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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

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Seu cachorro destrói objetos, faz xixi no lugar errado, rosna para as visitas? Entenda por que isso acontece

Confira o que dizem os especialistas sobre comportamento animal

Postado em 09 de Outubro de 2018   - Lívia Marra – Bom pra Cachorro

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Seu cachorro é do tipo destruidorzinho, que vira lata do lixo, rói objetos ou pega peças do cesto de roupa suja? Faz xixi no lugar errado, rosna para a visita ou implora para que você dívida comida com ele?

Se a resposta para alguma das perguntas foi sim, a dura realidade: você pode ter uma parcela de responsabilidade nisso. Uma bronca na hora errada ou de forma equivocada, um estímulo —mesmo que involuntário— a um comportamento errado e certa permissividade podem levar a atitudes dos animais que os tutores reprovam.

Mas cachorros aprendem rápido, gostam do que é bom e evitam o que é ruim, dizem os especialistas. Assim, com paciência, amor e alguns petiscos, podem ser treinados para uma mudança de comportamento.

Atividades e passeios são importantes para manter os bichinhos longe da bagunça. Você já pensou em fazer um rodízio com os brinquedos do pet para mantê-lo distraído? Ou usar um comedouros-brinquedo na hora que a visita estiver entrando em casa ou para evitar que o pet queira a comida do seu prato?

Para explicar algumas ações dos cães –e dar algumas dicas–, ouvimos o especialista em comportamento canino Ricardo Tamborini e a adestradora e franqueada da Cão Cidadão Samantha Melo.

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BAGUNÇA E XIXI EM LUGAR ERRADO?

Ricardo Tamborini responde

Por que alguns cães viram o lixo, pegam peças do cesto de roupas sujas, comem e destroem tudo o que veem pela frente?

Os donos reclamam do comportamento dos cães, mas em 99% dos casos o cachorro nem sabe que está errando. A culpa é sempre dos donos, sempre nossa. Na intenção de corrigir o cachorro, de dar uma bronca por ter feito algo errado, que é natural, os donos, por não saberem como fazer, acabam dando a bronca de maneira errada ou na hora errada. Isso acaba sendo um tiro no pé. Ao invés de corrigir, acabam reforçando o comportamento.

Sempre que a gente tem um cão que apresenta problema de comportamento, isso está diretamente ligado ao que os donos estão fazendo. A gente pode fazer uma comparação. A tarefa de educar um cão é como educar um filho. Muita gente contrata um adestrador para resolver problema de comportamento. O adestrador vai ensinar comandos de obediência. A tarefa de educar os filhos cabe aos pais. Não adianta pedir a um amigo, um professor, um vizinho para educar aquela criança. A criança vai entender o que aquelas pessoas querem, e quando voltar para casa vai continuar errando porque não foram os pais que ensinaram. Com o cachorro é a mesma coisa. A tarefa de educar cabe aos donos.

Quando o cão apresenta problemas de comportamento, e isso persiste por muito tempo, se tornando um problema para os donos —mexer no lixo, pegar roupa do varal, ficar roendo coisas em casa—, isso demonstra certa falta de autoridade dos donos. É como um filho rebelde, que não respeita os pais e vai fazer bagunça. Isso é falta de limite. E quando [os tutores] vão corrigir o cachorro, piora o comportamento —porque ele [cachorro] viu que deu certo chamar a atenção dos donos—, ou, em outros casos, cães começam a ficar agressivos e revidam essas broncas com agressividade.

A questão do cachorro ficar mexendo no lixo, roendo as coisas em casa, também está ligado à falta de atividades. Alguns donos não passeiam com o cachorro o tanto que deveriam, não proporcionam atividades dento de casa.

Todos os donos deixam brinquedos à vontade para o cachorro, o que é errado. Quando a gente deixa o brinquedo à vontade, o cachorro vai enjoar e, consequentemente, vai procurar outras coisas para fazer. Ele está sempre em busca de atividade. Então, ele vai roer alguma coisa, vai mexer no lixo, para chamar a atenção dos donos.

Aí entra a rotina de passeios adequados. O passeio ajuda a gastar a energia do cão, manter ele mais calmo e fisicamente mais saudável. Não precisa durar uma hora, tem que ser 20 minutos ou 30 minutos, curto e prazeiroso. Se o passeio for longo, vai ser exaustivo, e vai chegar um ponto que o cachorro não vai mais querer ir para a rua.

