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Quarta-Feira 19.set.2018

Ano VI - Nº 320

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Trabalho, dinheiro, migrantes: entrevista com o Papa Francisco

O livre comércio somente pode ser chamado justo quando está em conformidade com as exigências da justiça social, diz o sumo pontífice

Postado em 11 de Setembro de 2018   - Guido Gentili - Il Sole 24 Ore (tradução de Victor D. Thiesen)

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"A ética amiga das pessoas tende para a superação da rígida distinção entre entidades dedicadas ao lucro e aquelas orientadas não apenas para o mecanismo exclusivo do lucro, deixando um amplo espaço para empreendimentos que constituem e expandem o chamado terceiro setor. Estes, sem diminuir a importância e a utilidade econômica e social das formas históricas e consolidadas de negócios, fazem com que o sistema evolua para uma assunção mais clara e completa de responsabilidade por parte dos sujeitos econômicos. De fato, é a própria diversidade de formas institucionais de empresa que gera um mercado que é mais civil e ao mesmo tempo mais competitivo", afirma o Papa Francisco em entrevista de Guido Gentili, publicada por Il Sole 24 Ore, no último dia 7. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Segundo Francisco, "a esperança é como as brasas sob as cinzas, ajudemo-nos uns aos outros com solidariedade, soprando as cinzas. Esperança, que não é mero otimismo, nos leva adiante. Todos nós temos que apoiar a esperança, ela é nossa, é algo que pertence a todos, por isso digo muitas vezes também aos jovens, não deixem ninguém roubar a sua esperança. Temos que ser astutos, porque o Senhor nos faz entender que os ídolos são mais astutos do que nós e nos convida a ter a astúcia da serpente com a inocência da pomba".

"A esperança não é uma virtude para as pessoas de estômagos cheios - constata o Papa -  e, por essa razão, os pobres são os primeiros portadores de esperança e são os protagonistas da história".

Eis a entrevista.

Sua Santidade, um velho provérbio africano diz: “Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quiser ir longe, vá junto”. Todos sabemos quão rápido podemos correr, graças às novas ferramentas de inovação tecnológica, na comunicação - também entre pessoas - e na economia. Mas as profundas crises que ocorreram, juntamente com uma incerteza duradoura e generalizada, parecem ter diminuído e obscurecido nossos horizontes. O governo britânico até criou um ministério para lidar com a "solidão". Você, pessoalmente, adotaria o provérbio?

Este provérbio expressa uma verdade: o indivíduo pode ser bom, mas o crescimento é sempre o resultado do compromisso de todos para o bem da comunidade. De fato, habilidades individuais não podem se materializar fora de um ambiente comunitário favorável, uma vez que você não pode pensar que o resultado final seja simplesmente a soma de habilidades individuais. Digo isto não para rebaixar os indivíduos ou deixar de reconhecer os talentos de cada pessoa, mas para nos ajudar a não esquecer que ninguém pode viver isolado ou independente dos outros. A vida social não é composta pela soma da individualidade, mas pelo crescimento de um povo.

Como pode-se ser "inclusivo"?

Ver a humanidade como uma família única é a primeira maneira de ser inclusivo. Somos chamados a viver juntos e dar espaço para receber a colaboração de todos. Se olharmos à nossa volta com o coração aberto, não podemos deixar de perceber as muitas e preciosas histórias de apoio, proximidade, atenção, atos voluntários, que nos permitem entender em primeira mão que a solidariedade se estende cada vez mais. Se a comunidade em que vivemos é nossa família, evitar a competição para abraçar a ajuda recíproca se torna mais simples. Como o que ocorre nas famílias a que pertencemos, onde o crescimento real, o tipo que não cria pessoas excluídas e descartáveis, é o resultado das relações sustentadas pela ternura e pela misericórdia, não pelo anseio de sucesso e a exclusão estratégica de quem mora ao nosso lado. A ciência, a tecnologia e o progresso tecnológico podem realizar ações mais rapidamente, mas o coração é exclusivo da pessoa para acrescentar um suplemento de amor nos relacionamentos e nas instituições.

Não ter um projeto compartilhado sobre a redução das desigualdades em um sistema que é cada vez mais globalizado pode levar ao que você chama de “economia do descarte”, onde as próprias pessoas se tornam “descartáveis”. No documento mais recente (“Oeconomicae et pecuniariae quaestiones - Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico”), a Santa Sé afirmou que “a economia precisa de uma ética amiga das pessoas para funcionar corretamente”. Você pode explicar este ponto para nós?

