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Sexta-Feira 30.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

A lata e a morte do eufemismo

Por que não se fazem mais discursos como antigamente?

Postado em 22 de Agosto de 2018 - Rodrigo Amém

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Durante muito tempo, o discurso do político era sustentado por uma tríade: preciosismo, tecnicismo e eufemismo. Para ser candidato, o cidadão precisava dominar esse tripé do linguajar dos “Salvadores da Pátria”.

O tecnicismo na administração pública foi herança das cátedras de direito e dos corredores da magistratura. É um dialeto classista que serve, como tantos outros, para manter um distanciamento, garantir reserva de mercado, para separar joio do trigo. Os bacharéis de direito que se tornaram políticos fizeram questão de adaptar esse mesmo hermetismo para suas gestões e mandatos.

O preciosismo é o recurso de empregar fala rebuscada para demonstrar erudição e cultura. Primo do tecnicismo, o preciosismo procura impressionar pela forma, não pelo conteúdo. Caso clássico no Brasil foi Jânio Quadros, barroco em seus pronunciamentos e deplorável em todo resto. Os preciosistas não discursam: declamam. Tanto que suas falas tem a cadência artificial de quem lê “Juca Pirama” em voz alta. Uma técnica que foi muito apropriadamente ridicularizada pelo personagem Odorico Paraguaçu, vivido pelo ator Paulo Gracindo na novela O Bem Amado, de Dias Gomes. O preciosismo é uma firula performática, cujo objetivo não é apresentar propostas ou defender projetos. Mas “impressionar” o eleitor. Dar aquela impressão de que o candidato “fala bonito”. Preciosismo é a embaixadinha do discurso.

O eufemismo é a arte de falar o que o eleitor quer ouvir, de uma forma que não seja constrangedora nem para o político, nem para o ouvinte. Nos EUA, por muito tempo, republicanos falam em “proteger empregos contra a imigração ilegal”. O fato, constatado e ratificado, é que a imigração americana não só não ameaça os empregos dos americanos como vem diminuindo gradualmente nos últimos anos. E tanto o político quanto o eleitor sabem disso. “Proteger empregos”, no caso, é um eufemismo para uma outra coisa. É um jeito discreto de expressar xenofobia. Assim como “desregulamentar” significa dar carta branca para empresário poluir, desmatar, envenenar. Eufemismo é a forma como os conservadores adaptaram a cultura do politicamente correto para permanecerem moralmente incorretos. Ainda que na surdina.

Acontece que o tripé do discurso político começou a ruir nos últimos anos. Cada “fenômeno” das urnas trouxe uma dessas bases abaixo. O tecnicismo foi estraçalhado por gente como George W. Bush e Lula, os presidentes “do povo”, que falam a linguagem da cátedra do buteco. Falam de economia e diplomacia como quem discute o capítulo de ontem da novela. A primeira onda anti-tecnicista fez com que “falar difícil” se tornasse menos convincente nas urnas. Não que haja algo de errado nisso. Pior que um enrolador, é um enrolador pretensioso.

Já o preciosismo morreu, mas não foi nos palanques. Quem puxou o gatilho foi a TV, com apresentadores “descontraídos”, escorregando em palavrões e grosserias. Inspirados em Faustão e Datena, criamos uma leva de deputados e senadores que falam grosso e simples. A maior parte deles, ex-radialistas, repórteres policiais. Gente de pavio e vocabulário curtos.

Nos últimos anos, o discurso político andava meio bambo, meio circense, equilibrando-se no eufemismo como a última e derradeira regra. Em nome da moral e dos bons costumes cívicos, havia a necessidade de pegar leve na hora de seduzir até mesmo o eleitorado mais radical. Quando Trump se elegeu prometendo erguer um muro para impedir que os “mexicanos estupradores invadissem o país” e chamou a África de “buraco de merda”, o eufemismo ruiu e o discurso político virou de cabeça para baixo. Não há mais regras, nem princípios. Há, apenas, a lata. E o candidato que quiser vencer precisa falar nela.


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