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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna

As estreias brasileiras que discutem política em época de eleição

Ao longo de sua história, o cinema brasileiro fez – e continua fazendo – parte de militâncias de diferentes bandeiras

Postado em 17 de Outubro de 2018 - Danilo Custódio

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Ao longo de sua história, o cinema brasileiro fez – e continua fazendo – parte de militâncias de diferentes bandeiras, além de ter sido utilizado como cabo eleitoral para promover grandes personalidades da nossa política. Diferente do jornalismo, o cinema não tenta esconder sua capacidade de ser tendencioso, uma vez que a arte escancara as opiniões de seus realizadores sem aquela falsa vitrine da imparcialidade. E a capacidade que o cinema tem de envolver seu espectador, nos provocando através de sensações profundas que podem marcar nossas vidas para sempre, acaba sendo uma ferramenta preciosa nas mãos das mentes politizadas de muitos realizadores.

Não sei quanto a você, mas eu mesmo já vi muitos filmes que me transformaram profundamente, ampliando meus horizontes acerca de muitos assuntos. Foi o caso de Twiggy, filme francês que me fez enxergar novas perspectivas para a questão da descriminalização do aborto. É sempre muito gratificante poder imergir num filme transformador, que nos ensina coisas relevantes. E nesse sentido, indico aqui três grandes filmes brasileiros que estreiam essa semana com a promessa de trazer reflexões profundas acerca de assuntos polêmicos, que tem tudo a ver com o momento que estamos vivendo hoje nessas eleições.

O primeiro deles é o Azougue Nazaré, de Tiago Melo, que estreia durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo depois de já ter sido exibido internacionalmente em mais de vinte festivais, levando prêmios importantes em Roterdã, no BAFICI, no Lima Independiente Film Festival e no Festival de Toulouse. O filme conta a história de diversos acontecimentos misteriosos que assombram os moradores de Nazaré da Mata, em Pernambuco, mergulhando no universo do Maracatu Rural, uma tradicional manifestação da nossa cultura popular que mistura danças e religiões de matriz africana originárias dos escravos brasileiros.

A trama se passa num imenso canavial onde um Pai de Santo pratica um ritual religioso com cinco caboclos, que ganham poderes, incorporam entidades e desaparecem. Trata-se de uma representação da pluralidade religiosa brasileira que desmistifica a cultura popular nordestina, coisa tão importante diante da ignorância compartilhada hoje nas redes sociais, que desmoraliza o nordeste pelos votos que o candidato Haddad (PT) conseguiu por lá no primeiro turno dessas eleições. Azougue Nazaré tem o importante papel de nos ensinar mais sobre povo nordestino, permitindo uma nova percepção acerca daquela cultura.

A segunda indicação é uma das principais estreias nacionais do ano no circuito comercial tupiniquim. Legalize Já é a cinebiografia do Planet Hemp, uma das mais importantes bandas da música brasileira de todos os tempos. Trata-se de um trabalho biográfico minucioso e responsável, que o próprio Marcelo D2 acompanhou de perto através de visitas constantes no set de filmagem e de muita conversa com os diretores, com o elenco e também os produtores. E o filme faz jus ao nome, reverberando uma militância sóbria acerca da descriminalização da maconha, como não podia deixar de ser.

A descriminalização da cannabis é um tema recorrente. Muitos países já regulamentaram o consumo, a distribuição e a venda da planta, uma vez que já são milhares de estudos (publicados ao longo dos últimos dez anos) que colocam a maconha no lugar de uma droga possível de ser consumida de forma legal, tal qual o álcool e o cigarro. Mas infelizmente no Brasil, existe uma maioria conservadora que ainda enxerga a maconha como uma droga igual a pasta base, o crack, a cocaína, etc. Diante dessa ignorância, vale a pena entender melhor o que a droga é e, acima de tudo, porque descriminalizá-la.

Por fim, abordando a questão da violência, estreia também no circuito comercial O Doutrinador, que é a primeira adaptação de uma HQ brasileira produzida pelo nosso cinema. O gibi foi um sucesso, com suas três primeiras edições impressas no Brasil já esgotadas, além de vender cópias e ganhar resenhas nos EUA, na Inglaterra e na Argentina. O filme ganhou projeção na internet através das redes sociais por trazer um vigilante estilo Batman, que decide combater a corrupção de forma implacável, fazendo justiça com as próprias. Se observarmos bem, vamos reparar que se trata da mesma febre que vivem alguns eleitores mais radicais com cérebro de minhoca, que decidem fazer suas próprias justiças. Talvez esse filme sirva para fazer refletir acerca da violência praticada deliberadamente hoje em nome da política, ou talvez não.


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