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Quarta-Feira 21.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

De volta ao passado

Descrença na política pode deixar o país nas mãos de quem não tem apreço pela democracia e pela liberdade

Postado em 09 de Outubro de 2018 - Leonardo Sakamoto (Blog do Sakamoto), Patrícia Campos Mello , Joana Cunha e Flavia Lima (Folha de SP) e IG

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O país que vai as urnas no próximo dia 28 carregará uma enorme vontade de mudança. Mas a história do Brasil e do mundo já demonstrou que, no fundo do poço, há sempre um alçapão. Ou melhor dizendo, ao contrário do que alardeia o nobre Tiririca, pior do que está, ah, sim, fica. Podemos, por exemplo, enterrar a democracia no meio do caminho. Aplaudindo, efusivamente, o carrasco e os coveiros.

Mais de 12 milhões de desempregados, 27 milhões de trabalhadores subutilizados, 4,8 milhões que desistiram de procurar emprego porque sabem que não vão encontrar, segundo o IBGE. Mas também 64 mil mortes violentas, 60.018 estupros, 1.133 feminicídios, 4.539 mulheres vítimas de homicídios, 221.238 registros de lesão corporal dolosa em violência doméstica, 5.144 foram mortos em intervenções policiais, 367 policiais mortos, só em 2017, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O combate à corrupção? Se o Brasil estivesse crescendo a 7% ao ano, Michel Temer, mesmo que desfilasse com um terno feito de maminha da JBS, costurado pessoalmente por Joesley Batista, estaria virtualmente reeleito, com dezenas de deputados digladiando-se para tatuar seu nome com hena. Seria chamado de ''mito'' e estaríamos declamando seu livro de poemas – Anônima Intimidade – em saraus. O eleitor brasileiro não é conivente, muito menos burro, apenas pragmático. E assim foi diante do Mensalão em 2006. Portanto, como deixará o cargo como o presidente mais impopular da história, chegando a impressionantes 3% de avaliação de ótimo e bom (lembrando que, com a margem de erro, pode ter registrado apenas 1%), está condenado ao limbo.

O desejo de mudança destas eleições só é comparado ao do pleito de 2002, quando Lula encerrou um ciclo de oito anos de governo do PSDB, que estabilizou a moeda, mas sofreu desgaste com a economia e não conseguiu responder às demandas por qualidade de vida. A despeito dos vários pecados e crimes em que se envolveu, o PT conseguiu entregar redução da pobreza e fez crescer a classe média e o consumo – lembrança que Fernando Haddad tenta resgatar agora. Contudo, naquela eleição, as duas principais forças políticas prometiam manter as regras do jogo e o respeito aos direitos efetivados desde a redemocratização. Agora, uma delas promete implodir o sistema – o que, significa, inclusive, dinamitar os direitos dos mais pobres garantidos pelo sistema. Parte do povo, desalentado e com raiva, bate palmas acreditando que, das cinzas, ressurgirá algo melhor.

Vivemos ainda sob relativa estabilidade, com certas liberdades garantidas pelo Estado. Mas ao contrário do que querem fazer crer os chefes da República, essa costura é frágil. Tanto que, na atual crise política, o Exército organizou planos para intervir militarmente caso houvesse, na opinião de seus comandantes, quebra institucional, segundo relatos do próprio general Hamilton Mourão.

Passamos um primeiro turno inteiro sem que o primeiro colocado da campanha presidencial tenha explicado como pretende gerar empregos para além da falsa dicotomia que usou em sabatina a empresários em julho: ''o trabalhador vai ter que decidir se quer menos direitos e emprego, ou todos os direitos e desemprego''. Foi aplaudido, o que ajuda a explicar porque dezenas de patrões foram denunciados ao Ministério Público do Trabalho por coagirem seus empregados a votarem no homem. Já para a segurança pública, quer armar a população e apoiar a letalidade policial. Não há provas de que terceirizar a segurança do cidadão a ele mesmo irá reduzirá as estatísticas, ainda mais em uma sociedade violenta como a nossa.

