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Quarta-Feira 20.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Poder

Bolsonaro foi acusado de furtar cofre e omitir patrimônio, revela Veja

Campanha de Bolsonaro fabricou um boato e o usou como antídoto contra a reportagem da Veja

Postado em 29 de Setembro de 2018 - Edson sardinha (Congresso em Foco) e João Filho (The IIntercept_Brasil)

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Em reportagem de capa da edição que circula desde sexta (28), a revista Veja revela detalhes desconhecidos do processo de separação entre o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e sua ex-mulher, Ana Cristina Siqueira Valle. Em ação protocolada na 1a Vara de Família do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, ela acusou o candidato que hoje lidera as pesquisas presidenciais de possuir à época um patrimônio pessoal bem superior ao declarado à Justiça eleitoral, de auferir rendimentos mais elevados do que os informados à Receita Federal e de ter furtado um cofre numa agência do Banco do Brasil.

Segundo a matéria, assinada pelos jornalistas Hugo Marques, Nonato Viegas e Thiago Bronzatto, Ana Cristina responsabilizou Bolsonaro pelo furto de tudo o que ela mantinha em um cofre na agência do BB da rua Senador Dantas, no centro da cidade do Rio de Janeiro. O conteúdo, conforme o relato da ex-mulher, envolvia joias avaliadas em R$ 600 mil, além de US$ 30 mil e R$ 200 mil em espécie. A revista estima que isso corresponderia atualmente a cerca de R$ 1,6 milhão.

No processo, com mais de 500 páginas, ela também afirmou que Jair Bolsonaro tinha “comportamento explosivo” e demonstrava “desmedida agressividade” e que deixou de declarar à Justiça eleitoral em 2006 três casas, um apartamento, uma sala comercial e cinco lotes. “Os bens do casal, em valores de hoje, somariam cerca de R$ 7,8 milhões”, diz a reportagem.

Para provar o que dizia, Ana Cristina anexou à ação judicial os bens que o ex-marido havia declarado à Receita Federal, que em valores da época somavam pouco mais de R$ 4 milhões. A revista publicou a lista dos bens arrolados no processo, que é abaixo reproduzida:

Bolsonaro informara à Justiça eleitoral possuir um patrimônio de R$ 433.934,00, equivalentes a R$ 850 mil em valores atualizados.

Além de ter acessado o processo de separação, no qual o deputado e a ex-mulher disputavam a guarda do filho, hoje com 20 anos, Veja teve acesso ao boletim de ocorrência, registrado na 5a Delegacia da Polícia Civil, em que Ana Cristina comunicou o furto do cofre.

Gerente do Banco do Brasil, Alberto Carraz confirmou à revista “que tanto Ana Cristina quanto Bolsonaro mantinham cofres na agência. No caso do deputado, não se sabe o que ele guardava – e ele também nunca declarou a propriedade do cofre”. A reportagem prossegue: “A discussão sobre o furto do cofre continuou, segundo mostra o processo. A defesa de Bolsonaro, na etapa em que o ex-casal discutia a guarda do filho, juntou um depoimento em que o deputado acusava a mulher de chantageá-lo. Dizia que ela tinha levado o filho para o exterior e condicionava o retorno da criança à devolução do dinheiro e das joias subtraídos do cofre”.

Dias atrás, o jornal Folha de S.Paulo divulgou documento oficial do Ministério das Relações Exteriores no qual Ana Cristina dizia ter mudado para a Noruega com o filho após ter sido ameaçada de morte pelo ex-marido. Publicada a matéria, a ex-mulher negou tudo e atribuiu a divulgação dos fatos a uma ação deliberada da mídia para desmoralizar o deputado. Cinco amigas ouvidas pelo jornal, no entanto, confirmaram que ela de fato saiu do Brasil por causa das ameaças.

Feito o acordo de partilha de bens e de pagamento de pensão, Ana Cristina perdeu o interesse pelo processo. Conforme Veja, deixou inclusive de comparecer a dois depoimentos marcados pela polícia, que “encerrou o caso sem esclarecê-lo”.

