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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna

Isso só acontece no Brasil...

Lutas políticas contemporânea: disputar a produção da memória é abrir o presente para devires-outros

Postado em 29 de Agosto de 2018 - Emerson Merhy

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Há quem diga que estamos assistindo na sociedade brasileira a grandes mudanças no campo da luta política. Considerando que não tenho como resolver plenamente essa questão, tomo a liberdade de afirmar que, no mínimo, há um novo lugar para certas disputas, que passam a constituir elementos mais relevantes nas lutas políticas atuais.

Sem grande erro, posso afirmar que três situações se inscrevem nessa possibilidade: uma, que se refere à disputa da narrativa coletiva sobre o que vivenciamos e experienciamos na produção cotidiana da vida em sociedade e como as valoramos, que sentido damos às mesmas, que coloca em disputa lutas por modos de existir distintamente, fazendo emergir posições que procuram suportar a diferença do outro e, até, constituir entrelaçamentos que as enriquecem, ou posições que procuram construir a ameaça que o outro-na-sua diferença constitui para os que só se veem identificados com seus clones, abrindo um viver societário de guerra permanente.

Outra possibilidade, se instala quando somos produtores de certos sentidos sobre nossos passados, que entendemos como componentes centrais do aqui e agora, de cada coletivo de viventes. Nessa situação, a produção da memória sobre nossa própria constituição como sociabilidades carrega forte sobrecodificação do que estamos dispostos a realizar no nosso presente, atualizando esse passado construído. Por isso, a disputa sobre a produção da memória pode, ou não, abrir nossas ações para devires-outros, construindo novas sociabilidades a partir de nossas próprias ações. Essa disputa, junto a anterior, constitui-se em forte componente do que seria a luta política contemporânea.

A terceira possibilidade é aquela que torna mais evidente que as autodenominadas agremiações políticas, como partidos, por exemplo, fazem hoje qualquer tipo de negócio, menos a própria política, com P (maiúsculo). Há um esgotamento efetivo da política por representação, tornando-se um desafio bem atual a conformação do agir político por outros mecanismos que não os da designação de alguém como o líder, ou o soberano; por mais que muitos ainda acreditam nisso, transferindo seu poder de agir para alguém que o representa e age, abstraindo-se da sua própria capacidade de viver em coletivos que se somam nas diferenças e que não exerçam a política pela construção molar e molecular dos exercícios soberanos, de uns que teriam mais poder outorgado que outras para decidir sobre a produção das existências desses próprios coletivos.

Em vez da servidão voluntária, a tomada da produção de si nos laços que podem ser produzidos nos encontros entre semelhantes e diferenças, que também operam em cada individuação singular.

Nesse momento, escolho, como base para avançar mais didaticamente sobre esses elementos, a questão da disputa pela produção das memórias do que somos hoje, por termos sido ontem. O que na minha visão pesa sobre a nossa produção desejante de protagonizarmos nossos próprios viveres, ou consumirmos as ofertas que outros fazem para que vivamos.

Poder construir um outro passado além daquele que a história oficial, aqui no Brasil, contada pela elite branca, economicamente situada entre os mais ricos, e letrada, que tem pouco interesse em mostrar a intensa diversidade de acontecimentos, que foram fabricando o que chamamos, hoje, de nação brasileira. Há uma mistura de falas nacionalistas, como se sempre tivéssemos sido Nação, com falas que só valorizam os ganhos dessa mesma elite branca, perante os outros coletivos bem distintos, como por exemplo, os negros e os povos originários.

Essa “historinha” acaba nos convencendo de coisas que em vez de gerar biopotências a partir do nosso desejo em construir mundos-outros, possíveis e impossíveis, nos convida para a bio-impotência, na qual nos vemos diante de uma crença de que nesse país não vale a pena lugar por mudanças importantes, pois sempre seremos o mesmo “povinho”, que não vale uma luta ampla.

