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Quarta-Feira 18.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Entrevista

O papel decorativo da arte não pode ser subestimado

Entrevista: Isaac de Oliveira, artista plástico.

Postado em 27 de Junho de 2014 - Victor Barone

Isaac de Oliveira, artista plástico. Isaac de Oliveira, artista plástico. Foto: Erônemo Barros
Isaac de Oliveira, artista plástico. Isaac de Oliveira, artista plástico. Isaac de Oliveira, artista plástico.

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Nascido em 1953, em Ilhéus, na Bahia, o artista plástico Isaac de Oliveira pinta desde os 12 anos de idade. Está há 36 anos em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, “um lugar cuja luz é mágica, não se apaga nunca e inspira”, define o artista.  Dono de um traço forte, colorido e vivo, Issac de Oliveira retrata em sua obra a fauna e a flora sul-mato-grossenses e, também, temas variados que passam pelo zodíaco aos retratos femininos e abstratos. Agora, volta a inovar com a criação de um espaço onde o produto de seu talento sai das telas para objetos do dia a dia, como copos, pratos, abajures etc. São 30 peças licenciadas que trazem para o Estado uma prática muito comum no exterior: o despertar do interesse nas artes plásticas a partir de sua inserção no cotidiano das pessoas.

 

Por Victor Barone

Como é fazer artes plásticas em Mato Grosso do Sul?

Estou no Mato Grosso do Sul há 36 anos e já cheguei aqui fazendo arte. Estendi esta experiência para cá e me deparei com fenômenos diferentes. Por exemplo, descobri que a arte aqui era consumida apenas por quem era parente do artista. O artista começava a pintar, e a família inteira comprava o trabalho dele. Isso aconteceu com várias gerações de artistas sul-mato-grossenses. As pessoas falam: tal artista é famoso. Poucos são famosos fora daqui. A maioria ficou no âmbito familiar, com uma arte muito representativa, mas que não se estendeu. Até porque, geralmente, estas pessoas tinham condições de estudar fora, faziam belas artes no exterior e depois não precisavam trabalhar com arte. A arte sempre foi relegada a uma coisa de segundo plano. Ninguém queria que o filho fosse artista.

É uma profissão digna.

Digna e onde se ganha muito dinheiro se você tiver talento. É muito melhor ser um artista talentoso do que um advogado medíocre. Temos visto muitos artistas que morreram, pois não tiveram o incentivo da família. Até porque, há aquela coisa de confundir a liberdade criativa do artista com irresponsabilidade. E não tem nada a ver. Acabou isso. É claro que há gente medíocre em todas as profissões, que fazem as coisas de maneira mais fácil. Quem faz profissionalmente tem resultado.

Como está o consumo de artes plásticas em Mato Grosso do Sul?

A cada dia que passa as pessoas estão consumindo mais arte. Este mercado mudou muito de dez anos para cá, até porque o conceito de morar em Mato Grosso do Sul mudou muito também. Antigamente as pessoas tinham uma casa ruim na cidade e uma tapera na fazenda. Hoje a pessoa mora em um apartamento muito bom na cidade e tem uma casa fantástica na fazenda. Compra-se arte por cultura, como investimento, mas também para decoração. Aqui, este último motivo é o mais comum. Tenho mais de 500 clientes, vendi mais de 800 trabalhos. Destes, cerca de 20 foram vendidos a colecionadores. Os demais tiveram como motivo principal da compra a decoração. E não adianta o artista dizer que seu trabalho não é decorativo. Tem gente que torce o nariz para o Romero Britto dizendo que a arte dele é decoração. O importante é a expressão do artista.

É muito melhor ser um artista talentoso do que um advogado medíocre.

Até porque o mecenato patrocinou grandes obras de arte que eram, também, peças decorativas, o que não diminuiu sua qualidade.

Sim. O mecenato inteiro foi feito assim. Mato Grosso do Sul está vivendo um momento muito interessante por conta disso. As pessoas querem morar melhor, isso é legal. Vieram decoradores, arquitetos com uma visão mais aberta. Tudo isso contribuiu para melhorar o mercado de arte no Estado.

Como trabalhar para que a arte não seja consumida apenas por uma elite econômica?

Sempre digo que a expressão artística depende dos meios. Algumas mídias são gratuitas. Você pode entrar na internet, pegar uma foto, imprimir e fazer uma gravura. Isso é grátis. É claro que você não vai ter uma assinatura original, é uma arte para consumo imediato, ela não serve como uma arte que mais tarde tenha valor agregado. Quando você pinta uma tela, está dando 200 anos de garantia. Não é algo apenas para uma geração. Um papel impresso dura 10, 15 anos. Faço muita gravura e reprodução, que são entradas para a tela. A pessoa não tem dinheiro para comprar uma tela, mas compra uma gravura, uma reprodução e fica contente. Todas as minhas reproduções são assinadas uma a uma. Isso já dá um valor de mercado. Mas, é uma entrada, uma forma de popularizar a arte.

Você está trazendo para Mato Grosso do Sul uma tendência muito comum fora do país, de ampliar seu trabalho para objetos do dia a dia como copos, pratos, abajures etc. Como surgiu esta ideia?

