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Sábado 30.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Mundo

Defesa da repressão de Ortega mostra que parte da esquerda latina virou parque jurássico

Na contramão da esquerda responsável, stalinistas insistem nos totalitarismos

Postado em 26 de Julho de 2018 - Sérgio Ramírez

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Há pouco tempo o Senado uruguaio votou por unanimidade uma resolução de condenação à repressão sangrenta que ocorre na Nicarágua. A Frente Ampla que congrega a esquerda de diversas vertentes, o Partido Nacional e o Partido Colorado, de direita e centro-direita, e os social-democratas, liberais, socialistas cristãos, todos pediram a Ortega “o fim imediato da violência contra o povo nicaraguense”.

Durante o debate, o ex-presidente José Mujica, ao referir-se aos aproximadamente 350 mortos do massacre sem fim, disse palavras exemplares: “Me sinto mal, porque conheço gente tão velha quanto eu, porque me lembro de nomes e companheiros que perderam a vida na Nicarágua, lutando por um sonho. E sinto que algo que foi um sonho cai na autocracia... os que ontem foram revolucionários, perderam o sentido na vida. Há momentos em que é preciso dizer ‘vou embora”.

São palavras exemplares porque representam o que sempre acreditei que fossem os fundamentos éticos da esquerda, baseados em ideais permanentes mais do que em ideologias que olham ao passado. Uma postura semelhante foi assumida por partidos e personalidades de esquerda na Espanha, Chile, Argentina, México, que recusam o fácil e ultrapassado expediente de justificar a violência do regime de Ortega contra seu próprio povo, jogando a culpa no imperialismo ianque, de acordo com a cartilha.

É o que fez o Foro de São Paulo, reunido em Havana, ao emitir uma declaração em que, com espantoso cinismo, recusa “a ingerência e intervencionismo estrangeiro do Governo dos Estados Unidos através de suas agências na Nicarágua, organizando e dirigindo a ultradireita local para aplicar mais uma vez sua conhecida fórmula do chamado 'golpe suave' para a derrubada de governos que não compactuam com seus interesses, assim como a atuação parcial dos órgãos internacionais subordinados aos desígnios do imperialismo, como é o caso da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)”.

É preciso ler em voz alta para esses senhores reunidos em Havana a declaração do Podemos feita em Madri: “Pedimos a investigação e o esclarecimento de todos os fatos ocorridos durante as mobilizações, incluindo a prestação de contas nos tribunais por parte das autoridades policiais e políticas responsáveis pelas violações dos direitos humanos cometidas”.

Um discurso ultrapassado é sempre acompanhado de uma linguagem obsoleta. A esquerda é essa do Foro de São Paulo ou é a representada pelo pensamento humanista de José Mujica? Aquele aborrecido discurso nada tem a ver com a realidade da Nicarágua. É a retórica vazia, alheia a todo o contato com a verdade, que ficou perdida nas elucubrações de uma ideologia fossilizada. No parque dos dinossauros não há pensamento crítico.

A função ética da esquerda foi sempre estar ao lado dos mais pobres e humildes, com sentimento e responsabilidade como o faz Mujica. Por outro lado, o coro burocrático acaba justificando crimes em nome de uma ideologia férrea que não aceita as mudanças da história. Defender o regime de Ortega como de esquerda nada mais é do que defender seu alinhamento dentro do que resta da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), que já não é muito, após o fim da era de ouro do petróleo venezuelano grátis, e o golpe mortal infringido, também dentro de uma posição ética, pelo presidente Moreno do Equador.

Para entender a linguagem perversa dos que redigiram a resolução do Foro de São Paulo, e os sentimentos dos que a aprovaram, é preciso vestir o capuz dos paramilitares que sustentam a sangue e fogo o regime na Nicarágua, e se esquecer das centenas de vítimas, entre elas crianças e adolescentes.

Não posso imaginar um ultradireitista aliado do imperialismo ianque mais atípico do que Alvarito Conrado, o garoto de 15 anos, estudante do ensino médio, que por um natural senso de humanidade corria para levar água a jovens desarmados que defendiam uma barricada nas proximidades da Universidade Nacional de Engenharia, e levou um tiro no pescoço com uma arma de guerra. Foi ao meio-dia de 20 de abril, logo no começo dos protestos que já duram três meses. Foi levado, ferido mortalmente, ao hospital Cruz Azul do Seguro Social, e se negaram a atendê-lo. Sangrou até morrer. Alvarito é hoje um símbolo, com seu sorriso inocente e seus grandes óculos. Agente do imperialismo, conspirador da ultradireita empenhado em derrubar um governo democrático de esquerda. A esquerda jurássica.

Sérgio Ramírez - Escritor

 


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