O cachorro tem ter brinquedo, mas não podem ficar à vontade. Ideal é que faça um rodízio. Coloque alguns brinquedos pela manhã e, no fim da tarde, coloque outros. No dia seguinte, mistura tudo. Cachorro gosta de novidade. Brinquedos diferentes vão manter a boquinha e a cabecinha dele ocupadas.

Manter o cachorro sempre em atividade vai fazer com que ele não precise ficar destruindo ou procurando coisas erradas em casa para se ocupar.

O dono, estabelecendo liderança, dando bronca da maneira correta sempre que que o cão fizer algo errado e sempre fazendo festa, premiando, estimulando, agradando bastante quando o cachorro fizer algo correto, vai mostrar a diferença entre o certo e o errado. E proporcionar atividade vai fazer com que o animal não fique aprontando em casa.

É verdade que animal castrado fica mais tranquilo?

Nem sempre. A fase de formação de caráter de todo cão começa no segundo mês de vida e vai até o oitavo, nono mês. É nesse período que o cão aprende tudo o que ele vai carregar para o resto da vida. E é nesse período que uma série de comportamentos que a gente não deseja vai aflorando, como dominância, possessividade, demarcação de território. Se a gente castrar um cão, de preferência entre o quinto e o sexto mês, a gente evita que esses comportamento aflorem. Castrar um cão adulto, resolve uma questão O hormonal. Tecnicamente o cão vai ficar mais calmo porque vai produzir menos hormônio. Castrar ajuda, mas sozinha não resolve o problema. (Castração reduz doenças e ajuda e evitar abandono; leia mais aqui)

No caso de adultos, o hábito de ser agressivo ou de marcar território, já foi repetido muitas vezes. Cães aprendem por repetição.

Por que alguns animais, mesmo adultos, fazem xixi no lugar errado?

A grande maioria dos cães erra e nem sabe. Na natureza, é normal o cachorro fazer xixi e cocô em qualquer lugar. A gente faz uma modelagem de comportamento para inibir um comportamento natural do cão. Para que fique mais prático e confortável para nós, ensinamos a fazer no jornal, tapetinho higiênico, em determinado ponto do quintal. A dica: o melhor atrativo para levar o cão ao lugar que o dono quer fazer de banheirinho é a própria urina e cocozinho do cão. Há produtos a base de ureia, mas cães muito sensíveis, principalmente filhotes, não querem disputar território. É o instinto. Então, o último lugar que eles vão querer fazer xixi ou cocô é onde já tem cheiro de outro cão.

O melhor atrativo são as necessidades do próprio cão. [Para atrair o animal ao lugar certo], o dono vai pegar o jornalzinho ou tapetinho higiênico, umedecer onde o cachorro fez errado e colocar no canto onde quer que o cachorro faça [as necessidades]. O ideal é que o tutor tenha tempo para monitorar e recompensar —com petisquinho ou pegando no colo—esse cachorro quando ele fizer no lugar certo e repreender, mostrar que fazer no lugar errado é frustrante.

Todo cachorro é interesseiro. Eles gostam do que é bom e evitam o que é ruim.

CÃO ROSNANDO, NERVOSO OU GULOSO?

Samantha Melo responde

Há motivo, como ciúme, para cães rosnarem para as visitas? Como evitar?

O cão pode apresentar esse comportamento por vários motivos: “ciúme” do dono, territorialismo ou medo —muitos cães, para esconder a fragilidade, apresentam postura de ataque.

Independentemente da causa, o fato é que, para esses cães, as visitas representam perigo e rosnar —e por vezes atacar— é a forma que encontram para afugentá-las.

O mais importante nesses casos é associar a chegada dos convidados com coisas positivas, como petiscos e muitos elogios. Ou seja, sabendo que uma visita vai chegar, já deixe separado o snack que o seu peludo mais gosta e ofereça a ele uns segundos antes de a campainha tocar.

Se o seu cão já chegou a realmente atacar, não caia no erro de isolá-lo quando alguém chegar. Afinal, esse tipo de atitude só servirá para reforçar, na cabeça do pet, que visitas não são bacanas. O ideal é prendê-lo em uma guia no mesmo ambiente, considerando uma distância segura para todos. Oriente o convidado a ignorar os rosnados. E quando o cachorro parar, recompense-o. Vale também pedir para a visita jogar os petiscos de longe, mas apenas se os rosnados tiverem cessado.

Outro ponto importante é que não se deve incentivar esse tipo de comportamento. Ainda que o pet seja pequeno – como os cães das raças yorkshire e maltês –, e os seus “ataques” não machuquem, é importante que eles saibam que rosnar não é permitido. Ou seja, não ria, não dê carinho ou pegue no colo nesta hora. Diga “não” firmemente e depois o ignore.