Primeiro de tudo, um esclarecimento sobre a ideia de descartáveis. Como escrevi na Evangelii Gaudium: isso não é simplesmente o fenômeno conhecido como um ato de exploração e opressão, mas um fenômeno verdadeiramente novo. Com a ação da exclusão, atacamos a própria raiz dos laços de pertencimento à sociedade à qual pertencemos, pois com isto não somos apenas relegados aos porões da existência, nas periferias, não somos apenas privados de qualquer poder, em vez disso, somos jogados fora. A pessoa excluída não é explorada, mas é completamente rejeitada, isto é, considerada lixo, sobras e, assim, expulsa da sociedade. Não podemos ignorar o fato de que uma economia estruturada dessa maneira mata, porque coloca o dinheiro no centro e obedece apenas ao dinheiro: quando a pessoa não está mais no centro, quando ganhar dinheiro se torna o objetivo primário e único, estamos fora da ética e estruturas de pobreza, escravidão e descarte são criados.

Isso significa que estamos em um contexto de valores que é inimigo das pessoas?

Temos uma ética que não é amiga das pessoas quando, quase com indiferença, não somos capazes de dar ouvidos e sentir compaixão diante do grito de dor dos outros, não derramamos lágrimas diante das tragédias que consomem a vida de nossos irmãos, nem cuidamos deles, como se eles não fossem também nossa responsabilidade, fora de nossas competências. A ética amiga das pessoas se torna um forte incentivo para a conversão. Nós precisamos de conversão. Falta consciência de uma origem comum, de pertencer a uma raiz comum da humanidade e de um futuro para construir juntos. Esta consciência básica permitiria o desenvolvimento de novas convicções, novas atitudes e estilos de vida. A ética amiga das pessoas tende para a superação da rígida distinção entre entidades dedicadas ao lucro e aquelas orientadas não apenas para o mecanismo exclusivo do lucro, deixando um amplo espaço para empreendimentos que constituem e expandem o chamado terceiro setor. Estes, sem diminuir a importância e a utilidade econômica e social das formas históricas e consolidadas de negócios, fazem com que o sistema evolua para uma assunção mais clara e completa de responsabilidade por parte dos sujeitos econômicos. De fato, é a própria diversidade de formas institucionais de empresa que gera um mercado que é mais civil e ao mesmo tempo mais competitivo.

No mesmo documento em que a mensagem é clara sobre por que a atividade financeira deve servir à economia real, e não vice-versa, o que se destaca é o chamado às escolas, onde os gestores e chefes de indústria do futuro são educados, para torná-los conscientes de que os modelos econômicos que só perseguem resultados quantitativos não serão capazes de manter o desenvolvimento e a paz ao longo do tempo. Isso significa que os gerentes devem ser treinados, e em seguida julgados, também com base em parâmetros diferentes dos atuais? Quais?

Parece-me importante observar que nenhuma atividade acontece por acaso ou de forma autônoma. Por trás de toda atividade existe um ser humano. Essa pessoa pode permanecer anônima, mas não existe atividade que não se origine no homem. A atual centralidade da atividade financeira em relação à economia real não é casual: por trás disso há a escolha de alguém que pensa, erroneamente, que o dinheiro é feito com dinheiro. O dinheiro, o tipo real, é feito com trabalho. É o trabalho que confere dignidade ao homem, não o dinheiro. O desemprego que está afetando vários países europeus é a consequência de um sistema econômico que não é mais capaz de criar trabalho, porque colocou um ídolo em seu centro, que é chamado de dinheiro. E acrescento, pensando nos trabalhadores que conheci na Sardenha: a esperança é como as brasas sob as cinzas, ajudemo-nos uns aos outros com solidariedade, soprando as cinzas. Esperança, que não é mero otimismo, nos leva adiante. Todos nós temos que apoiar a esperança, ela é nossa, é algo que pertence a todos, por isso digo muitas vezes também aos jovens, não deixem ninguém roubar a sua esperança. Temos que ser astutos, porque o Senhor nos faz entender que os ídolos são mais astutos do que nós e nos convida a ter a astúcia da serpente com a inocência da pomba.

