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Sábado 30.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Mundo

A rebelião popular na Nicarágua e a esquerda brasileira

A esquerda evita a análise do processo que na Nicarágua transformou uma revolução popular numa ditadura

Postado em 15 de Agosto de 2018 - William Héctor Gómez Soto

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É difícil calcular o impacto que a rebelião popular num país pequeno, distante e com baixa relevância econômica como a Nicarágua, terá a médio e longo prazo para a “esquerda” brasileira. O certo é que assim como no campo da esquerda internacional, as posições da esquerda no Brasil oscilam, com algumas exceções, entre o silêncio e o apoio aberto ao governo de Ortega.

Um dos primeiros a manifestar-se foi o PT, com uma posição ambígua, superada pela posição do PCdoB, de claro apoio a Ortega.

Em 26 de abril, no seu site oficial, o PCdoB, através da sua Secretaria de Política e Relações Internacionais, enviou uma “mensagem de solidariedade em face dos últimos acontecimentos que abalaram a Nicarágua, com a realização de violentas manifestações que tentam desestabilizar o governo sandinista”. Ao mesmo tempo, esse partido além de considerar erroneamente as manifestações populares como violentas, as compara com as manifestações de junho de 2013 no Brasil.

Sacrificando a análise concreta do processo social na Nicarágua, o PCdoB faz uso de seus esquemas rígidos e dualistas, até diria, simplistas para caracterizar as manifestações populares pacíficas como parte de um plano de conspiração contra o governo “revolucionário” de Ortega.

Segundo o comunicado do partido, essas manifestações: “Obedecem a planos determinados, que manipulam legítimos sentimentos do povo para a consecução de objetivos que se voltam, mais cedo do que tarde, contra o próprio povo”.

Na Nicarágua, de 18 de abril até a data de publicação do comunicado do PCdoB, eram contabilizados mais de 50 mortos e dezenas de feridos, a maioria de jovens manifestantes desarmados, mas o Partido guarda silêncio, diante um dos piores massacres no país. Parece que esses mortos não importam, porque, segundo o partido, fazem parte do plano de conspiração contra um governo “democrático e revolucionário”.

No entanto, a crise no país da América Central se aprofundou em junho, com a morte de 129 manifestantes, entre eles quatro adolescentes de 14 e 15 anos. Após esse momento, os partidos brasileiros não se posicionaram mais oficialmente. 

A ambiguidade do PT em relação à situação da Nicarágua, finalmente se desfez da pior maneira. O que era previsível, ao menos para mim, na contramão de alguns que ansiavam por uma posição do PT de condena à violação aos direitos humanos de parte do governo de Ortega. Tenho que admitir que meu pessimismo já previa essa postura de negação e de ocultação da grave repressão contra o povo nicaraguense.

Em 27 de abril, o PT tinha divulgado um comunicado sobre Nicarágua na sua página, apoiando as iniciativas ao diálogo de Ortega. “Apoiamos as propostas de diálogo de iniciativa do Governo de Daniel Ortega e que o governo e o povo nicaraguense busquem uma solução pacífica para este problema, com respeito a sua soberania e independência”.

Nessa data o povo estava sendo massacrado pela polícia e os grupos paramilitares de Ortega, nada disse o PT ao respeito, não há nenhuma mostra de indignação. Em 19 de julho, o PT divulga um novo comunicado que começa com uma nova ambiguidade: “Defendemos o direito de oposição política a qualquer governo, a liberdade de expressão da cidadania e processos políticos pacíficos. Lamentamos profundamente as mortes e eventuais violações de direitos humanos ocorridas”.

Primeiro, não se trata de uma oposição política, mas de uma mobilização popular e pacífica; segundo, não são eventuais violações aos direitos humanos, mas de uma prática sistemática do Governo de Ortega. Parece que a violação dos direitos humanos à que se refere o PT ocorre de qualquer lado e direção, o PT oculta e se resiste a denunciar que o governo de Ortega é o responsável pela violação aos direitos humanos.

O PT considera erradamente que Ortega representa o campo progressista da esquerda. Porém, e mesmo que o governo de Ortega fosse de “esquerda” como calar diante da violência contra manifestantes desarmados, como não denunciar os disparos das armas de guerra contra jovens sem armas?