Fazer uma disputa sobre isso é vital para potencializar os desejos coletivos e agenciar protagonismos que apontam contra essa produção do mesmismo, como uma condenação do nosso destino.

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Há sinais de como isso pesa na composição de um modo de olharmos para nós mesmos, muitas vezes gerando o desejo de que só fora daqui poderemos ter vidas decentes.

Certa vez, estava viajando com outras pessoas, por alguns países europeus, e resolvemos brincar de “só no Brasil isso acontece”, olhando sempre pela negatividade de nós mesmos, brasileiros.

Sem dúvida, essa frase é muito comum pelo país afora e sempre dita pelos próprios brasileiros, que diante de certas vivências negativas ocorridas aqui no país, acaba gerando a noção em nós de que aqui tudo é diferente de outros lugares, reafirmando a todo tempo que somos como um “povinho”. Por exemplo, é comum nesse tipo de narrativa a associação de corrupção, ruas sujas, favelamento, juízes que não fazem justiças, sistema de saúde que não funciona e por aí vai, com a ideia de que: só no Brasil, isso acontece.

Para brincar com a ideia, fomos a todo momento falando essa frase toda vez que nos deparávamos com situações que nos levavam a experiências negativas, ali, no dia a dia dos vários países europeus que visitávamos.

Recordo que começamos dizendo isso por não termos segurança quando íamos atravessar uma rua, nas faixas para pedestres, em plena Berlim. Aliás, essa experiência se repetiu, com raras exceções, em vários países, onde quase morremos atropelados pelos motoristas, que não respeitavam os pedestres, de jeito nenhum. E por brincadeira falávamos que esses deveriam ser brasileiros que tinham alugado algum carro, pois “só no Brasil”.

Logo nos vimos repetindo essa frase quase a exaustão. Era o taxista que tentava nos enganar, era o metrô que adotava o sistema do “se vira”, era o atendimento em lojas comerciais do pior nível possível, era o lixo na rua bem escondidinho, era a quantidade enorme de moradores da rua (europeus, diga-se de passagem) pedindo esmola, era o perigo de entrar em certas regiões da cidade, era …era...era...

Por vários momentos, depois dessa experiência, falamos muito disso com outras pessoas, inclusive as que conhecíamos e que sempre dizem: “só no Brasil”.

Passamos a considerar, em nossas conversas, o quanto isso era efeito da nossa história oficial inculcada desde a escola, até diariamente pelos programas de rádio e de televisão. Associamos isso a construção desta memória de nós mesmos - que aqui nada funciona e sempre foi assim, que o bom é lá fora, é ir para outro país onde tudo é o oposto, mesmo que se deixe enganar por partes da cidade de Miami maquiada como um shopping center para ricos. Imagino que estamos, assim, produzindo nossas próprias impotências para desejarmos e produzirmos outros modos de convivência social, aqui no Brasil.

Ficou claro no nosso corpinho que a produção da memória de quem somos e como poderíamos ser, diante inclusive do nosso passado, acaba por influir na construção de nossos corpos menos desejosos ou mais desejosos, na busca da produção de mais vida boa e decente, aqui e agora.

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Um bom exemplo disso tudo, nas Américas, é a história do Haiti, que foi a primeira colônia povoada pelo comércio da escravidão que se rebelou, eliminando-a. Isso fez tremer os impérios coloniais que se juntaram, aos franceses, para permitir o extermínio dos negros rebelados, por gerações e gerações.

Mas, a verdadeira vitória dos colonizadores foi construir um esquecimento sobre esses atos pioneiros dos escravos na sua conquista como libertos pelas próprias mãos, ao mesmo tempo que ia se produzindo uma outra história sobre os negros africanos.

Hoje, poucos são aqueles que não associam a miséria haitiana à existência de crenças místicas que tornam esse “povo” corpos quase zumbis. Essa é a memória oficial que veio se sobrepor a anterior, em uma disputa que permite dizer que o Haiti, lugar de negros de cabeças erguidas e senhores de seus próprios destinos, tornou-se um país de lamentável história para reafirmar a noção da soberania branca, que tanta violência produz no mundo, até hoje.

