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Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Coluna

Viva a Paz

Porrada e agressões não são argumentos

Postado em 12 de Outubro de 2018 - Emerson Merhy

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Que pese a longa história brasileira de um país formado na violência praticada abertamente por sua elite econômica, intelectual e política – branca e falocêntrica –, e que acabou construindo uma Nação campeã em desigualdade social.

Que pese nessa longa história a constituição de um imaginário social de uma grande parte do povo brasileiro, que tem na figura da vitimização forte componente para se localizar e compreender o mundo onde vive.

Que pese ainda nesse longo processo que o espírito da vítima busca identificar quem são os culpados pelo seu sofrimento e medo, e consequentemente deseja a todo momento a aparição de um pai-justiceiro, para lhe vingar.

Que pese que nessa demonização de alguns como culpados procura-se explicar a própria produção da vítima, associada a uma construção imaginária demarcada por uma irracional fé religiosa de base cristã, que mais do que o amor pelo próximo tem gerado inveja e ódio do outro, tido como seu inimigo.

Que pese que a longa doutrinação que as elites econômicas, intelectuais e políticas têm criado, na direção de apontar a diferença nos modos de existir como uma das grandes ameaças, desviando a razão da vítima das principais situações que poderiam ser entendidas como produtoras da sua vida miserável e ameaçada e, assim, dificultando uma tomada de consciência de que o verdadeiro culpado é o próprio modo de viver daquela elite, com vidas capitalísticas que transformam os outros em seus recursos.

Que pese que no século XX se construiu um forte imaginário que os modos de viver considerados não-cristãos são os grandes culpados das vidas mal vividas da maioria, apontando que modos de pensar não-cristãos e modos de exercício de gênero fora da família heterossexual são o que de fato explicariam a maldição das vidas vividas na precariedade.

Que pese que a elite consegue manipular a cabeça da maioria dos que se sentem vítimas com ameaças de que as existências que são vividas na diferença é que necessitam serem eliminadas para purificar o mundo.

Que pese tudo isso e um pouco mais, mostrando que o vitimizado quer justiça pela eliminação do outro, que aponta e compreende como o culpado da sua situação, que aposta sua ficha na figura de uma liderança carismática, que fala tudo o que ele quer ouvir, e que vai corrigir tudo isso ao modo mais medieval possível, altamente compatível com sua formação cristã de recorte bem medieval.

Que pese que isso atrai o imaginário da vítima para a intolerância, para a simplificação do pensar, para o ódio do demoníaco que está no outro, desejando purificar pelo fogo, como a violência necessária e purificadora.

Ainda somos um povo instalado na diversidade e na miscigenação de vários tipos.

Somos, em sua maioria, a mistura mais autêntica do ameríndio, do africano e do europeu desde o começo da colonização, há mais de 500 anos.

Somos italianos, congoleses, árabes, guaranis, tukanos, tupinambás, espanhóis, portugueses, angolanos, moçambicanos, japoneses, benienses, marfinenses, chineses, coreanos, somos todos e tudo ao mesmo tempo na ancestralidade e na mistura cultural e imaginária que vivemos.

Comemos arroz com feijão, mandioca e espaguete no mesmo prato. Um pãozinho nunca é demais. Um café e leite muito menos. Adoramos aguardente e shoyo. Utilizamos ervas dos mais variados tipos. Praticamos sincretismo religioso “naturalmente”.

Temos orgulho disso, de sermos tão diferentes do resto do mundo.

Temos alegria por isso.

Tomamos cerveja como se fossemos os inventores dela.

Somos pura diversidade, pura diferença em cada um a todo tempo.

Amamos a alegria de um drible.

Mas, também, podemos ser contagiados por ideias de mundo que são a própria negação disso tudo, pois somos um povo que se vê, em grande parte, como dissemos, como vítima do outro-maligno e não como responsável também pelo o que vivemos em situações extremas de desigualdades, de riquezas e misérias.

Esses paradoxos nos habitam. Bons manipuladores e geradores da informação, que vira conhecimento para a vida prática, sabem explorar isso de uma maneira bem exitosa. Exploram o medo intestinal que várias seitas cristãs têm do fantasma do comunismo, chamando até notórios pensadores de direita liberal de comunistas por proporem uma convivência de pensamentos distintos. Mentem sobre o dano que candidatos democratas irão provocar contra a família cristã se forem eleitos. São apoiados por parte da elite que vive da exploração da pobreza material e intelectual de muitos, contam com o apoio de parte dessa elite que manda e controla a televisão e o rádio, para sustentarem suas pregações de ódio.

A possibilidade da conversa franca com o outro vai sendo substituída pela agressão verbal e física, pela intolerância de conviver com o outro que demoniza.

Entretanto, esses paradoxos podem também serem bons combustíveis para o contrário, isto é, para gerarem a noção do quanto somos um povo que só tem a ganhar, se em vez da agressão e da porrada construirmos uma Cultura da Paz que se posiciona contra a ideia da justiça pelas próprias mãos, contra o armamento, contra qualquer tipo de violência em relação ao outro, seja esse quem for.

Uma Cultura que não reconhece na porrada e nas várias formas de agressão argumentos válidos.

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Pelo fim dos pais-justiceiros e pela justiça pelas próprias mãos.

Pelo diálogo franco e aberto sem medo.

Por uma justiça democratizada que defenda qualquer um do mesmo modo.

Contra a elitização das funções públicas dos servidores que se exercem em nome próprio.

Pela democratização molecular das relações entre todxs para que todxs vidas sejam simétricas, equivalentes e respeitadas nas suas diferenças.

Contra o pensamento preconceituoso e racista.

Pela dignidade de todxs viventes.

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Mas, incomoda muito sentir na pele o explorado trabalhar para o explorador, o espertalhão, o vil. Por isso, faz muito sentido a seguinte fábula brasileira:

Duas formigas conversando,

uma vira para a outra e diz “eu já sei o que vou fazer na próxima eleição”,

a outra lhe pergunta, o quê? “vou votar no Tamanduá”.

Contada em uma Charge do DUKE


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