Astúcia e inocência para lutar contra o ídolo do dinheiro? Como fazer isso?

No momento existe um ídolo no centro do nosso sistema econômico, e isso não é bom: vamos todos lutar juntos para que a família e as pessoas estejam no centro, e possamos seguir adiante sem perder a esperança. Distribuição e participação na riqueza produzida, inserção da empresa na região, responsabilidade social, bem-estar da empresa, igualdade salarial entre homens e mulheres, harmonia entre tempo de trabalho e tempo para a vida, respeito ao meio ambiente, reconhecimento da importância do homem comparado às máquinas, o reconhecimento de um salário justo e a capacidade de inovação são elementos importantes que mantêm viva a dimensão comunitária de uma empresa. A busca pelo desenvolvimento integral requer atenção aos temas que acabei de listar.

O que é bom para uma empresa?

A forma como uma empresa é considerada tem uma forte influência nas escolhas organizacionais, produtivas e distributivas. Você pode dizer que agir bem, respeitando a dignidade das pessoas e perseguindo o bem comum, é bom para uma empresa. Há sempre uma correlação entre a ação do homem e os negócios, a ação do homem e o futuro de um negócio. O que me vem à mente é o Beato Paulo VI, que terei a alegria de proclamar santo em 14 de outubro, que na encíclica Populorum progressio escreveu que o desenvolvimento “não pode se restringir apenas ao crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral; deve fomentar o desenvolvimento de cada homem e de todo o homem. Como um eminente especialista nesta questão disse corretamente: “Não podemos permitir que a economia seja separada das realidades humanas, nem o desenvolvimento da civilização em que ela ocorre. O que conta para nós é o homem - cada homem individual, cada grupo humano e a humanidade como um todo”."

O recente documento de análise do Vaticano sobre o sistema econômico ao qual já me referi observou, acima de tudo, como “os mercados, como poderosos propulsores da economia, não são capazes de se governar. De fato, os mercados não sabem como fazer suposições que permitam o bom funcionamento (coexistência social, honestidade, confiança, segurança, leis, etc.) nem como corrigir os efeitos e forças prejudiciais à sociedade humana (desigualdade, assimetrias, danos ambientais, insegurança social e fraude)”. Isso significa que a economia não é suficiente e, de alguma forma, precisa ser “salva”? Quais são, na sua opinião, os limites “justos” do lucro?

A atividade econômica não se refere apenas ao lucro, mas também inclui relacionamentos e significados. O mundo econômico, se não for reduzido a uma questão puramente técnica, não contém apenas o conhecimento do como (representado pelas habilidades), mas também do porquê (representado por significados). Uma economia saudável, portanto, nunca é desvinculada do significado do que produz e a ação econômica é sempre também um fato ético. Ao manter juntos ações e responsabilidade, justiça e lucro, produção de riqueza e sua redistribuição, funcionamento e respeito ao meio ambiente, tornam-se elementos que ao longo do tempo garantem a vida da empresa. Deste ponto de vista, o significado da empresa se amplia e deixa claro que a busca somente de lucro não garante mais a vida da empresa.

Além dessas questões ligadas mais diretamente à empresa, temos que nos deixar questionar pelo que nos cerca. Não é mais possível que os operadores econômicos não escutem os gritos dos pobres. Mais uma vez Paulo VI - e quero citá-lo plenamente aqui por sua importância - afirmou no Populorum progressio que “o princípio do livre comércio, por si só, não é mais adequado para regular os acordos internacionais. Suas vantagens são certamente evidentes quando as partes contratantes se encontram em condições de poder econômico que não são muito díspares: então, é um incentivo para o progresso e a compensação pelo esforço alcançado. Isso explica, portanto, como os países industrialmente desenvolvidos tendem a ver uma lei de justiça nisso. Isso muda, no entanto, quando as condições se tornaram muito desiguais de país para país: preços que se formam ‘livremente’ no mercado podem, então, levar a resultados injustos. É útil reconhecer isso: é o princípio fundamental do liberalismo como uma regra da troca comercial que é questionada aqui. O ensinamento de Leão XIII na ‘Rerum novarum’ se mantém válido: o consenso das duas partes, se estiverem em desigualdade excessiva, não é suficiente para garantir a justiça do contrato, e a lei de livre consentimento permanece subordinada às demandas da lei natural. O que era verdade em relação ao salário individual justo”, escreveu meu venerado predecessor Paulo VI, “também é verdadeiro em relação aos contratos internacionais: as relações comerciais não podem mais se basear apenas no princípio da livre concorrência descontrolada, pois muitas vezes isso cria uma ditadura econômica. O livre comércio pode ser chamado justo apenas quando está em conformidade com as exigências da justiça social”.