Questionada pela revista sobre as razões de não ter atendido às convocações da Polícia Civil, a ex-mulher – que agora disputa uma cadeira de deputada federal pelo Podemos do Rio de Janeiro com o nome de Cristina Bolsonaro – respondeu: “Não lembro. Fiquei quieta. Não me sentia à vontade. Iria dar um escândalo para ele e para mim. Deixei para lá”. Ela acrescentou: “Nós dois tínhamos um acordo de abrir mão de qualquer apuração porque não seria bom”. Recusou-se a dizer quais foram os termos do acordo: “Aí eu prefiro ficar... me omitir”.

Conforme Ana Cristina, o ex-companheiro “próspera condição financeira” no tempo em que eram casados, com uma renda mensal da ordem de R$ 100 mil, ou perto de R$ 183 mil a preços de hoje. Os rendimentos declarados pelo deputado restringiam-se aos R$ 26,7 mil recebidos como parlamentar e R$ 8,6 mil da aposentadoria como capitão da reserva do Exército.

Veja ouviu o advogado eleitoral Daniane Furtado, para o qual a omissão de bens à Justiça configura crimes de falsidade ideológica e sonegação. Procurado pela revista, Jair Bolsonaro não quis se manifestar sobre o assunto

Bolsonaro e aliados minimizam acusações

Um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro, o deputado Major Olímpio (PSL-SP) acusou a Veja de produzir factoide (notícia forjada) para tentar “destruir” a candidatura do ex-capitão do Exército. Segundo Olímpio, a revelação feita pela revista não vai tirar votos do presidenciável.

“São acusações que a própria ex-mulher já desmentiu em todas as circunstâncias. Só posso lamentar a publicação de uma matéria ofensiva como essa com o propósito de criar factoide para influenciar as intenções de voto. Mas não tem efeito eleitoral algum”, disse o deputado, que coordena a campanha do candidato do PSL no estado de São Paulo.

O presidenciável se manifestou na mesma linha:

O deputado Lincoln Portela (PR-MG), outro importante aliado de Bolsonaro, vê o Brasil dividido em dois e não acredita que qualquer tipo de informação envolvendo o colega de Câmara tenha alguma repercussão no processo eleitoral. "Tudo que vier contra Bolsonaro agora, por mais sério que seja, por mais que se aproxime da verdade, não vai pegar. A verdade é que no Brasil hoje há dois partidos: o PL, o Partido do Lula, e o PB, o Partido do Bolsonaro", afirmou.

Na avaliação dele, esse tipo de notícia só motiva os eleitores do candidato do PSL. "Vejo certas coisas que falam do Bolsonaro e as pessoas parece que se esquecem do que o PT fez. Isso pode afetar um pouco aqueles que estavam indecisos, os chamados discípulos provisórios. Mas, para a grande maioria dos eleitores de Bolsonaro, o efeito é contrário, aumenta a vontade de mudar o país", disse Lincoln.

Polêmica no Twitter

Major Olímpio disse desconhecer o movimento que fez a #Veja600milhões aparecer na lista dos assuntos mais comentados do Twitter nesta manhã, em contraposição à #BolsonaroNaCadeia, que lidera os chamados trending topics. A primeira hashtag foi usada por apoiadores do candidato do PSL, em resposta à hashtag usada por seus críticos, após a publicação de um vídeo da jornalista Joice Hasselmann.

Candidata a deputada federal pelo PSL de São Paulo, Joice disse ter sido informada por “fonte segura” de que uma “grande revista de circulação nacional” receberia – ela não diz de quem – R$ 600 milhões para tentar destruir a candidatura de Bolsonaro.

Presidente do PSL em São Paulo, Olímpio disse que a acusação apresentada por Joice não é de responsabilidade do partido. “Ela é candidata, tem toda liberdade para fazer suas manifestações. Mas isso é de responsabilidade dela. Não se trata de manifestação do partido”, afirmou.

Factóide contra a Veja

Durante a semana, o exército virtual de Bolsonaro espalhou nas redes sociais uma falsa capa da Veja que revelava um esquema de fraude nas urnas eletrônicas para favorecer o PT. Era mais uma mentira entre tantas que a família Bolsonaro e sua militância têm espalhado sem o menor pudor. O boato voou e foi compartilhado até pelo cantor, compositor e bolsonarista Lobão, o que também não chega a ser uma novidade. Ironicamente, a Veja se preparava para publicar uma reportagem devastadora para a candidatura Bolsonaro.

