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Sábado 31.out.2020

Ano IX - Nº 417

Coluna

A vida em ebulição

A máquina de fazer ideias e o Mesmo, que não aceita o outro

Postado em 05 de Setembro de 2018 - Emerson Merhy

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Sempre o Mesmo se repetia todos os dias. Já era possível pensar como gerar coisas diferentes, que poderiam dar alguns coloridos a mais no espectro de sons e imagens que se repetiam e se repetiam, desde que o Mesmo suportasse, e quando algo parecia ir para além disso, o Mesmo alargava o funcionamento das suas regras de autoprodução e trazia para dentro do seu suportável, aquilo que quase ia lhe escapando.

Tudo indicava que era vital ter que fazer esse esforço de reger alguns acontecimentos, que poderiam lhe fugir. O Mesmo tinha muito ecletismo quanto a isso. Podia escolher dentro das suas regras de suportabilidade, que vidas poderiam ir sendo vividas e acontecendo em fluxos, na calmaria que o previsível reafirmava. Previsível garantido pelas suas regras de constituição de si e dos outros.

Cada pedra tinha que ter seu lugar e desempenhar sempre o mesmo papel nas suas relações, tudo tinha que, no mínimo, parecer funcional e favorável, para que certas criações fossem autorizadas como novidadeiras.

Os ventos, as luzes, os lagos e montanhas tinham que dar a impressão que sempre estiveram e continuariam estar onde estavam, vivendo a repetição de si a cada instante. Os viventes, de todos tipos iam na calmaria desse tipo de mundo do Mesmo, se acostumando uns com os outros, no borramento das diferenças que garantiam esse “se” suportar; e quando não, o Mesmo alargava o funcionamento das suas regras para trazer para si o domínio dessas dificuldades. Continha em si, de modo autopoiético, as diferenças a serem vividas como meras posições de diferentes que se constituíam dentro do Mesmo. O identitário era uma criação necessária para realizar essa tensão.

Não diria que todos estavam felizes, mas dentro do que o Mesmo suportava e permitia, a sensação era de que tudo parecia estar bem, de acordo e funcional, com os jeitos dos viventes viverem, sendo em si o próprio Mesmo. Isso dava uma percepção de que poucas eram as tensões devido a isso, pois eram bem eficazes as regras de funcionamento do Mesmo, estabelecendo modos de viver bem sob controle,  normalizando-os, quando as tormentas governavam o viver dos próximos minutos de cada um. Quando não era possível prever e controlar, deixava-se morrer ou só sobreviver.

Essa sensação, de que agora as coisas estavam bem estabilizadas, gerava um certo fundo de alegria em muitos. Mas não em todos.

Havia um ou outro que escapava do que o Mesmo suportava, conseguindo ver pelo lado de fora, como um acontecimento a revelar outras magias para construir existências, que vazavam o controle do Mesmo, porque lhes mostravam mundos-outros, nos quais era possível haver outros mesmos mais interessantes do que esse Mesmo que viviam.

No burburinho dos encontros e da vida em acontecimento, que só pode existir com os outros e pelos outros, as vezes essas experimentações do fora contagiavam alguns corpos que estavam, aparentemente, felizes com o Mesmo em que viviam. Sentiam um certo convite, que não controlavam, para experimentarem o fora desse Mesmo e sentiam como se novas vidas em si iam se construindo para territórios de existências que as regras do Mesmo, mesmo ampliadas, não conseguiam alcançar.

Se viam com outros gerando outras possibilidades, tinham a sensação de contagiarem mais corpos.

Os operadores das regras do Mesmo, quando se davam conta do que estava acontecendo, não tinham dúvidas: vamos ter que inventar novas regras e modos de fazê-las funcionar, porque há uma ameaça no ar. Modificar o Mesmo por outros mesmos, que não lhes fossem favoráveis para continuarem seus exercícios soberanos, iria corromper toda solidez que tinham conseguido manter.

Fúria, ódio, violência constituíam-se, então, em novos caminhos para impedir as mudanças e a ampliação do contágio, que ia produzindo cada vez mais vidas nas diferenças, que procuravam se sustentar exatamente aí.

Os operadores do Mesmo iam criando verdadeiras máquinas de destruição de corpos, procurando focar naqueles divergentes. Mas, como contágio não consegue ser contido só pelo caminho de construção da eliminação física, buscavam ampliar suas máquinas mortíferas em direção a construção do medo, pois em todas épocas conhecidas governar pelo medo sempre lhes pareceu algo bem eficaz.

Para isso, contavam com uma máquina muito especial, aquela de fazer ideias nas cabeças dos viventes humanos. Essa máquina é aliada infernal daqueles operadores, a ponto de não se saber com clareza quem mandava em quem, se ela nos operadores ou se esses é que a governam. O que se sabia é que eram siameses.

Essa máquina de fazer ideias sempre iguais, focava centralmente na produção de corpos medrosos, usando para isso de várias estratégias. Uma delas era apoiar aqueles que se situavam no limite do exercício do extermínio dos divergentes, dando voz a eles, visibilidades ampliadas, inclusive como modo de gerar mais medo; e o pior é que essa máquina de fazer ideias não tinha garantia do quanto podia ou não controlar o que fazia, mas não abria mão do que considerava um risco maior, a existência de corpos experimentando o fora.

Outra estratégia era a de todo instante gerar informações sobre o risco que a diferença produz, levando vários corpos a imaginarem que a maior ameaça que correm é o encontro com corpos que vivem o fora. Essa máquina elegia a difamação sistemática de várias vidas, escolhendo a produção do racismo como modo de governar a produção da ideia de muitos. O racismo sempre foi ideal para isso, pois gera ao mesmo tempo o medo dos negros, que os brancos passam a ter, ao mesmo tempo que gera no negro o medo de ser reconhecido como negro.

Nesse mundo do Mesmo, essa máquina de fazer ideias é uma das mais competentes em manter nos limites o que o Mesmo suporta: as experiências dos muitos viventes. 

Fúria, ódio, violência e intensa tentativa de produzir o medo individual e coletivo, com ameaças de mais matanças e de aprisionamentos, parecia que iam de fato impedir e conter o contágio.

Os operadores não compreendiam, de fato, que não eram só suas vidas que tinham o tesão de viver bem, considerando esse valor a partir de uma certa ideia do Mesmo. Todos os viventes são em si buscadores de modos prazerosos de viver, seja isso o que for para cada corpo coletivamente constituído, ainda mais quando pode experimentar esses modos pela experimentação do fora do Mesmo.

Os operadores não se davam conta da ebulição do viver como força vital para a construção dos corpos viventes. Não se davam conta que procurar conter os contágios que convocam para aquelas experimentações, com fúria, ódio, violência e medo não eram suficientes. E quando essas experimentações geram corpos libertos, individuais e coletivos, o caminhar do Mesmo na sua repetição não é mais suportado e tudo que é sólido se desmancha no ar, como escreveu Marx no século XIX.


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