Il Sole 24 Ore - como a Radio 24 e a agência de notícias Radiocorplus - é o jornal da Confindustria, a organização dos empregadores italianos que representa 160.000 empresas, a grande maioria das quais pequenas e médias empresas. Os industriais italianos estão lutando por uma sociedade aberta e inclusiva. O que é necessário, na sua opinião, para garantir que um líder de negócios seja um “criador” de valor para sua empresa e para outras, a partir da comunidade em que vivem e trabalham? Ao ler os Evangelhos, nota-se que Jesus demonstra grande simpatia por empreendedores que assumem um risco (se você pensar na Parábola dos Talentos).

Lembro-me da reunião que tive com a Confindustria em fevereiro de 2016. Lembro-me de muitos rostos, atrás dos quais estavam a paixão e os projetos, o esforço e o talento. Eu disse que considero a atenção para a pessoa real muito importante, o que significa dar a cada pessoa o devido, afastando mães e pais da angústia de não serem capazes de dar um futuro e nem mesmo um presente para seus próprios filhos. Significa saber administrar, mas também saber escutar, compartilhar projetos e ideias com humildade e confiança. Significa garantir que o trabalho crie mais trabalho, a responsabilidade crie outras responsabilidades, a esperança crie outras esperanças, sobretudo para as gerações jovens, que hoje precisam mais do que nunca. Acredito que é importante trabalhar em conjunto para construir o bem comum e um novo humanismo no trabalho, promover um trabalho que respeite a dignidade da pessoa, que não procure apenas as necessidades lucrativas ou produtivas, mas promova uma vida digna, sabendo que o bem das pessoas e o bem da companhia andam de mãos dadas. Vamos nos ajudar mutuamente a desenvolver a solidariedade e criar uma nova ordem econômica que não gere mais descarte, enriquecendo a ação econômica com atenção voltada aos pobres e a redução das desigualdades. Nós estamos precisando de coragem e gênio criativo.

Quando falta, o trabalho torna-se uma emergência intolerável, tanto pessoal quanto social. Não obstante, o trabalho é frequentemente percebido como uma espécie de sentença diária, uma rotina insuportável. Você pode apontar, por exemplo, duas razões pelas quais não é, ou pelo menos não deva ser, e as maneiras pelas quais as empresas podem se esforçar para garantir que não seja assim, com isso contribuindo também para o sucesso das próprias empresas e a prosperidade da sociedade?

A ideia de que o trabalho é apenas tensão é bastante difundida, mas todo mundo sabe que não ter um emprego é muito pior do que trabalhar. Quantas vezes enxuguei lágrimas de desespero de pais e mães que não têm mais trabalho! O trabalho faz o bem, porque está ligado à dignidade da pessoa, à sua capacidade de assumir responsabilidade por si e pelos outros. É melhor trabalhar do que viver ocioso. O trabalho traz satisfação, cria as condições para a visão pessoal. Ganhar o pão é uma razão saudável para o orgulho; com certeza também traz esforço, mas nos ajuda a manter um saudável senso de realidade e nos ensina a encarar a vida. As pessoas que se sustentam e à sua família através do seu próprio trabalho desenvolvem a sua dignidade: o trabalho cria dignidade. Os benefícios, quando não ligados ao objetivo claro de retomar o trabalho e o emprego, criam dependência e privam as pessoas da responsabilidade. Além disso, o trabalho tem um alto significado espiritual, pois é a maneira pela qual damos continuidade à criação, respeitando-a e cuidando dela.

Qual contribuição você pede às empresas?

As empresas podem oferecer uma forte contribuição para garantir que o trabalho mantenha sua dignidade, reconhecendo que o homem é o recurso mais importante de toda empresa, trabalhando para a construção do bem comum, prestando atenção aos pobres. Eu sei que, em muitas empresas, o espaço justo é dado ao treinamento. Estou convencido de que seria uma grande vantagem para uma empresa complementar o ensino técnico com treinamento em valores - solidariedade, ética, justiça, dignidade, sustentabilidade - significados são conteúdos que enriquecem o pensamento e a capacidade operacional.

