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Sábado 04.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Poder

Meirelles enfrentará rejeição a Temer, isolamento e dissidências no MDB

Temer chama adversários de nanicos e Renan acha que candidatura é um mico

Postado em 03 de Agosto de 2018 - Congresso em Foco

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Candidato do presidente Michel Temer à Presidência, o ex-ministro Henrique Meirelles teve seu nome aprovado, pela convenção nacional do MDB, como candidato à Presidência da República pelo partido. Ele contou com o apoio de 85% dos votantes. Esta é a primeira vez que o maior partido do país lança candidatura presidencial própria desde 1994, quando Orestes Quércia concorreu.

Presidente do Banco Central nos oito anos de governo Lula e titular da Fazenda de Temer por dois anos, Meirelles terá uma missão delicada para chegar ao Palácio do Planalto. Largando com apenas 1% das intenções de voto, segundo as últimas pesquisas, o ex-ministro enfrentará a falta de alianças e de unidade dentro do próprio partido. As composições estaduais tendem a esvaziar o palanque do emedebista em algumas regiões.

Além disso, terá a tarefa de se descolar dos índices recordes de rejeição popular do governo Temer (87% de rejeição), do qual foi o grande fiador das propostas mais impopulares, como as reformas trabalhista e da Previdência e o congelamento dos gastos públicos.

 Por outro lado, Meirelles terá tempo no horário eleitoral e recursos próprios para financiar sua campanha. O teto para o financiamento da disputa presidencial é de R$ 70 milhões, valor que ele admite tirar exclusivamente do próprio bolso.

Meirelles destacou que chegar à Presidência é o seu grande sonho e relembrou sua trajetória, desde o movimento estudantil em Goiás, até sua carreira de sucesso como executivo, como presidente do Banco de Boston e de conselhos administrativos de outros gigantes do mercado.

“Chama o Meirelles”

Antes do anúncio do resultado da convenção, em uma tentativa de colar na popularidade do ex-presidente petista, sua equipe divulgou no telão um vídeo com elogios de Lula, Dilma, de quem é desafeto, Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes. O propósito é reforçar o slogan de sua campanha: “Chama o Meirelles”. “Tenho profundo respeito pelo Meirelles. Devo a esse companheiro a estabilidade econômica e o respeito que o Brasil tem”, disse o petista em vídeo antigo.

Em seu discurso, feito logo após o do presidente Michel Temer, Meirelles adotou "confiança" como palavra de ordem de sua candidatura. “O ditado diz: confiança não se compra. Confiança se conquista. Por isso eu confio que cada um de vocês vai levar adiante um projeto de país que nós construímos juntos". Em mais uma tentativa de conciliar seu passado no governo petista, disse que a política não pode se resumir ao antagonismo entre os apoiadores de Lula e os contrários ao ex-presidente.

“Mundo não se divide entre quem gosta de Lula e quem gosta de Temer, e quem não gosta do outro."

Durante o discurso de cerca de 15 minutos, Meirelles anunciou algumas de suas propostas, em um programa batizado de “Pacto pela confiança”. Algumas das medidas citadas por ele são a complementação do Bolsa Família com o “Cartão Família”, concebido para estimular o crédito.

O candidato também mencionou uma ação integrada para que crianças atendidas pelo Bolsa Família, programa iniciado no governo Lula, sejam matriculadas em creches particulares, com o propósito de diminuir a desigualdade. “Para que possamos colocar o Pacto pela Confiança de pé temos que vencer essas eleições”, discursou.

Sem Messias

Meirelles também fez críticas veladas a Bolsonaro, Ciro Gomes e Lula ao afirmar que o Brasil “não precisa de um “Messias” que se veste como herói da pátria, nem de um líder destemperado, tratando o país como seu latifúndio. E nem eternos candidatos a presidente. Essas ofertas que os eleitores têm hoje só aumentam a desconfiança no Brasil e nas instituições”.

Após a convenção ser encerrada, Meirelles concedeu entrevista coletiva a jornalistas. Questionado sobre vice para sua chapa, ele disse que busca um perfil compatível com o dele e que “não necessariamente” será uma mulher. “Representação feminina é importante, mas não há essa pré-definição”. O ex-ministro disse ainda que “há vantagens” em uma candidatura chapa pura, mas que isso será definido após reuniões do diretório do partido.

