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Sábado 31.out.2020

Ano IX - Nº 417

Coluna

Vida em abundância

Nesses tempos de fúria, mais que nunca cada ato, cada gesto cotidiano tem uma dimensão política intensa

Postado em 22 de Agosto de 2018 - Ricardo L. N. Moebus

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Nesta edição da coluna Re-existir na diferença, trago um texto de Ricardo Moebus. Psiquiatra, ele atua na luta contra a destruição da nossa casa, a Terra. Vem tendo um posicionamento importante sobre o cuidar em liberdade como um princípio que constitui o agir em saúde.

Confiram.

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Estreou neste mês de agosto o filme brasileiro “Ser Tão Velho Cerrado” de André D’Elia (assista ao trailer logo abaixo).

O diretor já vinha construindo uma consistente pesquisa sobre o tema da água, correlacionado ao novo “Código Florestal Brasileiro”, ao produzir seu filme anterior: “A Lei da Água”.

É preciso dizer que este é um documentário corajoso, intimamente relacionado ao movimento, ao ativismo ambientalista.

Mas qual ativismo ambientalista? Porque este também é um campo de intensa disputa discursiva e política, sendo apropriado e algumas vezes desconstruído ou desconcertado pelos mais diversos atores.

Bem, este é um documentário em uma perspectiva abrangente, engajada e consequente, condizente com o que Félix Guattari denominava de “As Três Ecologias”, ecologia atenta para a preservação ambiental conectada íntima e indissociavelmente com a dimensão política e de disputa das subjetivações, disputa dos “regimes discursivos” e dos “regimes de verdade”, como apontava Michel Foucault.

São estes três campos que o documentário de D’Elia ousa enfrentar, contribuindo para a fabricação de uma trincheira semiótica, guerrilha que enfrenta a construção cotidiana do “real” pelos grandes hegemônicos veículos de comunicação, nesta idade mídia que vivemos.

Podemos ver no documentário, de forma repetida mas necessária, mais uma vez a contraposição explícita entre a abundância das áreas preservadas, como os Parques Nacionais por um lado, tendo do outro lado o cenário de destruição das áres ocupadas pelo agronegócio, pela mineracão e outras formas de extrativismo abusivo e desenfreado, que otimizam a produção econômica sem nenhuma negociação com a necessidade urgente de preservação planetária em todos os locais.

Parece mesmo que por um lado a produção da vida funciona em um movimento de generosa e contínua abundância, como uma sintropia apontada por Ernst Gotsch. Por outro lado, a lógica do “mercado” não só sacrifica e desrespeita esses mecanismos de produção de abundância, mas tem mesmo uma lógica da produção da carência, neste sentido, quanto menos água potável, melhor o negócio. 

Este é um documentário que se alinha com as propostas mais interessantes de uma mudança de direção de nossos modos de viver, superando esta civilização do petróleo, do desenvolvimentismo, dos imperativos econômicos acima de tudo, inclusive da vida, necessitando de uma mudança para um marco civilizatório do respeito e sacralização da natureza, da vida, do planeta-casa-corpo que nos sustenta.

Nesse sentido merece ser aproximado do movimento da ativista indiana Vandana Shiva, que em outubro deste ano estará realizando um grande encontro mundial em defesa da biodiversidade, por um novo marco civilizatório comprometido com a vida, contra as grandes corporações que querem dominar os meios indispensáveis, as necessidades básicas da vida, como a água e as sementes.

Vandana Shiva vem dando o tom de um ativismo politico em defesa das tradições que respeitam os diferentes modos de viver e sustentar a continuidade da vida, em uma verdadeira herança de Mahatma Gandhi, inclusive retomando algumas de suas “marchas”, agora contra um “globalitarismo” (como ensinou Milton Santos) autoritário e impositivo, que tenta controlar a vida em todas as suas dimensões, incluindo é claro como cultivamos e consumimos os nossos alimentos.

Esta é uma disputa que vem ganhando um desenho bem explícito contra o neoliberalismo nas produções de Naomi Klein. É especialmente oportuno que este documentário de D’Elia seja lançado no mesmo mês em que Noami Klein publicou no “The Intercept” seu artigo: “Capitalismo matou nosso momento climático, não foi a ‘natureza humana’”, no qual faz uma pormenorizada crítica à publicação do artigo de Nathaniel Rich no New York Times Magazine, no qual ele analisa que houve uma grande oportunidade nos anos 80 do século XX para avançar nos acordos ambientais, no controle das mudanças climáticas, construindo uma governança global comprometida com estes acordos, mas, no entanto, isto teria dado errado porque nós seres humanos preferimos continuar em nossa zona de conforto e consumismo.

Naomi Klein vai diretamente ao ponto ao dizer que atribuir isso a ”nós, os seres humanos” é mascarar os fatos e jogar uma cortina de fumaça sobre os acontecimentos. O que impediu que a agenda climática avançasse naquele momento e dali por diante foi o avanço do neoliberalismo, suas regras de mercado, seus modos de subjetivação.

O movimento ambientalista atual está muito distante de sua fase romântica ou meramente outsider, ele é hoje um conjunto de propostas e modos de viver bem concretos, comprometidos com a defesa da vida, próximos da agricultura familiar, da agroecologia, da economia solidária, do comércio justo, da governança e poder local, da igualdade e multiplicidade de gêneros, da saúde simétrica, do consumo consciente.

Nesses tempos de fúria, com o novo “Código Florestal”, com o novo “Marco Regulatório da Mineração”, mais que nunca cada ato, cada gesto cotidiano tem uma dimensão política intensa. Em outro documentário de ousadia, de Sílvio Tendler, “O Veneno Está na Mesa”, esta dimensão cotidiana da luta contra os agrotóxicos é fortemente apontada, agora ainda mais necessária com o “Pacote do Veneno” a pleno vapor.

Mas não é só de agrotóxicos que vive a nossa mesa, é preciso olhar cada dia com mais coragem para o canto do prato, pode ser que esteja ali um índio morto, um lavrador desempregado, um trabalhador escravizado, um hectare de floresta desmatado, um rio aniquilado, um futuro exterminado.

Este documentário de D’Elia opera na construção destas visibilidades, ganhando a singela alcunha de “cinema pedrada na cabeça”.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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