É uma ideia antiga, desde os anos 60 já se faz isso. Estive viajando e observei que todos os museus, galerias e igrejas tinham lojas anexas com produtos de artistas relacionados. É o caso do Miró, do Picasso, do Matisse entre outros. Eu queria ter um espaço ao lado do meu ateliê para expor minha obra aos clientes. Eles visitavam o ateliê e a tela estava no chão, encostada, empilhada, e não tinham uma dimensão do que era aquilo. Agora, posso dar uma ideia do impacto do meu trabalho em um espaço decorado de forma adequada. Reproduzir um cantinho de uma casa para mostrar a dimensão de uma tela. Este foi o objetivo principal: facilitar a comercialização do meu trabalho.

Compra-se arte por cultura, como investimento, mas também para decoração.

Mas há um desdobramento além desse, com a ampliação da gama de produtos baseados em suas telas.

Sim.  A Seceu, minha esposa, é arquiteta, muito envolvida com decoração, trabalha em projetos grandes, festivais. Sempre viu a arte como algo maior, com uma expressão maior do que a que eu tinha. Ela disse: “Temos que pegar seu trabalho e estampar”. Da estampa passou para copos, pratos, almofadas, começou a virar peças. Hoje temos mais de 30 peças licenciadas vendendo no Brasil todo. Montamos postos avançados com mostruários na forma de armários nas pousadas de Bonito e do Pantanal. Já são seis e pensamos em ampliar para 30. É algo muito interessante e que começa a dar resultado após um ano.

As estampas que adornam os objetos são feitas especificamente para eles ou são retiradas de telas originais?

São tiradas das telas. Normalmente usamos a tela toda. A ideia é abstrair do meu trabalho uma visualização diferente para o produto.

Qual é a reação das pessoas quando veem este trabalho?

São variadas. A mais interessante é a daquelas pessoas que tem o quadro e querem comprar produtos que façam o conjunto com ele. Os ipes, por exemplo, fazem muito sucesso pois estão sendo vistos sempre na cidade.

Você falou da necessidade do artista assumir a arte como profissão. Por outro lado, sabemos que esta é uma missão difícil. A arte no Brasil ainda não é tão consumida a ponto de formar um mercado que absorva muitos profissionais. O que você aconselharia a um jovem artista de talento?

Geralmente a pintura entra na vida da pessoa como um hobby. Você não sabe se vão gostar de você, se vão comprar seu trabalho. Enquanto isso é preciso sobreviver. Geralmente o artista plástico tem outra atividade. É preciso insistir. Acreditar em você. Especialmente em um estado como o nosso.  No eixo Rio-São Paulo, Nova Iorque-Tokio é outra coisa. Embora também lá a arte tenha seus mistérios.

Na arte acontece um fenômeno que ninguém sabe medir. Não conseguimos mensurar como se faz sucesso.

Quais?

Na arte acontece um fenômeno que ninguém sabe medir. Não conseguimos mensurar como se faz sucesso. Um dia as pessoas acordam e gostam de você, e todo mundo gosta de você. Às vezes a pessoa vê um quadro e resolve que quer o quadro. Por exemplo, como você explica que um quadro da Beatriz Milhazes valha 100 mil dólares? Ninguém entende. Junto com ela, no Fundão, onde ela começou a pintar no Rio de Janeiro, há vários pintores, alguns tão talentosos quanto ela. Por que os outros não decolam como ela decolou? Este mistério é o que a gente desconhece. O artista busca este mistério, pois, além de tudo, ele é muito vaidoso. A gente tem uma vaidade com a nossa arte. Queremos que a nossa arte seja a melhor, a mais bonita. Tanto é que dizem que artista não se dá com artista por conta disso, não é? Acho uma mentira. Mas, as pessoas dizem que o artista é naturalmente invejoso e orgulhoso. Não sei, eu não me sinto assim.

Como é a aceitação da arte sul-mato-grossense no mercado de nacional?

Ainda está muito devagar. Até porque houve coisas doidas no mercado. Nos anos 70 e 80 o mercado acontecia com mais firmeza. Mas a coisa não se desenvolveu. Isso não virou nada. A arte cresceu e desapareceu. São aqueles fenômenos que não sabemos controlar. Acho que a arte em Mato Grosso do Sul está recomeçando da estaca zero. Ela tem que começar a ser vista de novo. É tudo muito amador. Acho que é necessária uma mão profissional.

Você tem visto surgir em Mato Grosso do Sul novos talentos nas artes plásticas?

Sim. Tem gente muito boa. Temos um talento novo, o Evandro Prado, que começou aqui e está em São Paulo fazendo um trabalho muito interessante. Está na Paris são-paulina, que é a Vila Madalena, onde está acontecendo tudo. Morri de inveja, queria ir também. Além dele tem mais gente surgindo.

A fauna e a flora sul-mato-grossenses representam de forma mais forte o seu trabalho. O que vem pra o futuro?

Este encanto que tive quando cheguei a Mato Grosso do Sul, esta luz que não se acaba, que é algo muito particular, que não se vê em lugar algum me influenciaram muito. Agora estou pensando em uma serie de santos. Nem sou católico, sou ateu, mas acontece que minha ideia é fazer uma série mostrando a parte gráfica destes santos, de repente fazer algo mais próximo, santos mais gordos, mais proporcionais. Os santos são muito branquinhos, muito magrinhos. Já fiz alguns rascunhos. Em breve.

Ouça a entrevista na íntegra.


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