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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna

Desconstruir o manicômio em nós

Um agir propositivo, não só negando, mas anti-fabricando

Postado em 19 de Setembro de 2018 - Emerson Merhy

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Essa coluna não poderia ser outra depois do que vivi nessa semana, em Barbacena, cidade do estado de Minas Gerais, conhecida no decorrer do século XX como a “cidade sem volta”. Aliás, alcunha nada fantasiosa se a associarmos as experiências vividas por dezenas de milhares de pessoas que foram enviadas para essa cidade, desde 1903, para serem internadas no Hospital Colônia, de trágica memória.

Há pouco tempo soubemos do trabalho da jornalista Daniela Arbex que produziu um material incrível denominado “O holocausto brasileiro”, acessível a qualquer um que se interessar por essa recuperação da memória realizada por ela ao trazer à tona histórias orais, fotográficas, videográficas, entre várias, que por si mostraram a violência que a Colônia praticou contra as vidas que estavam sob sua responsabilidade. Mais de 60 mil vidas foram perdidas ali devido ao mal trato dispensado nesse estabelecimento de cuidado manicomial a quem era imputado como louco(a).

Longa prática de violência, que para o psiquiatra italiano Franco Basaglia - que conheceu o local em 1979 - era o equivalente aos campos de concentrações nazistas, que o mesmo conheceu na Segunda Guerra.

Como disse, no último dia 17 tive o privilégio de conhecer mais de perto o que muitas pessoas vêm fazendo para mudar esse passado, lá em Barbacena.

Participei da comemoração dos quinze anos do projeto “De volta para casa”, que é um dos muitos que se construiu no Brasil para ao se desmontar esses bárbaros cuidados manicomiais, como o da Colônia, e imediatamente construir uma rede substitutiva de cuidado antimanicomial. Mais que isso, praticar a desconstrução do agir manicomial, substituindo-o por relações de cuidado que os anti-fabricava.

Como se, para ir produzindo novas possibilidades de viver, fosse preciso construir espaços de resistências propositivas e não de negação. Resistir, como aposta de, no dia a dia, a cada encontro, produzir-se relações moleculares em liberdade, profundamente comprometidas com a criação de novas formas de viver que o manicômio interditava.

Nesses últimos anos, várias instituições se juntaram para isso. Sem dúvida, foi fundamental que a rede de serviços do Sistema Único de Saúde apostasse nessa direção, mas foi tão central quanto a construção de parcerias com a sociedade de Barbacena, em especial, com o Instituto Bom Pastor, que vem também construindo esse processo conjuntamente.

Um conjunto de experiências que vão revelando que um mundo-outro é possível, um mundo que seja a evidência de que podemos produzir o AntiHolocausto, ali onde o Holocausto adquiriu materialidade.

Onde o agir manicomial produziu isolamento, produz-se enriquecimento de convivências, ampliação das redes de contato e de trocas de experiências de vidas. Onde o manicômio produziu interdição do exercício de si, experimenta-se amplamente a oferta diversificada que o mundo nos proporciona, age-se no cuidar em liberdade, no pleno gozo do direito de ser livre. Onde o manicômio roubou os desejos, amplia-se as experimentações prazerosas de viveres em conexões, tirando de cada detalhe oxigênios vitais de vidas novas.

Essa experiência que me foi permitido compartilhar com essa quantidade de gente que vem praticando isso como forma de se produzir como existência, tinha que ser partilhada com quem não estava lá comigo.

Hoje, mais do que nunca precisamos dessa certeza de que o nosso fazer de um possível futuro distinto passa pelo aqui e agora, modificando nosso passado mais cruel. Não podemos dar espaço para que o preconceito seja o governante de nossas relações, para que a intolerância seja nossa senhora, para que a exploração da vida da maioria papa uma minoria se locupletar seja a ordem das existências.

Por isso, precisamos ver na produção da resistência a construção de nossas próprias vidas como a construir de viveres propositivos que sejam na sua realização a negação em ato desse mundo intolerável.

Essa aprendizagem que temos todo dia, e que em Barbacena explodiu no meu corpo, deve ser cantada a mil vozes. Cantada em multidão.

Não cederemos o exercício da nossa liberdade de produzir mais vida com o outro, no respeito radical às nossas diferenças, para agires que querem nos afugentar com suas ameaças violentas.

Desconstruir o manicômio em nós, só produzindo outros nós em nós que permitam experiências de mais vida no encontro com os outros.

Lembrando da minha própria coluna da semana passada - o dilema do ovo e a galinha, de Pastor Val e suas ovelhas - caberia perguntar se a “ovelha do chifre afiado”, ao construir sua imagem de que o pastor não era o divino, mas sim o diabo, não estaria cedendo a uma resistência pouco interessante nos dias de hoje, pois operou no mesmo campo imaginário do domínio do pastor.

Seria de fato uma resistência propositiva se as ovelhas-ovos, por suas próprias experiências se permitissem abrir interrogações sobre quem são e o que estão criando, até o ponto que consigam construir nos seus modos de viver um modo de vida de não-ovelha. Talvez essa fosse a melhor forma de desconstruir o Pastor Val, o pastor-galinha.

Desconstruir-se como ovelhas, vivendo modos de vidas de mundos-outros, desinstitucionalizariam o poder dos pastores que enunciam o medo como forma de controle do outro.

Essa bravura está instaurada em Barbacena e não será mais destruída, pois não se destrói corpos desejosos, esses inventam mundos novos para a vida fluir em liberdade no encontro com o outro.


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