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Vejam, vocês, que não é à toa que a mídia mais conservadora, capitaneada pela Globo, na televisão e no rádio, investe simbólica e narrativamente na produção de uma imagem de nós mesmos, brasileiros, como se fossemos um “povinho” dado a malandragem e ao oportunismo individualista, de alma corrupta, criando assim a noção de que somos uns fracassados, ainda mais perante o “glorioso” povo americano. Não é sem sentido que os donos “trilionários” da Globo moram lá, nos “estates”, não aqui, lugar de “losers”

Esses mesmos meios de comunicação, a todo instante, associam essa produção de que somos um povinho fracassado com um passado de fracassos, contando historinhas oficiais sobre nós mesmos, mostrando que o que sempre nos interessou é uma vida de vagabundagem, sempre fomos um povinho que queria só praia, sol, sambinha e coisas assim, mas trabalhar, nunca; que pese as estatísticas que os indicadores negam quando comparamos hora trabalhada por semana, entre nós e vários outros países.

Fazem isso, com muito sucesso, pois o pior é que muitos de nós, trabalhadores 24 horas por dia, acreditamos nisso. Essa fronte da luta política não podemos deixar de considerar, hoje, como uma das principais, e temos que guerrear com palavras, outras histórias, para enfrentar essa estratégia de dominação, não pela polícia, mas pela subjetividade.

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Devemos estar atentos a essa construção, pois nos faz referência. Há um autor negro, Frantz Fanon, que escreveu um livro (Pele Negra Máscaras Brancas) em que afirmava que a construção dessa descaracterização de si abriu a noção de que a negritude é o equivalente ao um azar do destino, ou uma doença.

Êta, estratégia poderosa, que faz muitos negros terem vergonhas de si mesmos.

Superar a memória negativa do racismo é mostrar quantos negros, em suas lutas pela autodeterminação e o extermínio da escravidão, foram e ainda são eliminados diariamente. Revelando a honra que eles têm de si mesmos e de suas origens.

Em um país como o Brasil não há como abrir novidades nos devires-vidas sem enfrentar o racismo, e isso passa necessariamente por se produzir outras memórias que modifiquem o presente.

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Destaco, também, que as narrativas que procuram destruir o honrado em cada um de nós - que não concordamos com essa forma como a sociedade neoliberal vem destruindo vidas -  não deixam ficar visível que a sociedade capitalística tem tudo a ver com isso, isentando esses perversos modos de viver, acusando-nos de sermos incapazes, ou miseráveis devido a nossa formação cultural e histórica, que eles nos contam.

Isso, quando não nos acusam de sermos portadores de ideologias anti-brasil, de estarmos ligados a um esquema internacional de destruição da família brasileira e de sua índole caritativa, embranquecida.

Suas estratégias de produção de corpinhos que se sintam fracassados é a receita certa para criar, para uma certa elite, modos de governar os outros, pois corpinhos medrosos e fracassados tendem a inibir o próprio desejo de viver mais e melhor.

Entretanto, como a produção da memória e das narrativas não é tão lisa assim. Não é só um grupo com grande poder material que consegue produzi-la. A construção cotidiana, nos burburinhos da vida, gera também outras possíveis memórias que disputam com àquela outra, bem oficial, e do interesse desses pequenos grupos, defensores do capitalismo neoliberal e selvagem, que querem ser de fato os soberanos, usufruindo mesquinhamente de riquezas materiais, tão volumosas que ultrapassam o imaginário de quem vive do seu próprio trabalho. Produtores de intensas desigualdades que penalizam distintos grupos da população brasileira.

Nesses burburinhos, outras histórias sobre nós mesmos vão sendo geradas, outras memórias de como éramos e somos vão se construindo, corpos desejosos e re-existentes vão sendo produzidos. Disputar a produção de memórias que possam mudar o modo de contar o nosso passado a nós mesmos, mudam a potência de nossos corpos agirem na abertura para devires-outros.