Achar que a maior parte dos eleitores do ex-capitão compactua com as ideias da época do Brasil Colônia que ele ostenta sobre os direitos fundamentais, é um erro. Mas, desgostoso, toparia eleger qualquer um que prometa ''mudar tudo que está aí'' e ''evitar que os sempre assumam o poder'', trazendo ordem e, a partir daí, segurança e emprego.

Bolsonaro é o mais qualificado para gerar empregos e garantir segurança pública de forma sustentável? Ele não demonstra dominar proposta alguma para as áreas de economia, educação, saúde, ciência e tecnologia. Pior: as soluções que dá aos problemas do país não sobreviveriam a uma sessão de interrogatório do coronel Brilhante Ustra, o finado torturador-açougueiro da ditadura de quem é fã. Mas, como já disse aqui no início de sua campanha, sabe se comunicar.

Fala para uma parte dos radicais de extrema direita o que querem ouvir. Conversa da maneira que uma parte não radical dos eleitores de classe média baixa entende, mesmo que discorde – o que preenche medos, ansiedades e sensação de vazio com essa conexão (o conteúdo, nesse caso, é menos importante que a forma). Enquanto isso, os mais ricos entenderam que ele e sua equipe não irão bater de frente com a manutenção de seus privilégios.

O candidato se aproveitou muito bem do sentimento de mudança, criando uma narrativa que traz para si o frescor na novidade – mesmo que seja deputado federal há sete mandatos, tendo criado um clã político com seus filhos, juntado patrimônio com isso e abraçado o auxílio-moradia. E mesmo que as ideias que defenda sejam aquelas que passaram a maior parte do tempo no poder desde 1500. A atual situação de crise institucional e de perda de fé na política como solução pacífica dos conflitos nacionais abriu as portas para uma candidatura como a dele, que se coloca como um ''salvador da pátria'' a fim de ganhar espaço a fim de nos ''tirar das trevas'', passando por cima das regras e limites dados estabelecidos pela democracia.

O Datafolha apontou que 69% apoiam a democracia, o que foi comemorado por muita gente. Mas é miragem. Esse apoio pode ser flexibilizado em momentos de estresse econômico e social. O estudo ''Medo da Violência e Autoritarismo no Brasil'', produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com levantamento do próprio Datafolha, mostrou que, em uma escala de zero a dez, a sociedade brasileira marca 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias. Sim, uma parcela das pessoas topa trocar a democracia pela falsa sensação de segurança e pela esperança (que talvez nem seja concretizada) de ter um emprego que garanta um mínimo de dignidade para si e para sua família. E sim, uma parcela antipetista da sociedade aceita trocar a democracia por manter o PT longe do poder.

A falta de resposta decente e compreensível dos candidatos à necessidade de gerar postos de trabalho e reduzir os homicídios pode jogar o Brasil não mãos de qualquer um. Alguém que não tem apreço pela democracia e pela liberdade e que, no final das contas, vai conseguir – sob a justificativa de nos afastar da ditadura venezuelana, nos empurrar para a sua própria.

Haddad precisa de virada inédita para vencer

Pragmaticamente, Haddad precisará de uma virada inédita para vencer a corrida presidencial. Desde a primeira eleição para presidente após a redemocratização, em 1989, nenhum candidato conseguiu reverter a desvantagem obtida no primeiro turno da disputa.

No primeiro turno, Jair Bolsonaro obteve mais de 49,2 milhões de votos (46% dos votos válidos), contra mais de 31,3 milhões (29,3%) de Fernando Haddad. Apenas uma virada inédita mudaria os rumos da sexta disputa de segundo turno desde 1989 (as eleições de 1994 e 1998 foram vencidas no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso).

Para quebrar a tradição brasileira, Haddad precisa tirar uma vantagem que, no primeiro turno, foi de pelo menos 17,3% dos votos válidos, montante que representa mais de 18 milhões de eleitores.

O terceiro colocado no primeiro turno, Ciro Gomes (PDT), que teve mais de 13,3 milhões de votos, não confirmou apoio formal a Haddad , mas garantiu que "ele não, sem dúvida", dizendo que representa um conjunto grande de forças e que irá seguir seu espírito de defesa da democracia e contra o fascismo.