O comunicado continua e aqui se desfaz a ambiguidade: “Porém, é necessário lembrar que os enfrentamentos de hoje na Nicarágua a um governo legítimo e democraticamente eleito não são uma novidade nas Américas e tampouco um fenômeno espontâneo.

Já houve questionamentos violentos a governos do campo progressista antes, como as situações semelhantes na Venezuela em 2002, depois na Bolívia com ameaças de secessão no país, em Honduras, no Paraguai e mais recentemente no Brasil, onde houve um golpe parlamentar, jurídico e midiático. Em todas elas foi visível a presença de interesses estranhos à maioria das populações destes países e características semelhantes da aplicação dos chamados “golpes brandos”.

O PT defende a tese da conspiração da CIA, de agentes estranhos, do imperialismo, desconhece o processo histórico nicaraguense e o caráter neoliberal do governo de Ortega, reacionário porque aliado com a igreja proibiu o aborto terapêutico, apesar das protestas das mulheres. É incrível, mas nada diz o PT dos mais de 400 mortos, dos dois mil feridos, das centenas de presos, dos torturados, da persecução implacável contra os nicaraguenses que tem estado na rua contra a ditadura. O PT perdeu sua sensibilidade e sua capacidade de se indignar contra qualquer injustiça, contra qualquer em qualquer parte do mundo.

Cabe salientar que algumas personalidades no campo progressista e democrático manifestaram-se repudiando a cruenta repressão do regime de Ortega, ou seja, não é desinformação que leva o PT a uma declaração tão desastrada sobre Nicarágua. José Mujica, ainda que tardiamente condenou a repressão contra o povo nicaraguense: “Lembro companheiros que perderam a vida na Nicarágua lutando por um sonho e sinto que algo que foi um sonho se desvia e cai na autocracia e entendo que aqueles que foram revolucionários ontem, perderam o sentido da vida. Tem momentos que tem que dizer vou embora”.

Em 5 de julho, o sociólogo português Boaventura de Souza Santos manifestou sua indignação diante a violência das forças policiais e paramilitares de Ortega contra os manifestantes. Santos se pergunta: “Por que é que boa parte da esquerda latino-americana e mundial manteve (e continua a manter) o mesmo silêncio cúmplice? Por quanto tempo a memória de conquistas revolucionárias turva a capacidade de denunciar as perversidades que se lhes seguem a ponto de a denúncia chegar quase sempre demasiado tarde?”.

Nessa mesma direção Leonardo Boff declarou: "A Nicarágua necessita de diálogo, mas, antes de tudo, necessita de que as forças repressivas parem de matar, especialmente os jovens. Isso é inaceitável”. Em 16 de julho, igualmente Podemos da Espanha condenou a violação dos direitos humanos e afirmou que a saída para a crise é a “renuncia incondicional do atual governo e do aparelho estatal oreteguista”.

O Psol rompeu o silêncio da esquerda brasileira denunciando a violência do governo nicaraguense, da mesma forma O Trabalho, uma fração minoritária do PT, denuncia a repressão de Ortega e consegue diferenciar a FSLN atual, sob o controle de Ortega e a FSLN que encabeçou a revolução sandinista de 1979.

Os pactos com a direita e com a igreja conservadora, a proibição do aborto terapêutico, o controle dos poderes do Estado foi consolidando o projeto de poder de Ortega, completando a metamorfose da FSLN, de uma organização revolucionaria num partido subordinado ao poder do grupo de Ortega.

A esquerda evita a análise do processo que na Nicarágua transformou uma revolução popular (1979) numa ditadura, talvez prisioneira da memória da revolução sandinista. Para esta esquerda, Ortega representa aquela revolução vitoriosa que derrotou a ditadura de Somoza. Sem dúvida, o apoio do PT e do PCdoB ao governo de Ortega e seu silêncio perante o abuso de poder e da violência contra jovens desarmados é uma brecha para que a repressão continue cobrando mais vidas.

William Héctor Gómez Soto - doutor em Sociologia e professor do Instituto de Filosofia, Sociologia e Política da Universidade Federal de Pelotas


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