Apesar de ter muita coisa para explicar, a rede de soldados virtuais de Bolsonaro se apressou em chamar a reportagem de fake news, mesmo ela estando calcada em informações de um processo que correu na Justiça. Diversas teorias conspiratórias se criaram em torno da reportagem para desqualificá-la. O modus operandi da turma já é conhecido: joga-se areia nos olhos da opinião pública para que ela não se atente aos fatos.

Antes da publicação, a campanha de Bolsonaro já sabia que a Editora Abril havia entrado com um pedido de desarquivamento do caso e, farejando a bomba que estaria por vir, lançou um antídoto logo no início da semana. A “jornalista” e candidata a deputada federal do PSL Joice Hasselman gravou um vídeo em seu canal no YouTube dizendo que havia recebido uma informação bombástica de uma fonte: uma grande revista semanal teria recebido R$ 600 milhões — sim, mais de meio bilhão! — para destruir a reputação de Bolsonaro na reta final do primeiro turno.

Antes de comentar a evidente picaretagem, é preciso explicar as aspas que coloquei na palavra “jornalista”. Apesar de ter formação em jornalismo, Joice é conhecida por plagiar colegas e espalhar notícias mentirosas nas redes sociais. Depois de ganhar visibilidade na TVeja, Joice virou uma influenciadora digital badalada pelo mais obscuro reacionarismo brasileiro. Hoje, ela conta com mais de 800 mil seguidores no Youtube.

Há dois anos, a “jornalista” também gravou um vídeo revelando uma bomba. Ela teria recebido a informação de que Lula estaria tramando o “golpe da doença”, junto com um “grande hospital de São Paulo”, para escapar da cadeia. A criatividade que falta para escrever seus próprios textos jornalísticos sobra na hora de fabricar teorias da conspiração. Joice se tornou a versão brasileira de Alex Jones, o apresentador de rádio americano conhecido por disseminar maluquices.

É claro que a plagiadora está mentindo mais uma vez. E mente mal. O valor escolhido por Joice soa como piada pronta. Para se ter uma ideia da loucura, a revista Time, que é infinitamente maior que Veja, acabou de ser vendida por R$ 795,6 milhões. Mas ela quer nos fazer crer que forças ocultas despejaram mais de meio bilhão para encomendar uma reportagem que qualquer veículo sonharia fazer.

Sem apresentar um mísero indício, Joice requintou ainda mais o ridículo afirmando que parte dos R$ 600 milhões teriam sido pagos parte em dinheiro vivo, parte em criptomoedas. Como já era de se esperar, a fantasia de Joice virou hit nas redes assim que a reportagem da Veja foi ao ar. Em pouco tempo, o assunto #Veja600Milhões virou um dos mais comentados no Twitter.

Os filhos de Bolsonaro, claro, impulsionaram a mentira de Joice e passaram a tuitar a hashtag #Veja600milhoes. Na semana passada, Carlos Bolsonaro já havia disseminado o boato de que o Brasil teria entregado para a Venezuela os códigos de segurança das urnas eletrônicas. A notícia falsa foi desmentida até pelo General Mourão, mas mesmo assim Carlos mantém a mentira publicada até hoje. Assim como a falsa capa da Veja sobre fraude nas urnas, esse boato integra a estratégia golpista de deslegitimar o resultado das eleições caso Bolsonaro perca. Também servirá como antídoto. É com esse tipo de gente que estamos tratando.

Goste-se da Veja ou não, não há como negar que ela fez o que Joice não costuma fazer: jornalismo. A revista entrou com um pedido de desarquivamento do processo, que foi concedido no último dia 4. O processo conta com 500 páginas e foram necessários mais de 20 dias de apuração. O gerente do Banco do Brasil foi entrevistado, documentos foram apresentados e Ana Cristina foi procurada para se explicar. O argumento de que Veja apenas revelou detalhes de uma briga de casal é completamente falso. A reportagem é bastante sólida e traz a importante revelação de que o candidato preferido dos brasileiros oculta muitos bens da Justiça. Bens de alto valor, totalmente incompatíveis com a sua renda. De onde veio tanto dinheiro?

O candidato, que adora se apresentar como o pobrezinho lutando contra os poderosos do establishment, tem a obrigação de explicar. Mas é melhor já ir se acostumando com o silêncio porque essa pergunta não será respondida. Os disseminadores de fake news estarão muito ocupados em denunciar fake news.


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