Semana On

Sexta-Feira 22.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Entrevista

Chorar é normal

Entrevista: Andrea Brunetto, psicanalista e psicóloga

Postado em 04 de Julho de 2014 - Victor Barone

Andrea Brunetto, psicanalista e psicóloga Andrea Brunetto, psicanalista e psicóloga Foto: Elis Regina
Andrea Brunetto, psicanalista e psicóloga

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A psicanalista, psicóloga e escritora Andrea Brunetto fala à Semana On sobre a polêmica relação entre o choro e o controle emocional. Alvos de críticas de analistas esportivos por terem chorado durante as últimas partidas da seleção brasileira na Copa do Mundo, os jogadores do Brasil foram aconselhados a buscar ajuda profissional para “controlar seus sentimentos”. Para Brunetto, no entanto, o choro diante de situações estressantes é normal. “Muito pior e morder o adversário, apresentar sinais de somatização do estresse, como vomitar em campo”, afirma. Confira a entrevista.

 

Por Victor Barone

Chorar é um sinal de descontrole emocional?

Não. Chorar é apenas a evidencia de uma emoção. O extravasar de uma emoção, embora não seja a única possibilidade diante dela. Pode ser que a pessoa engula o choro, pode ser que ela nem perceba no momento o tanto que esta emocionada. Depende de cada sujeito. No geral, as mulheres choram mais do que os homens, que engolem a emoção e ficam calados. Não apenas não choram como também não falam das emoções.

Chorar é coisa de homem?

Sim. É coisa de homem.

Durante os últimos jogos do Brasil na Copa do Mundo, especialmente no jogo contra o Chile, os jogadores brasileiros choraram bastante. Muitos analistas esportivos disseram que se tratava de um sinal de descontrole emocional e que os jogadores precisavam de auxílio profissional. Há necessidade de auxilio profissional por se ter chorado diante de uma forte emoção?

Não. Há necessidade de auxílio profissional quando se morde o adversário, quando se vomita durante o jogo, como ocorreu com um jogador que dizem ser o melhor do mundo. Estar em campo, diante de tanta gente que aguardando algo de você é uma tensão muito grande. Se os jogadores podem chorar ao invés de fazer uma coisa mais agressiva, como morder o adversário, ou ter algum sintoma somático, como vomitar, é bem melhor. Cada sujeito tem seus sentimentos e emoções. No geral a gente chora por filmes, por novelas, pelas próprias dores, mas em épocas de Copa parece que o motivo é o mesmo, todo mundo chora e sofre unido.

Por que há este estigma de associar o choro ao descontrole emocional?

Talvez tenhamos o ideal se um sujeito humano que esteja sempre no controle de tudo. Há três teóricos que tiraram o homem do controle das coisas: Galileu, que tirou a terra do centro do universo; Charles Darwin, que tirou o homem do centro das espécies; e Freud, que tirou a ideia de que o nosso ego esta no controle das coisas. Freud disse que o ego não é senhor na própria casa. Quer dizer, o ser humano não é senhor de um suposto controle de seus sentimentos, como ele gostaria que fosse.

O que se cobra dos jogadores é um controle emocional que, teoricamente, seria benéfico a ele em campo. Levando isso para o cotidiano, a pessoa que controla melhor suas emoções tem beneficio maior do que as que são mais, digamos, espontâneas com seus sentimentos?

Não. Alguém que se controla demais pode ser um sujeito que não conhece seus sentimentos, não saiba de quem gosta, do que gosta, do que não gosta. Mas, eu não vi um jogador brasileiro cujo choro fosse um descontrole. Uma coisa é chorar depois do jogo terminado. A pessoa viveu uma situação de estresse de quase duas horas e depois chorou. Isso vale para qualquer momento da vida. Após uma situação de muito estresse, onde a pessoa tem que estar atenta, agindo de forma eficiente, depois ela pode se aliviar e chorar, extravasar o que antes ela não podia. Isso é saudável.

Se os jogadores podem chorar ao invés de fazer uma coisa mais agressiva, como morder o adversário, ou ter algum sintoma somático, como vomitar, é bem melhor.

O goleiro Júlio Cesar, além de chorar, falou de uma mágoa da Copa passada...

Ali, talvez tenha sido um choro da emoção, do alivio por ter salvado o jogo, da volta por cima.

Esta ideia de que o homem tem que assumir um papel de fortaleza emocional maior do que o da mulher ainda persiste? O homem não tem o direito de ser tão sensível quanto a mulher?

Eu não acho que o choro seja símbolo de fraqueza e nem de força. Sobre o homem poder ser mais sensível, eu escuto as pessoas o dia todo e é quase unânime a ideia de que diante das situações difíceis da vida as mulheres são mais fortes do que os homens. Diante de um problema de saúde, uma morte na família, nas coisas mais sérias e impactantes da vida as mulheres podem chorar bastante, mas parece que suportam mais. Não sei, então, se o homem é assim mais forte.

Mas esta postura é cobrada pela sociedade da figura masculina.

Talvez os homens se cobrem e as mulheres gostassem de um homem mais forte do que são de fato. Talvez haja uma insatisfação feminina, o desejo por um homem mais decidido do que ele é, mais determinado, mais forte. Talvez este seja o ideal das mulheres: um homem mais forte do que ele é. Mas, não quer dizer que as mulheres achem que os homens são fortes, elas sabem como eles são.

