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Segunda-Feira 08.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Coluna

Nossos corpos sem órgãos, ninguém aprisiona

Somos desejos coletivos e ideias engravidadoras

Postado em 26 de Setembro de 2018 - Emerson Merhy

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Em um documentário sobre sua vida, Ailton Krenak abre uma conversa sobre a possibilidade dos brasileiros só poderem se ver como um povo quando se derem conta do quanto somos índios e africanos, o quanto somos imigrantes dos mais variados lugares e do quanto podemos nos alimentar dessas diferenças, como o fabricar algo de próprio que seja tudo isso ao mesmo tempo e nada disso em exclusividade.

Nesse mesmo documentário, aparece Darcy Ribeiro no programa Roda Viva, quando esse era algo que valia a pena assistir pela sua seriedade, dizendo que na construção colonial do Brasil se matou seis milhões de índios que aqui já estavam e 12 milhões de africanos que para cá foram trazidos. Darcy pergunta: por que isso?

Para adoçar a boca de europeus, para dar ouro para as cortes europeias que foram a formação da primeira elite a explorar esses povos. Uma elite que foi se modificando, mas que continuava vivendo de exploração semelhante, vivendo da produção de uma desigualdade abismal entre os muito poucos que viviam nababescamente e a maioria que era todo dia sugada, alimentando (aquela elite) com a sua vida de modo direto.

Elite vampiresca, que soube e sabe criar nos outros que os alimentam uma quantidade enorme de “capitães do mato”, que trabalham para ela contendo com seus chicotes todos aqueles que por ventura se constituem como herdeiros de uma outra memória. Em nossa construção da desigualdade abissal, a elite soube e sabe produzir serviçais armados intelectuais que desejam e pensam serem, em si, a própria elite branca e falocêntrica.

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Krenak, no documentário, traz para a cena a memória de que não somos uma Nação para alimentar sempre essa minoria com nossa vida, mas sim que podemos ser uma rica Nação espelhada no bem viver de todos. Um bem viver que pode se alimentar do que todos esses povos, que nos constituem, já produziram de sabedoria histórica no conviver.

Essa garra de se expor de novo ao extermínio que vem sendo praticado diariamente pelo Brasil, hoje, vem marcando nossa construção memorial de outras histórias possíveis para nós mesmos. Os movimentos indígenas, os movimentos negros, os movimentos pela equidade de gênero, os movimentos em defesa da igualdade na diferença, dentre vários outros, que inclusive estão sendo forjados, são forças vivas que disputam a possibilidade de construirmos entre nós, como comum, os muitos bem viveres de cada povo em si, construindo um além vidas-coloniais que se produziu por aqui em benefício daquela elite branca.

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Krenak e tudo que possa expressar com sua língua atual, não é o resto do que sobrou do passado trágico da vida-colonial, como um ser em exibição. Krenak é a nossa possibilidade de um devir-Brasil construído na sua multiplicidade, na qual o prazer de ser será constituído pelos outros em suas autenticidades viventes.

Os Krenaks estão hoje aí, como ideia. Como corpos sem órgãos.

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Corpos sem órgãos que não podem ser presos, que são desejos coletivos e ideias engravidadoras. Corpos que produzem em suas imaterialidades novas materialidades corporais que só conseguem produzir-se vidas se estiverem sendo governantes de si mesmos, no encontro com os outros. Sendo sempre o que somos. Sem o outro não existo. Por isso, como fala Krenak, somos sujeitos coletivos a todo instante.

A primeira vez que me vi diante de algo tão poderoso como essas histórias e falas dos Krenaks da nossa vida, foi quando conheci algumas coisas sobre o modo como Antonin Artaud se produzia como vivente, partindo do seu corpo multidão e sem órgãos, o que também nos ensina os vários Josés Celsos Martinez Corrêa com seus dionisíacos-fazeres-vidas.

Que essa contaminação seja de um dispositivo-vírus construído pela multiplicidade de vidas sem órgãos, impossíveis de serem eliminadas - mesmo quando se deixa morrer memórias inscritas em museus abandonados para que não possamos construir de outro modo nosso passado - simplesmente pelo fato que a elite não entende disso, dos sem órgãos.

Podem destruir quanto museus quiserem, mas não podem botar fogo nos corpinhos sem órgãos, que em si são e serão sempre memórias que habitam corpos por acontecer, disputando a todo instante a produção de modos de viver de outras maneiras, constituindo-se multidões onde capitães do mato imaginam que nenhuma vida nova nascerá.

O Brasil, hoje, ao contrário do que muitos pensam, é um dos países do mundo que mais vem gerando corpos sem órgãos incapturáveis, para azar de sua elite e de seus serviçais no nosso devir-amanhã.


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