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Terça-Feira 10.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Poder

Começa a corrida pelo voto útil

Rejeição dos candidatos e propensão de 40% do eleitorado a mudar de voto podem influenciar a reta final da campanha

Postado em 24 de Setembro de 2018 - Jean-Philip Struck (DW) e Mayara Rozário (IG)

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Com as pesquisas eleitorais já indicando, a duas semanas do primeiro turno, dois nomes de polos opostos disputando a segunda rodada das eleições presidenciais, a estratégia do chamado voto útil já começa a entrar em cena.

Segundo o cientista político Carlos Melo, a lógica do voto útil é simples. "Em tese, todo eleitor tem um candidato de preferência; aquele por quem sente maior empatia e que, com tranquilidade, cederia seu apoio. Este seria o que podemos chamar de um voto afirmativo", explica. 

"Mas, num ambiente de conflito, o eleitor se dá também o direito de definir o que, para ele, seria o 'pior resultado', o mal maior. O candidato entre todos que 'mais' rejeita, que descarta decisiva e definitivamente", completa. 

Assim, grupos de eleitores acabam depositando seus votos estrategicamente, inflando a votação de um candidato com o objetivo de derrotar outro. Só que neste ano, as coisas ficaram mais complicadas.

"A novidade é que desta vez, para muitos, não é apenas um mal: mas pelo menos dois", afirma Melo, em referência a Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), dois candidatos polarizadores na corrida.

Apesar de estarem na liderança, tanto Bolsonaro quanto Haddad, que registram 28% e 19% dos votos, respectivamente, de acordo com o último Datafolha, também estão entre os candidatos com maior rejeição por parte do eleitorado.

Pelo menos 43% dos eleitores afirmam que não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum. Haddad, por sua vez, é o terceiro candidato com maior rejeição, 29%, logo atrás de Marina Silva (Rede), que tem 32%. Desde que assumiu o protagonismo da candidatura petista, a rejeição de Haddad aumentou sete pontos percentuais. São índices superiores às intenções de votos desses candidatos e que podem influenciar a reta final do primeiro turno.

Diante desse cenário, os candidatos menos bem posicionados na pesquisa já começam a fazer a pregação por um voto útil entre o eleitorado que rejeita Haddad e Bolsonaro e que seja capaz de levá-los ao segundo turno. Também pesa o fato de que 40% dos eleitores estarem dispostos a mudar seu voto, segundo o Datafolha. 

Essa batalha pelo voto útil deve ser especialmente intensa entre Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), que aparecem em terceiro e quarto lugar nas pesquisas. "Se a onda do voto útil aparecer é possível que Ciro Gomes ou Geraldo Alckmin ascendam ao posto que hoje é de Haddad", conjectura o cientista político Gaudêncio Torquato. 

Por enquanto, os candidatos menos bem posicionados nas pesquisas – Ciro, Alckmin, Marina, Alvaro Dias (Podemos), João Amoêdo (Novo) e Henrique Meirelles (MDB) – contam com 35% das intenções de voto. 

Na última semana, a campanha de Geraldo Alckmin abraçou de vez a estratégia do voto útil entre os eleitores que rejeitam Bolsonaro ou Haddad - ou ambos -, dividindo os ataques regulares contra a campanha do militar reformado com críticas ao PT e outros candidatos. Seu programa de TV passou a afirmar que apoiar Bolsonaro pode ser um voto para a vitória do PT, apontando que as pesquisas indicam que Bolsonaro e Haddad estão empatados nos cenários de segundo turno - Alckmin seria capaz de derrotar ambos em uma segunda rodada, mas sua vantagem vem diminuindo. 

Em outras frentes, o tucano passou a criticar Ciro Gomes – com quem disputa o terceiro lugar –, Henrique Meirelles e Marina Silva. No último dia 22, de olho no eleitorado do Sudeste, afirmou que Ciro "não gosta de São Paulo" e ao longo da semana destacou as antigas ligações de Meirelles e Marina com o PT.

Ciro, por sua vez, ultrapassado por Haddad na última semana, afirmou que o brasileiro "não quer e não merece” um segundo turno para ter de decidir entre um "fascista" – uma referência a Bolsonaro – e "as enormes contradições do PT". Sua campanha também destaca que nos cenários de segundo turno, ele seria capaz de derrotar tanto Haddad quanto Bolsonaro com margens confortáveis. Ele também tem a menor rejeição entre os cinco candidatos mais bem posicionados (22%).

Nessa estratégia do voto útil, também pesa o fato de que os candidatos menos bem posicionados têm o eleitorado menos consolidado, o que pode favorecer o direcionamento dos votos. Enquanto 76% dos eleitores de Bolsonaro e 75% de Haddad afirmam que não pretendem mudar seus votos, os percentuais são mais baixos entre os demais postulantes. Entre os eleitores de Ciro, 57% afirmam que podem mudar seu voto. Entre os que declararam voto em Alckmin, o percentual é de 58%. Já com Marina, 70%. 