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Ter claro, que a construção do que chamamos de Brasil foi feita em cima de intensas lutas de resistências, contra as práticas de colonização praticadas por aqui, pode permitir a compreensão de que nossos corpinhos são habitados também por passados de lutas, de buscas de outros modos de viver muito diferentes do que a elite conservadora quer que acreditemos.

Por quase 200 anos os colonizadores guerrearam contra vários povos originários, como os Tupinambas, até eles serem dizimados em uma verdadeira limpeza étnica. A quantidade de negras e negros que foram torturados, mortos e dizimados em toda nossa história imperial e republicana é ainda um desafio para a produção de conhecimento sobre nós mesmos, enquanto Nação.

A construção de um Rio de Janeiro mais modernoso para receber a Copa do Mundo e a Olimpíada revelou que esse teria que ser construída em cima de uma infinidade de esqueletos de homens e mulheres, que foram mortos na feroz produção da escravidão. O Valongo está aí para não nos deixar sós.

O que nos permite abrir uma produção de memória que não seja só da submissão, mas também da resistência, da luta por vidas mais livres e autenticas.

Poder ver nos lugares mais “perigosos” da cidade produção intensa de modos de viver comunitários, abre-nos para outras possibilidades de apostas na nossa cotidianidade.

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Talvez possamos gerar, aqui e agora, uma outra ideia do “só no Brasil”.

Talvez possamos associar a luta cotidiana de coletivos por vidas mais dignas, com essa imagem: só no Brasil tivemos Zumbi,

só no Brasil tivemos Dandara,

só no Brasil tivemos o Almirante Negro,

só no Brasil tivemos Paulo Freire, Augusto Boal, Noel Rosa, Nise da Silveira.

Só no Brasil temos Raoni, Kopenawa, Ailton, Elza Soares (deusa), Sócrates, Chico, Caetano, Gil.

Só no Brasil tivemos Antonio Cândido, Niemeyer, Darcy Ribeiro, Marielle Franco, Helder Camera, Gregório de Matos, Antonio Bispo do Rosário, Mario Magalhães da Silveira.

Gonzaguinha, Chico Mendes, Dorothy.

Só no Brasil temos Criolo, Sabatela, Pitanga, Marieta, Pedro Casaldáglia, Leci Brandão, Martinho, Sonia Braga (outra deusa).

Não sei se ainda temos, ou não, Wagner Moura e outros que estão em um silêncio ensurdecedor, mas isso não lhes retira o que fazem para defender uma sociedade que acolha a diferença, ao contrário da fala oficial.

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O destaque dado a esses nomes (com certeza faltam milhares de outros), mesmo os silenciosos, é por serem efetivos fazedores de diferenças e por se enriquecerem existencialmente nelas, abrindo-nos para novas oportunidades de imaginarmos sobre o que fomos e, portanto, podermos ser.

Por se comprometerem com vidas libertas e decentes, mostrando que nós somos coletivos que estão aqui e agora na disputa por isso, como sempre assim estivemos, e que qualquer um que tente mostrar só nossas impotências é de modo efetivo aquele que se candidata a ser poder-soberanos sobre nós.

Também no Brasil, e não só, temos milhares e milhares de coletivos inventando com suas artes e fazeres, modos de viver sem que haja entre eles a necessidade de algum chefe soberano.

Experiência absolutamente necessária para, ao mudar nosso modo de olharmos nosso próprio passado, que possamos mudar aqui e agora o nosso desejo por um devir-de-uma-nação: liberta, instalada na convivência molecularmente democrática entre as diferenças, que produza novos modos de viver descolados da produção de corpos medrosos e fracassados.

E seguindo Mandela, que possamos dizer cada um de nós: sou porque somos, e, portanto, carrego em mim multidões, diferenças que vão se constituindo nos vários modos possíveis de se produzir existências libertas, que se alimentam da liberdade constituída pelo outro.


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