É recomendado ainda que o peludo tenha atividade física regular e seja treinado para obedecer a alguns limites, como o comando “Fica” e “Deixa”.

Além disso, alguns brinquedos ajudam a deixar o ambiente do animal mais rico e o estimulam a pensar, deixando-o mais calmo e equilibrado. Um exemplo são os comedouros-brinquedo, que soltam petiscos aos poucos —inclusive, podem ser usados na hora que a visita estiver entrando.

O que fazer quando o cachorro olha com carinha de “também quero” na hora das refeições? Pode dividir o prato de vez em quando ou isso agravaria esse comportamento?

A maioria das pessoas acha que o cão já nasce sabendo fazer a famosa “cara de dó” para ganhar comida. Mas a verdade é que, para conseguir o que querem, eles testam várias coisas.

Um cão que não deixa o dono comer sem pedir comida certamente foi atendido ao menos uma vez e entendeu que essa é a forma certa de conseguir. Essa permissividade dos tutores —que agem, sem sombra de dúvida, querendo fazer o melhor por seus pets— é um dos motivos de cada vez mais cachorros estarem obesos, condição que causa vários problemas sérios ao animal.

Os veterinários brasileiros estimam que cerca de 30% dos cães do país estejam com sobrepeso ou obesidade. É importante entender que a alimentação humana não é saudável para os animais, pois costuma incluir temperos, especiarias e gorduras que eles não podem consumir.

As principais dicas para esse comportamento cessar são:

– Regular a alimentação do pet: estabeleça horários fixos para as refeições, que devem seguir à risca as medidas indicadas pelo veterinário ou pelo fabricante. E mesmo que o animal não coma toda a porção, retire o pote depois de um tempo e descarte. Rotina e previsibilidade são essenciais para cães.

– Não ofereça petiscos “de graça”: os snacks podem ser oferecidos na hora do treino, por exemplo. Comandos como “Senta”, “Deita” e “Fica” são excelentes para criar autocontrole na mascote. Ou ainda é possível oferecer os petiscos dentro de brinquedos interativos que estimulem o animal a pensar sobre o que deve fazer para ganhar.

– Ignore os pedidos: É preciso ser forte e ignorar os pedidos de comida. Se for preciso, não deixe o animal ter acesso à mesa, usando um portãozinho ou deixando-o em outro cômodo.

– Se antecipe: Antes da mascote pedir comida ou de a família sentar à mesa, ofereça um comedouro-brinquedo com uma porção de ração em um cantinho do ambiente —vale levar a caminha dele para o local. Quando estiverem comendo, se o pet estiver concentrado no brinquedo, elogie-o bastante.

Cães que ficam nervosos diante de outros animais —na rua, no prédio… Isso depende da personalidade de cada animal ou é possível educar para conter o bichinho?

Ainda que existam traços de personalidade ligados a determinadas raças, o fator mais importante quando falamos de problemas de comportamento é a forma como o animal foi criado. Um cão que fica nervoso e ataca outros animais na rua pode apresentar esse comportamento por vários motivos. Por exemplo:

– Falta de limites que deveriam ter sido estabelecidos logo no primeiro passeio.

– Falta de sociabilização com outros cães na fase de filhote.

– Medo —tanto generalizado quanto por causa de alguma experiência traumática.

– Possessividade com o tutor.

É importante que o cão não deixe de passear, pois a atividade física regular é essencial para o sucesso em casos como esse. Por isso, cogite a possibilidade de sair com o animal de focinheira ou ao menos com uma coleira cabresto. Outra dica é escolher ruas e horários menos movimentados. Mesmo que a caminhada precise ser curta.

Em paralelo, treine comandos básicos de obediência em casa, como o “Senta”, “Deita”, “Fica”, “Não”, “Vem” e “Junto”, sempre usando o reforço positivo, ou seja, recompensando os acertos. Vá evoluindo aos poucos até conseguir usá-los na rua.

Observe atentamente aos sinais que o seu peludo mostra quando está nervoso. Assim, você pode se antecipar a possíveis situações de conflito e evitá-las, atravessando a rua, por exemplo, ou pedindo um comando.

Por fim, comece a expor —de forma segura— o cachorro a outros cães, ou seja, escolha uma distância em que o seu pet se sinta confortável e o recompense. Vá diminuindo essa distância gradualmente, usando artifícios como portões de casas, cercados de parques ou barreiras de carros estacionados. Não hesite em regredir o espaço se o pet demonstrar sinais de desconforto.


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