porque pessoas são complexas, contraditórias, irracionais. Prefiro discutir ideias, posicionamentos. E as ideias e posicionamentos do Bolsonaro não eram, por assim dizer, originais. Por pior que sejam os valores do cara, tem gente defendendo a mesma coisa de forma mais consistente. Muitos profetas da tautologia dizem, inclusive, que é o discurso de tiozão do churrasco que deu a Bolsonaro o apoio de sua base. Mas enfim.

Eu não tenho a intenção de defender o Bolsonaro, assim como jamais acreditei na sua "pureza milico-virginal". Décadas de parceria com Paulo Maluf, jabá da JBS, o flerte com terrorismo de caserna que deu origem a sua carreira política. Acho mesmo que é preciso um malabarismo moral vertiginoso para vê-lo como paladino moral. Desses duplos twists carpados que só os religiosos mais fundamentalistas apresentam elasticidade filosófica para realizar.

Mas é preciso agradecer a Bolsonaro.

Porque, graças ao seu despreparo emocional e intelectual, sua candidatura limitou-se a bordões politicamente incorretos e frases de efeito. E isso acabou removendo uma grande pedra de cima do Brasil. Uma pedra multicolorida como num mural de Romero Britto, cheia de referências a frutas tropicais, ao samba e aos legados de Neymar e Niemeyer. Uma pedra que retratava um povo cordial e tolerante, festeiro e caridoso. Pois a campanha do Bolsomito acabou com o Brasil mito. Debaixo da pedra, protegido do sol, o verdadeiro brasileiro foi descoberto rastejando na terra úmida. Alheios ao mundo, indiferentes a outrem, ingerindo e expelindo uma narrativa de reacionária em franca decomposição.

Não foi Bolsonaro que pariu esse Brasil. Ele sempe existiu, sempre muito covarde. Não sairia debaixo da pedra por conta própria. Continuaria sorrindo amarelo e cochichando seus preconceitos. Se hoje podemos ver a real face do brasileiro, isso é graças ao mito.

E graças a ele também, podemos parar de fingir que o debate existe. Podemos abdicar desta roda de hamster que é o discurso lógico, pragmático, o apelo à razão. Porque, se os números governam o universo, a humanidade é regida por narrativas. Por histórias, contos da carochinha que ilustram nossos medos. Enquanto os últimos idealistas tentam combater as Fake News, o Brasil debaixo da pedra, o verdadeiro Brasil, as acolhe como dádivas do céu. "Finalmente, as notícias em que eu quero acreditar!"

Então, vença ou perca, Bolsonaro. Fica aqui o meu registro oficial. Obrigado. Porque você puxou a cortina e revelou onde estava o Brasil que abraçou a ditadura, a tortura, o FMI, a corrupção militar (que é como a civil, só que maior, mais violenta e ainda por cima vestida de paquita). Esse Brasil não morreu de velho. Não se arrependeu. Não mudou para Miami. Esse Brasil está bem, obrigado. Só estava escondido debaixo da pedra, pagando o dízimo e rangendo os dentes. Esperando a hora do bote. E graças a você, Bolsonaro, nós agora sabemos exatamente quem eles são. E poder olhar o adversário na cara já é meia batalha. Valeu, paquito.  


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