Geraldo Alckmin (PSDB), que atacou veementemente a ambos em toda sua campanha no primeiro turno, disse que o partido irá se reunir para definir se apoia um dos candidatos ou escolhe pela neutralidade . É a primeira disputa de segundo turno sem presença tucana no século.

Marina Silva (Rede) lamentou a polarização e disse que, independentemente do presidente eleito, o partido será oposição firme e democrática, acrescentando que ela pessoalmente não tem identificação com Haddad ou Bolsonaro, mas a questão será discutida internamente.

Guilherme Boulos (PSOL) classificou Fernando Haddad (PT) como representante da democracia e capaz de derrotar o fascismo no segundo turno.

João Amoêdo negou apoio ao PT e disse que o diretório do Novo decidirá se declara ou não apoio a Jair Bolsonaro (PSL).

Os demais candidatos e partidos não se posicionaram oficialmente até então.

Virada inédita: é possível?

Fernando Collor em 1989, Lula em 2002 e 2006, e Dilma em 2010 e 2014 foram para o segundo e decisivo turno na liderança e foram eleitos, derrotando Lula, José Serra, Geraldo Alckmin, José Serra novamente e Aécio Neves, respectivamente. Aécio foi quem chegou mais próximo da virada, com 48,36%, contra 51,64% de Dilma Rousseff, eleita com uma diferença inferior a 3% dos votos válidos. A maior vantagem registrada em uma disputa de segundo turno ocorreu em 2002, com Lula sendo eleito com 61,27%, contra 38,73% de José Serra.  

O Partido dos Trabalhadores, vencedor das últimas quatro eleições presidenciais disputadas, tenta voltar ao poder após o  impeachment sofrido por Dilma Rousseff em 2016. 

Os candidatos que avançaram para o segundo turno em 2018 são também os de maior rejeição , portanto, há um potencial a ser explorado por ambos entre abstenções, nulos e brancos, na luta do antipetismo contra o antibolsonarismo. O número de abstenções da eleição de primeiro turno deste ano foi o maior desde 1998. Quase 30 milhões de eleitores deixaram de comparecer à votação de primeiro turno.

Fernando Haddad deve acenar a esse eleitorado com o discurso de defesa da democracia para vislumbrar atingir a virada inédita Jair Bolsonaro (PSL), em contrapartida, deve radicalizar seu discurso de ataques às administrações petistas e procurar alianças no centro-direita para confirmar a vantagem.

Aliança de centro-esquerda não bastará para derrotar Bolsonaro, dizem analistas

Para Haddad (PT), não será suficiente criar uma grande aliança democrática, aglutinando partidos de centro-esquerda, para ter alguma chance de derrotar Bolsonaro no segundo turno, afirmam cientistas políticos. Matematicamente, Haddad teria de herdar todos os votos de Ciro, Marina e Alckmin para conseguir vencer no segundo turno, algo improvável.

Para cientistas políticos, a única maneira de uma coalizão derrotar o candidato do PSL, que venceu por uma margem de quase 20 pontos porcentuais, é tirar votos dele. “E, para isso, não adianta insistir em questões levantadas no primeiro turno, como oposição à tortura e importância da democracia. Isso não afeta o eleitor de Bolsonaro”, afirma a cientista política Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília.

Seria necessário o PT investir na narrativa de retirada de direitos, como esboçado na polêmica do vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, sobre o décimo terceiro salário. “É por aí que poderia haver algum desgaste para o capitão reformado”, diz Flávia. 

No entanto, seria um movimento delicado porque, ao mesmo tempo que um ataque às políticas ultraliberais defendidas pela chapa de Bolsonaro ajudaria a tirar votos dele, o PT precisa fazer um exercício de conquistar o centro e o mercado financeiro com acenos para políticas macroeconômicas mais ortodoxas.

Entre economistas, é consenso de que Haddad teria que caminhar em direção ao centro. Espera-se alinhamento com Ciro Gomes (PDT) e parte de suas propostas. “Se radicalizar para o lado da esquerda, certamente vai perder”, diz o economista Nelson Marconi, da coordenação de campanha de Ciro.