Ao ser perguntado sobre se a impopularidade do presidente Temer atrapalharia sua campanha, Meirelles disse que é candidato da “própria história”. “Eu sou candidato de tudo o que fiz para o Brasil”, arrematou o emedebista.

Adversários de Meirelles são “uns pobres coitados”, diz Temer

O presidente Michel Temer atacou os adversários de Henrique Meirelles na disputa à Presidência logo após a confirmação da candidatura própria do MDB. "[Nossos adversários] são uns pobres coitados. Como não têm projeto, vão para a baixaria. Nós não somos pigmeus. O MDB é feito de gigantes", disse para aplausos de lideranças e militantes emedebistas.

Temer defendeu o legado de seu governo e destacou o papel de Henrique Meirelles na condução da economia enquanto comandou o Ministério da Fazenda. Segundo ele, como presidente, Meirelles poderá fazer muito mais e alcançar até um segundo mandato consecutivo.

"Se em dois anos de governo, com você na frente da economia, nós conseguimos realizar tudo aquilo que tá no vídeo, imagine o que o Meirelles fará em quatro, talvez oito anos"

O presidente disse, ainda, que Meirelles dará continuidade "às reformas de que o país ainda precisa". Antes da convenção, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) criticou a candidatura do ex-ministro e a chamou de “mico”. Segundo ele, Meirelles atrapalhará a composição de palanques estaduais e será contaminado pela “impopularidade universal” de Temer. Esta é a primeira vez que o MDB lança candidato próprio desde 1994, quando concorreu com Orestes Quércia.

“Candidatura de Meirelles é um mico”, diz Renan

Antes da confirmação de Meirelles, o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (MDB-AL) fez um apelo aos colegas de partido para que votem contra a indicação. Em entrevista em vídeo ao Congresso em Foco, Renan defendeu que a legenda não tivesse candidato próprio ao Planalto para não atrapalhar as alianças regionais. Na avaliação dele, a candidatura de Meirelles é um "mico" e sobrecarrega os palanques estaduais com a "rejeição universal" do governo Michel Temer.

"É muito importante que o MDB não oficialize essa candidatura do Meirelles. Ele tem menos de 1% das intenções de voto. Será um mico, ele vai sobrecarregar os palanques em cada estado e levar para nossos companheiros uma rejeição universal do governo Michel Temer", declarou.

Renan repetiu o discurso apresentado em vídeo publicado em sua página no Facebook. “A candidatura de Meirelles é uma espécie de boi de piranha, é um subterfúgio, um mico que não podemos pagar”, disse. Ele citou indicadores negativos da economia, como o desemprego elevado, que atinge 13 milhões de brasileiros, o déficit nas contas públicas, o corte de investimentos e a flexibilização de direitos trabalhistas, para ironizar o slogan de Meirelles.

“’Chama o Meirelles? Chama por quê? Com menos de 1% de intenção de votos, essa candidatura é um mico. Sequer é de um quadro do MDB, que sempre teve papel fundamental ao longo da história do Brasil. Se homologar essa candidatura, não vai poder repeti-lo”, afirmou o senador, que tem feito campanha sistemática contra a indicação do ex-ministro da Fazenda de olho em sua reeleição e na de seu filho, o governador Renan Filho (MDB).

Segundo o ex-presidente do Senado, Meirelles não tem biografia para disputar a Presidência pelo MDB. “Meirelles tem biografia pra ser, e já foi, presidente do Banco de Boston, do Banco Central, na ótica do sistema financeiro, não do mercado que produz e trabalha, e ser presidente da JBS, não candidato do MDB à Presidência da República, cargo mais importante que qualquer partido destina aos seus militantes, aos seus quadros originários, não a quem vem de fora.”

Para Renan, o MDB não deveria ter candidato próprio para que o partido pudesse fazer as alianças regionais convenientes, sem as amarras da eleição presidencial. O senador, que apoiou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, fez movimentos de reaproximação com o PT ao participar da caravana do ex-presidente Lula no Nordeste. Já Meirelles conta com o apoio do presidente Michel Temer, que confirmou presença na convenção desta quinta.


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