Ainda segundo o Datafolha, entre os 40% dos eleitores que podem mudar seu voto, há por enquanto uma dispersão entre todos os candidatos quando uma segunda opção é indicada. Ciro Gomes seria o principal beneficiado, tendo a possibilidade de levar até 15% desses votos. Marina poderia ficar com 13%, Alckmin e Haddad, com 12% cada, e Bolsonaro com 11%. Pelos cálculos do instituto, esses 15% que indicam Ciro como segunda opção poderiam render seis pontos percentuais extras nas suas intenções de voto. 

No entanto, a mesma pesquisa aponta que Ciro também corre o risco de perder votos para Haddad, a depender como os eleitores dispostos a abraçar o voto útil vão se comportar. Entre os eleitores do candidato do PDT que podem mudar seu voto, 27% tem Haddad como segunda opção. Com Alckmin, um fenômeno parecido ocorre, e Bolsonaro é a opção de 17% dos eleitores do tucano que podem mudar de ideia.

E a campanha de Bolsonaro também passou a explorar o voto útil e propagandear que ele tem chances de ganhar no primeiro turno se o eleitorado de outros candidatos for convencido a optar pelo ex-capitão. "Bolsonaro pode estar a um Amoêdo ou a um Alvaro Dias de vencer no 1° turno", afirmou nesta semana um de seus filhos, Flávio Bolsonaro, omitindo que mesmo os percentuais desses dois candidatos ainda não somarima mais que seis pontos percentuais ao seu eleitorado, que chega hoje a 28%. 

No último dia 20, o principal apelo pelo voto útil e por uma estratégia unificada entre diferentes candidatos partiu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que divulgou uma carta pedindo que candidatos moderados se unissem em torno de um nome com mais chance de êxito. Pouco depois, FHC indicou que o nome que se encaixa nessa estratégia é do candidato do seu partido, o tucano Geraldo Alckmin. A iniciativa, no entanto, acabou sendo rejeitada publicamente por todos os principais candidatos. 

Em 2014, a pregação do voto útil acabou redesenhando a disputa presidencial nos dias que antecederam o pleito. À época, o tucano Aécio Neves disparou a pouco dias do primeiro turno ao pedir "voto útil para vencer Dilma" e foi ao segundo turno após ter sido considerado fora do jogo, avançando sobre o eleitorado de Marina Silva.

Em outros casos, o voto útil não foi capaz de influenciar de maneira decisiva, mesmo quando um candidato reunia baixa rejeição e potencial de vencer um segundo turno contra outros candidatos que eram vistos como um mal maior por uma parte significativa do eleitorado. 

Nas eleições presidenciais de 1989, as pesquisas indicavam que Mário Covas (PSDB) seria capaz de derrotar Fernando Collor em uma segunda rodada. Seus números eram mais promissores do que aqueles de Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. Ele também tinha a menor rejeição entre os principais candidatos. Covas, no entanto, apesar de ter crescido nos dias anteriores ao pleito, acabou em quarto lugar, com 11,51% dos votos.

O que é a teoria do eleitor mediano e como explica o modo 'de fisgar' indecisos

A indecisão faz parte da vida em diversos momentos, sejam pequenos ou grandes. Como todos os fatores cotidianos, a escolha política também pode trazer muitos questionamentos e dúvidas. Em anos de eleições, os cidadãos precisam analisar planos de governo, coligações, ideologias, posicionamento e histórico dos muitos candidatos e, por fim, compor a escolha final de seus representantes. Como vimos nas pesquisas recentes, mais de 10 milhões de brasileiros ainda não decidiram em quem votar em 2018. Esse grupo de indecisos também é chamado de "eleitor mediano", que poderá, potencialmente, decidir a corrida eleitoral.

Teoria política herdada da economia, o teorema do eleitor mediano atua justamente no modo como os indecisos influenciam as estratégias de campanha, particularmente a da eleição majoritária absoluta, ou seja, na disputa à Presidência da República e aos governos dos estados, em que o candidato precisa conquistar 50% dos votos + 1. 

Com essa suposição, o único objetivo é capturar a maior parte do eleitorado, o que quer dizer ter, na zona de votos, o centro do espectro dos eleitores. Quem tiver o discurso que "fisga o centro", eventualmente, vencerá a eleição.

O sociólogo e professor de Ciência Política da Faculdade Cásper Líbero, João Alexandre Peschanski, explica que as regras do jogo definem o tipo de comportamento e a lógica de ação de partidos e eleitores. Em eleições majoritárias absolutas , por exemplo, haverá um tipo de atuação e a definição de mecanismos eficazes para que os candidatos consigam desenvolver racionalmente uma estratégia discursiva que capture o centro do eleitorado.

Vale lembrar que o teorema não se aplica ao modo como senadores são eleitos, já que estão inseridos em um sistema majoritário relativo, em que não é necessário atingir mais de 50% dos votos. Ou seja, com 20%, já é possível ganhar desde que os concorrentes permaneçam com taxas menores. Nas eleições legislativas e em eleições de outros países, como os Estados Unidos, a prática também não é eficiente.