De alguma forma, o mundo globalizado tornou-se pequeno. Neste momento, chegamos aos limites do que você chama de nosso lar comum, que é o planeta Terra, a tal ponto que estão sendo feitos planos para colonizar outros planetas. A ecologia e um mundo sustentável são uma grande preocupação sua e os grandes atores internacionais do setor de energia, começando pela italiana Eni, anunciaram revoluções “verdes”. Você acredita que está sendo feito o suficiente nesta frente?

Ainda há muito a fazer para reduzir comportamentos e escolhas que não respeitem o meio ambiente e a Terra. Estamos pagando o preço de uma exploração da Terra que durou muitos anos. Hoje em dia também, infelizmente, em muitas situações, o homem não é o protetor da Terra, mas um explorador tirânico. Há sinais, no entanto, de uma nova atenção para o meio ambiente; é uma mentalidade que gradualmente está sendo compartilhada por um número crescente de países. Este é um processo que requer atenção particular, porque é necessário passar de uma descrição de sintomas para o reconhecimento da raiz humana da crise ecológica, da atenção ao meio ambiente para uma ecologia integral, de uma ideia de onipotência para uma consciência da escassez de recursos. O ponto-chave é que falar do ambiente sempre significa também falar de homem: a degradação ambiental e a degradação humana andam de mãos dadas. Na verdade, muitas vezes apenas os pobres que são obrigados a pagar pelas consequências da violação da criação. O desenvolvimento da dimensão ecológica requer a convergência de várias ações: políticas, culturais, sociais e produtivas. Em particular, a formação de uma nova consciência ecológica precisa de novos estilos de vida para construir um futuro harmonioso, promover o desenvolvimento integral, reduzir as desigualdades, descobrir o elo entre as criaturas e abandonar o consumismo.

Isso significa que há necessidade de mudar o modelo de produção?

Como escrevi na encíclica Laudato si', esses problemas estão intimamente ligados à cultura do descarte, que atinge os seres humanos que são excluídos tanto quanto as coisas que rapidamente se transformam em lixo. Pensemos, por exemplo, no nosso sistema industrial, que no final do ciclo de produção e consumo não desenvolveu a capacidade de absorver e reaproveitar resíduos e restos. Ainda não conseguimos adotar um modelo de produção que garanta recursos para todos e para as gerações futuras, e isso requer limitar o máximo possível o uso de recursos não-renováveis, moderar o consumo, maximizar a eficiência energética, reutilizar e reciclar. Enfrentar essa questão seria uma maneira de enfrentar a cultura do descarte, que acaba prejudicando todo o planeta. Temos que admitir que ainda há muito trabalho a ser feito nessa direção.

Entre os “descartáveis” da Terra estão os migrantes que se deslocam de um continente para o outro, fugindo de guerras ou em busca de condições para viver e sobreviver. Em um período da história que vê fronteiras (também fronteiras comerciais) fechando e o nacionalismo prevalecendo em uma Europa cansada e dividida, você não se sente um pouco como um Moisés contemporâneo que abre o caminho, abre as portas para todos os povos e pessoas, começando pelos mais pobres? Há quem pense que esta não é a missão do Sucessor de Pedro. Por que, por outro lado, você acredita que é? E o que esta Europa precisa para redescobrir uma rota comum em conjunto para responder aos receios dos seus cidadãos?

Hoje em dia, os migrantes representam um grande desafio para todos. As pessoas pobres que se deslocam assustam especialmente as comunidades prósperas. No entanto, um futuro pacífico para a humanidade não existe senão no acolhimento da diversidade, da solidariedade, no pensamento da humanidade como uma única família. É natural que um cristão reconheça Jesus em todas as pessoas. O próprio Cristo convida-nos a acolher nossos irmãos e irmãs migrantes e refugiados de braços abertos, talvez participando da iniciativa que lancei em setembro do ano passado: Share the Journey [Compartilhe a Jornada, em tradução livre]. A jornada, de fato, é feita por dois: os que vêm à nossa terra e nós, que vamos em direção ao coração deles, para entendê-los, entender sua cultura, sua língua, sem ignorar o contexto atual. Este seria um sinal claro de um mundo e de uma Igreja que tenta ser aberta, inclusiva e acolhedora; a Igreja se torna uma mãe que abraça a todos na partilha de uma jornada comum. Não esqueçamos, como eu já disse anteriormente, que a esperança é a motivação no coração de quem deixa o seu lar, terra, por vezes família e parentes, para procurar uma vida melhor, mais digna para si e para aqueles que amam... a esperança é a motivação para “compartilhar a jornada” da vida, não tenhamos medo de compartilhar a jornada! Não tenhamos medo de compartilhar a esperança. A esperança não é uma virtude para as pessoas de estômagos cheios e, por essa razão, os pobres são os primeiros portadores de esperança e são os protagonistas da história.