Um desafio será o movimento das igrejas evangélicas, que conseguiram mobilizar eleitores pró-Bolsonaro unindo a chamada teologia da prosperidade, que prega a ascensão social por mérito e empreendedorismo, aliada ao conservadorismo em costumes. “Certamente o 'kit gay' e outras questões de gênero ressurgirão com força”, diz a cientista política.

Para Flávia, o PSDB é o grande perdedor dessa eleição e o PT sai vitorioso, apesar da distância entre Haddad e Bolsonaro. “Mesmo após um processo de desmonte, Haddad teve 29%, ou seja, a transferência de intenções de voto de Lula para ele foi quase integral, considerando-se a margem de erro.”

Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da UFMG, não se pode creditar totalmente ao antipetismo a enorme vantagem obtida por Bolsonaro. “Acredito que, nas camadas mais altas de renda, o antipetismo seja o principal motor para o apoio a Bolsonaro. E essas camadas influenciam camadas mais baixas”, diz. No entanto, na classe média e nas mais baixas, o principal é uma psicologia social de apoio ao discurso de lei e ordem, afirma Reis.

“Embora em tese as pessoas apoiem a democracia, como mostrou a pesquisa Datafolha desta semana, elas apoiam um conceito abstrato. Quando se pergunta como elas veem a tortura em delegacias e chacina de bandidos, o apoio é gigantesco. Indagados se um homem honesto e forte capaz de unificar o país substituiria partidos políticos, a grande maioria dirá que sim”, diz Reis. “Esse ideário fascista de bandido bom é bandido morto é o grande apelo de Bolsonaro.” 

Flávia acredita que o salto nas pesquisas que Bolsonaro foi devido ao antipetismo —quando Haddad começou a subir, muitos eleitores de Alckmin e Marina migraram para o candidato do PSL. “Mas existe um grande porcentual dos eleitores que vota em Bolsonaro porque ele conseguiu mobilizar suas inseguranças e frustrações.” 

No mercado financeiro, a vitória de Bolsonaro é considerada provável e festejada. Mas não é recebida pela maioria dos economistas como garantia de dias melhores. Existe uma preocupação sobre qual será a real chance de o economista Paulo Guedes emplacar a agenda de reformas de que o país precisa. 

“O mercado financeiro vai acordar de bom humor amanhã, animadíssimo com a liderança de Bolsonaro, mas vai ser uma vitória de Pirro”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Continuo achando que Paulo Guedes e a agenda dele não serão longevos”, diz Vale, para quem Bolsonaro e seu economista teriam um “diálogo de surdos”.

Para a economista Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências, o mercado vai receber bem o resultado do primeiro turno, com forte liderança do candidato Jair Bolsonaro (PSL), e deve haver alta dos preços dos ativos de modo geral. 

No entanto, a situação econômica sera difícil em 2019 e a necessidade de reformas "deve colocar uma faca no pescoço do futuro presidente", diz a economista. Ela acha que o candidato que sair vencedor deve apresentar uma reforma da Previdência.

A cientista política Marta Arretche, professora titular da Universidade de São Paulo (USP), afirma que Bolsonaro será obrigado a explicitar suas posições em temas macroeconômicos cruciais, pela primeira vez.  “Até agora, ele só foi o candidato anti alguma coisa – anti-PT, anticorrupção, antiviolência. Agora, terá de explicar, por exemplo, como irá manter a política de salário mínimo e, ao mesmo tempo, equacionar a Previdência? Como vai promover o equilíbrio das contas públicas que vem prometendo?”

O cenário mais otimista vem de seus apoiadores no meio empresarial. “Tivemos uma diferença de 20 pontos. É um excelente resultado. Vamos para a guerra”, disse Hang.

Os mais pragmáticos, porém, como Jason Marczak, diretor do Centro de América Latina Adrienne Arsht do Atlantic Council, prevê incerteza: “Qualquer coisa pode acontecer no segundo turno.”


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