Porém, mesmo com algumas exceções, essa tendência de buscar falar com indecisos já foi detectada em diferentes discursos de campanhas. Você se lembra de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) durante o segundo turno das eleições de 2014, por exemplo? O esquema utilizado por ambos foi o mesmo. Naquele momento, o discurso dos candidatos se deslocou para o centro, a fim de captar eleitores que ainda não faziam parte do seu grupo de votantes. De certo modo, tornaram-se, pelo menos em muito das exposições de ideias, indissociáveis.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é outra figura que adaptou a abordagem eleitoral. A mudança foi perceptível numa comparação entre as eleições de 1989, contra Fernando Collor de Mello (PRN, atual PTC), e a de 2002, ao enfrentar José Serra (PSDB). Aos poucos, Lula foi desenvolvendo estratégias que o afastaram da posição ideológica forte, bastante evidente durante a primeira disputa, o que deu espaço a uma postura "mais moderada", tornando-se presidente no começo dos anos 2000.

É importante destacar que essa teoria cria "falas universalizantes" e faz com que os candidatos parem de "pregar aos já convertidos" para ampliar sua gama de votos. Entretanto, como uma ideia mais abstrata, ela deixa vários fatores de fora: instintos, emoções, histórico dos partidos, particularidade dos candidatos e todo um contexto, que podem mudar bruscamente o rumo das coisas.

A teoria do eleitor mediano é sempre eficaz?

O professor afirma que a proposta do teorema do eleitor mediano é de, principalmente, criar um parâmetro teórico que auxilie no processo de interpretação e comparação de eleições realmente reais.

Desse modo, se a corrida eleitoral funcionasse apenas com base na racionalidade, imagina-se que campanhas em pleitos decididos por sistema majoritário absoluto fossem realizadas com base na busca pelo centro indeciso do eleitorado, ou seja, do eleitor mediano.

“O ponto positivo dessa teoria é que podemos usá-la para comparar a vida política 'como ela é'. Assim, se algo que não bata com ela for identificado é porque existem coisas a se descobrir. Já o ponto negativo está na sua não aplicação em diversos casos. Não há como prever todos os fatores complexos da sociedade, nem entender tudo se baseando somente nela. Não tem como prever coisas como uma facada no Jair Bolsonaro, por exemplo”, explica o especialista.

Levando em consideração o atual período de eleições para governador de São Paulo, é possível identificar a busca pelo discurso de centro como uma das estratégias adotadas por João Doria (PSBD) e Paulo Skaf (MDB), que se aproveitam de seus nomes enquanto os demais candidatos precisam fazer "campanhas de apresentação" para conquistar eleitores diferentes e evitar a rejeição.

Tal fator ocorre com menos frequência entre aqueles que concorrem à Presidência, já que costumam ser mais conhecidos no meio político. No cenário de 2018, por exemplo, Fernando Haddad (PT) é o mais “misterioso” para os eleitores que não residem na capital paulista. 

Extremismo vence eleição?

Segundo o teorema, Bolsonaro, por exemplo, não conseguiria vencer as eleições porque assume um posicionamento político polarizado. Para esse conceito, dentro de um sistema majoritário absoluto, o extremismo é uma estratégia que leva, normalmente, à derrota.

Entretanto, apesar do discurso "polêmico", as táticas de comunicação utilizadas nas campanhas do candidato do PSL são ardilosas e colocam a teoria 'em xeque'. Isso porque o teorema, conforme explicado anteriormente, não leva em conta elementos que configuram o chamado voto de campanha (que são aqueles conquistados pelo discurso e promessas dos candidatos) e também não mostra "o que pode acontecer no futuro".

Peschanski ressalta que a estratégia de comunicação de Bolsonaro é eficaz por reagrupar um nicho relativamente grande do eleitorado. E, desse modo, por mais que o candidato permaneça discursando para eleitores fiéis a sua figura, dado confirmado pela taxa de rejeição referente às propostas de seu governo, o mecanismo de que se apropria é eficiente e se fortalece, não na mensagem que passa, e sim no meio que a emite.

Portanto, a ‘inovação’ trazida pelo candidato está na maneira com que monopoliza o discurso de forma a transparecer convicção. Ele se torna o dono da última palavra, aquele que decide quando a conversa acaba e é justamente isso que chega de forma tão direta às pessoas, algo extremamente significativo do ponto de vista discursivo. Nesse caso, em específico, não se trata das propostas, e sim da forma de se comunicar.

“Essa é uma estratégia muito nova, é uma forma de entendimento da comunicação política que foi abraçada pelas tecnologias de mídia do século 21. Os outros candidatos estão atrás de Bolsonaro nesse quesito, eles têm maneiras de comunicar bem mais robóticas, os meios que utilizam para interagir ao longo do processo não são inovadores", aponta. 

O sociólogo conclui que, ao contrário do representante do PSL, que não reproduz um discurso de centro ideal para o eleitor mediano, os demais concorrentes têm mais chances de seguir essa tendência para as eleições à Presidência, tendo particularidades em seus discursos que podem agradar os indecisos.


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