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Terça-Feira 19.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Artigo da semana

A teocracia bolsonariana

Está em curso, no país, uma ressignificação interpretativa do que são valores cristãos por parte de um setor interno barulhento e com capilaridade política

Postado em 11 de Outubro de 2018 - Bruno Antonio Barros Santos

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A beleza da democracia é a liberdade, e o voto é expressão disso. Outra maravilha da democracia é a possibilidade de poder pensar e criticar racionalmente, sem uma “polícia do pensamento” (George Orwell) para nos cercear. É nessa não anestesia do pensamento que se torna assustador ver a quantidade de cristãos (líderes e fiéis), de forma entusiasmada, aderindo à campanha de Bolsonaro, com ares de mitologia política próprios da fé.

Nesse sentido, observam-se algumas manifestações seduzidas pela potencialidade de falas que misturam religião e Estado, como se houvesse o desenho de “um Estado Teocrático para chamar de meu”. Nessas eleições, ficou evidente a tentativa de colonização do mundo da política pelo mundo da religião. É a “família” no singular; é o espantalho da ideologia de gênero; é a demonização de mulheres independentes e com senso crítico; é a distorção do feminismo; é a deslegitimação das pautas das minorias; é a homofobia disfarçada de caçada ao ilusório “kit gay”.

Isso explica por que muitos cristãos não optaram por Marina no 1º turno, mesmo sendo ela uma candidata declaradamente evangélica. O “pecado” dela foi dizer expressamente que não confundia religião e Estado, que defendia o Estado Laico, que apoiava a luta das minorias e, por fim, que sua candidatura reafirmava os pressupostos democráticos, quando disse que poderia fazer um “plebiscito” sobre a legalização do aborto. Maturidade estatal, mas sinceridade que se transformou em sincericídio, sendo este “a pá de cal” que enterrou sua candidatura para boa parte dos cristãos.

Já Bolsonaro, com seu discurso teocrático, agradou uma expressiva parcela de cristãos que – traindo o Evangelho de amor e paz, pregado por Cristo – estão propagando o ódio e o extermínio ao inimigo construído no imaginário (esquerdista, petralha, LGBTQIA+, comunista, minorias etc.), ou seja, tudo aquilo que, supostamente, não siga a cartilha idealizada do fundamentalismo religioso. São reedições sucessivas da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, embora tenhamos uma forte resistência de muitos cristãos contra esse avanço inquisitório da fé.

Isso revela um cenário preocupante de desejos e afetos que estavam represados. Não é à toa que, quando a comporta da represa foi aberta e Bolsonaro apareceu como mensageiro, o ódio e a vontade de exterminar tiveram tanta força. Portanto, torna-se bastante curioso que o lema da campanha de Bolsonaro seja “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está em curso, no país, uma ressignificação interpretativa do que são valores cristãos por parte de um setor interno barulhento e com capilaridade política. É uma abordagem autoritária, com táticas eficazes de instrumentalização do medo do “inimigo”. A institucionalização da lógica bélica de professar a fé abandonou, de vez, os lindos ensinamentos bíblicos previstos em 1 Samuel (25:31), Mateus (5:38-48; 25:35-46), Romanos (12:20,21; 12-14), João (13:33-35), Efésios (4:31,32), Gálatas (5:14,15) e (Lucas 10:25-37). O Deus da vingança e da “justiça” sem misericórdia encontrou vários porta-vozes.

Mas não nos esqueçamos do que essa distorção gerou ao longo da história. Não nos esqueçamos do genocídio indígena, da escravidão e destruição dos negros, da Inquisição, da morte de mulheres nas fogueiras, do fascismo, da ditadura civil-militar de 1964, entre outras atrocidades. Nesse passado sombrio, a legitimação religiosa foi fundamental. Não esqueçamos que a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) apoiou o golpe de 64. Não nos esqueçamos da ligação do papa Pio XI com o ditador Benito Mussolini na ascensão do fascismo italiano. E hoje, reproduzindo erros do passado, temos um reencontro de vários setores cristãos com um presidenciável que elogia a ditadura civil-militar de 1964, bem como os torturadores dessa ditadura, além de ter, em seu gabinete parlamentar, 05 quadros com a foto dos 05 ditadores daquele período tenebroso de nossa história.

Jesus não é responsável por esse derramamento de sangue. Esse derramamento de sangue jorra das mãos daqueles que usam a religião para legitimar e promover a destruição do “outro” ou, quando distorcem os ensinamentos de Cristo, para capitalizar o ódio. Jesus é paz, amor, misericórdia e compaixão. Cristo viveu ao lado dos marginalizados. Jesus é celebração da vida, e não da morte. Talvez muitos cristãos não entendam o ritual do papa ao se ajoelhar e lavar os pés dos presos. Nesse ritual, o papa Francisco já disse aos presos: “Sou pecador como vocês”. O problema é que, em muitas igrejas, fazem falta pecadores com esse grau de espiritualidade. Ao resultado, estamos assistindo horrorizados. A teocracia bolsonariana avança. E Deus nos livre.

Bruno Antonio Barros Santos - Defensor público no Estado do Maranhão.


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