Mas como a Europa deve agir na prática?

A Europa precisa de esperança e de futuro. A abertura, impulsionada pelo vento da esperança, para os novos desafios colocados pela migração pode ajudar na construção de um mundo em que não falemos apenas de números ou instituições, mas também de pessoas. Entre os migrantes, como você disse, há pessoas procurando “condições de viver ou sobreviver”. Para essas pessoas que estão fugindo da miséria e da fome, muitos líderes empresariais e muitas instituições europeias, as quais não faltam talento e coragem, poderiam realizar redes de investimento, em seus países, na educação, da escola ao desenvolvimento de verdadeiros sistemas culturais, e acima de tudo no trabalho. Investimento no trabalho que significa acompanhar a aquisição de competências e o início de um desenvolvimento que pode se tornar um trunfo para os países que ainda hoje são pobres, dando a dignidade do trabalho a essas pessoas e ao país a capacidade de tecer vínculos sociais positivos capazes de construir sociedades justas e democráticas.

O Vaticano está na Itália e você é o bispo de Roma. Mas o povo italiano mostrou ampla aprovação para as forças políticas definidas como “populistas” que não concordam com a abertura das portas do país aos migrantes. Como você está vivendo essa divergência entre ovelhas e pastores?

As respostas aos pedidos de ajuda, mesmo que generosas, talvez não fossem suficientes, e hoje nos vemos chorando pelos milhares de mortos. Houve muitos silêncios. O silêncio do senso comum, o silêncio do “sempre fizemos assim”; o silêncio dos “nós sempre contrapostos a eles”. O Senhor promete alívio e libertação a todos os oprimidos do mundo, mas ele precisa que façamos sua promessa efetiva. Ele precisa de nossos olhos para ver as necessidades de nossos irmãos e irmãs. Ele precisa de nossas mãos para fornecer ajuda. Ele precisa da nossa voz para condenar as injustiças cometidas no silêncio, às vezes cúmplice, de muitos.

Acima de tudo, o Senhor precisa do nosso coração para mostrar o amor misericordioso de Deus para o último, o rejeitado, o abandonado, o marginalizado.

De que maneira podemos criar uma rede de integração capaz de superar medos e preocupações, que são reais?

Não devemos deixar de ser testemunhas da esperança. Vamos ampliar nossos horizontes sem sermos consumidos pela presente preocupação. Assim como é necessário que os migrantes sejam respeitosos com a cultura e as leis do país que os acolhe, de modo a implementar conjuntamente uma rede de integração e superar todos os medos e preocupações. Confio estas responsabilidades também à prudência dos governos, para que encontrem maneiras compartilhadas de dar uma recepção digna a muitos irmãos e irmãs que imploram por ajuda. Um certo número de pessoas pode ser recebido, sem excluir a possibilidade de integrá-las e estabelecê-las de maneira digna. É necessário prestar atenção ao tráfico ilegal, ciente de que o acolhimento não é fácil. Aqui lembro-me do que escrevi este ano na mensagem do Dia Global da Paz: quatro marcos para a ação, que adoro expressar através dos verbos “acolher, proteger, promover e integrar”, e sublinho que 2018 levará à definição e aprovação, por parte das Nações Unidas, de dois pactos globais: um para a migração segura, ordenada e legal, o outro para os refugiados. Estes são pactos que servirão de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por esta razão, é importante que os nossos projetos e propostas sejam inspirados pela compaixão, visão e coragem, a fim de aproveitar todas as oportunidades para avançar na construção da paz: este é o único caminho para o necessário realismo da política internacional evitar render-se ao desinteresse e à globalização da indiferença.


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