Então, esta cobrança é uma imagem que o homem tem dele mesmo diante das exigências da sociedade?

Nem sempre. Escuto homens falando de suas fraquezas. Talvez eles não falem sobre elas no trabalho, diante de outros, onde há competição, rivalidade. Mas os homens não se acham tão fortes assim.

Após uma situação de muito estresse, onde a pessoa tem que estar atenta, agindo de forma eficiente, depois ela pode se aliviar e chorar, extravasar o que antes ela não podia. Isso é saudável.

Quais são os sinais a que as pessoas devem estará atentas e que possam significar uma falta de controle emocional?

Agressividade que se traduz em violência, exagero no uso de substâncias químicas, e também, quando o sofrimento extravasa o psíquico e toma o corpo. Vários sofrimentos do corpo são refletem de sofrimentos psíquicos: gastrites, úlceras, há uma seria de fenômenos psicossomáticos. Isso é muito mais grave do que uma crise choro. Se você tem uma crise de choro e não tem sintomas do seu sofrimento no corpo, se não tem crise de violência, se não esta bebendo demais e dirigindo, colocando a vida dos outros em risco, o choro esta sendo bem saudável.

Qual é o momento de procurar a ajuda de um profissional?

É uma escolha de cada um. Pode ser que alguns continuem a crer, diante de um sofrimento, que ele será resolvido tomando remédio. Talvez alguns encontrem ajuda em um grupo de apoio ou na religião. Mas, para alguns, é preciso conversar com um profissional, são estes que vão procura um psicólogo ou um psicanalista. O ser humano é complexo, ele não aceita ser convencido das coisas. As pessoas que vem até aqui, elas já tem uma crença prévia de que falando algo será decifrado e descoberto. Se ela não quer falar, se veio – o que é muito comum – porque a mulher ou o marido acha que ela precisa fazer terapia, não funciona. É preciso que a pessoa queira e tenha a crença de que falando as coisas vaio se resolver. Sem isso, se achar que falar não é nada, então não é aqui o lugar dela.

Quais são os problemas que mais atormentam as pessoas que procuram a ajuda profissional de um psicólogo ou psicanalista?

Os males do amor e os males do sexo. Aliás, este é o tema do nosso encontro nacional do campo lacaniano, que acontece em Campo Grande em novembro, que se chamará “Congresso Amor e Sexus”. As pessoas vêm muito falar do desamor. Às vezes vem falar dos problemas financeiros, familiares, de outras coisas e caem no amor e na sexualidade.

E como o amor e a sexualidade, quando não estão bem, podem atrapalhar a vida das pessoas?

Te fazendo sofrer muito, te trazendo uma série de sintomas como a insônia, os problemas corporais, a sensação de infelicidade. As pessoas procuram uma clínica psicanalítica porque querem ser felizes. Se dá para resumir a demanda, é desta forma:  eu vim aqui porque eu quero ser feliz. É isso.

Vários sofrimentos do corpo são refletem de sofrimentos psíquicos: gastrites, úlceras, há uma seria de fenômenos psicossomáticos. Isso é muito mais grave do que uma crise choro.

É possível, no âmbito de um esporte de alto nível, ou mesmo em um desafio profissional, seja ele de que área for, o sujeito se desligar dos problemas do dia a dia, das angústias, para se concentrar em um objetivo?

É preciso. E esperamos isso de todos os profissionais. Quem é que vai se operar com um médico que tem uma série de problemas e chega à sala de cirurgia com eles? Quem é que vai procurar um psicanalista, que também tem seus problemas, se ele, quando está atendendo, está pensando em seus problemas e não nos do paciente? Este é um desafio que se espera ser vencido por todos: um bom jogador, um bom médico, um bom engenheiro, psicanalista, jornalista. Espera-se que possam ser eficientes. É claro que se a pessoa está bem de saúde mental é psiquicamente e melhor. E chorar não é índice de que uma pessoa não esteja bem psiquicamente.

Eventos como a Copa do Mundo podem ser usados como um anestésico para os conflitos sociais?

Um ideal se faz coletivamente. A Copa do Mundo é um ideal coletivo muito importante para um País, não só para o Brasil. Para o País que chegar lá, isso vai dar uma sensação de autoestima, de alegria, de felicidade. É claro que não dura muito, pois no dia seguinte os problemas da vida voltam a se apresentar, mas acho que esta emoção, esta união é positiva. Tanto que estávamos vendo as manifestações e agora elas foram um pouco esquecidas. As pessoas dizem que se esqueceram é porque estão na ilusão da Copa do Mundo. Não, estão na ilusão é de um ideal coletivo e isso é importante. É um ideal coletivo positivo.

Mas isso não pode ser usado para desligar as pessoas da realidade?

Isso só acontece durante o jogo, depois todo mundo vai se lembrar das suas dívidas, de seus problemas de saúde, de suas vidas. Se ganharmos vamos demorar um pouco mais para cairmos na realidade, mas vamos cair. É inevitável.

Ouça  aentrevista na íntegra.


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