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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Mato Grosso do Sul

Machismo e assédio nas redações

Privilégios, oportunismo, desqualificação do trabalho feminino fazem parte da rotina das jornalistas em MS

Postado em 19 de Julho de 2018 - Sarah Chaves – Sob a supervisão de Victor Barone

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Uma pesquisa de 2017, do site Catho, especializado em classificados de empregos, mostra que os homens ganham mais que as mulheres em todos as profissões e cargos. No Jornalismo não é diferente: as profissionais da área, que já enfrentam situações de machismo, assédio moral e sexual, também sofrem com o salário desigual.

Censo feito pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (Sindjor), em 2017, mostra que os profissionais que atuam no Estado são, majoritariamente, mulheres. Marta Ferreira de Jesus, 45, atual presidente do Sindjor, e editora chefe do site Campo Grande News, afirma que a diferença salarial é evidente. “Homens ganham mais que mulheres no Jornalismo. Não nas áreas básicas, porque ali, normalmente, os salários são iguais. Mas, quando você começa a negociar salários para cargos de chefia, os homens sempre conseguem ganhar mais”, afirma.

Com 22 anos de atuação profissional, Marta diz que apesar de os empregadores negarem este tipo de preconceito e dizerem que a diferença salarial ocorre devido à experiência dos profissionais, a negociação com uma mulher começa sempre em valor mais baixo. Além disso, diz Marta, no dia a dia, as grandes oportunidades acabam sendo oferecidas aos homens.

Para Gabriela Renata Gimenez Couto, 28, jornalista do jornal Correio do Estado, existe sim diferença salarial entre os gêneros. “Eu vejo no jornal que os meus colegas homens ganham mais do que nós mulheres, e a nossa chance de crescimento profissional não é igual a deles. Eles têm mais privilégios  por serem homens, principalmente porque os jornais estão nas mãos de homens, empresários, poderosos e políticos”, afirma.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentados em pesquisa realizada entre 2012 e 2016, mostram que as mulheres apresentam um nível de escolaridade superior ao dos homens, trabalham mais e, no entanto, ganham menos. Seus salários correspondem, em média, a 76,5% do salário deles.

Outra jornalista que percebe a diferença no tratamento entre homens e mulheres na profissão é Mariana Lopes,32. Com mais de dez anos de carreira, e hoje atuando no site de notícias Midiamax, ela presenciou e viveu muito desrespeito. Mariana enfatiza que não são todos os seus colegas que tem um comportamento machista, mas conta que alguns profissionais ainda subestimam o trabalho feminino. “Passei por uma situação em que o fotógrafo sempre tentava passar por cima de mim, até nas entrevistas. E não o via agir da mesma maneira com os meninos da redação”, diz ela. E essa não foi a única vez em que ela foi desrespeitada por ser mulher. “Outra situação que vivi foi com um motorista do jornal, que começou a gritar comigo durante uma pauta, sem o mínimo respeito, só porque pedi a ele para estacionar o carro mais próximo do local onde eu gravaria, pois estava chovendo”. Ela ressalta que o comportamento do motorista não era o mesmo com seus colegas jornalistas.

Não é somente na questão salarial que a diferença entre homens e mulheres se faz presente nas redações. Situações machistas são comuns e muitos colegas chegam a atribuir um dia ruim na rotina de trabalho das jornalistas, aos hormônios, afirma Marta. “Ela está naqueles dias”, já ouviu de um colega.

Há também situações em que as mulheres se sentem desqualificadas em seu trabalho. Quando perguntada se já se sentiu subestimada de alguma forma, Ellen Genaro, 39, jornalista da Record, diz que sim. Segundo ela, seu trabalho só foi valorizado quando mudou de empresa. Antes, Ellen atuava em uma emissora concorrente.

Já Gabriela conta que, desde que era estagiária, sentia muita diferença no tratamento, e muito machismo, principalmente quando assumiu a editoria de Esporte: “Eles achavam que eu não seria capaz de fazer matérias sobre futebol ou futsal, porque eu sou mulher. Eu gosto de esportes, porém, até os técnicos tinham preconceito comigo, achavam piada dar entrevista para uma mulher”.

O editor chefe do site Top Mídia News Vinicius Squinelo,29, afirma ter presenciado várias situações machistas em sua experiência profissional: “Creio que não há redação com melhor clima de trabalho e com menos problemas deste tipo em Campo Grande”. Sobre o salário desigual conta que não passou por isso no seu local de trabalho e sua colega ganhava mais que ele.

Squinelo completa: “Infelizmente, a maioria das empresas de jornalismo não tem uma visão empresarial. No geral, os donos são homens e mais velhos. Logo, sim, é um ambiente que, quanto mais se sobe, mais fica machista. Olhando para os novos empresários do ramo e para as linhas de sucessão, é uma situação que ainda deve perdurar”.

A jornalista Liziane Berrocal,37, conta que trabalhou em um jornal onde as editoras ganhavam menos que os editores. “Eu ganhava um salário de editora mais baixo que outro editor pra ter duas funções. Eu era editora e repórter especial e, ainda assim, sabia que ali dentro existia essa politica de salário mais baixo para as mulheres”. Para ela, era inadmissível quando diziam que seu trabalho rendia menos, “porque mulher tem TPM”.

Sobre a dominação masculina, Berrocal diz que pode não existir supremacia no jornalismo, mas que 90% das chefias em Campo Grande são ocupadas por homens, apesar da maioria dos profissionais serem mulheres.

A psicóloga Cristiane Pinheiro Duarte, 43, trabalha com politicas públicas e militância social desde 1999. Agora ela atua na Subsecretaria Municipal de Defesa dos Direitos Humanos e em 2008 começou a se aprofundar no direito das mulheres. Ela explica que o machismo é produto de uma sociedade patriarcal. “Às mulheres sempre foi atribuído o espaço doméstico e de servidão, e aos homens o espaço público de participação na sociedade. Estamos falando de uma construção histórica, cultural. Não é possível que haja mudanças rápidas. Apenas com muita mobilização social e reeducação da sociedade”.

Segundo ela, o movimento feminista vem cumprindo o seu papel para essas mudanças ao longo da história. No trabalho, a igualdade entre homens e mulheres é uma previsão legal não praticada na sociedade. “Mesmo desempenhando a mesma função que os homens, poucas mulheres ocupam cargos elevados de poder, e ainda há o assédio constante nas relações de trabalho. Mulheres já conquistaram alguns direitos, porém ainda continuam recebendo menos que os homens e ocupando poucos cargos de poder”.

Assedio também é um problema

Casos de machismo que envolvem assédio sexual também estão presentes no dia a dia dessas mulheres, como relata Genaro. “Já sofri assedio moral por chefes e, também, assédio sexual”, revela.

Segundo Gabriela Couto, que já passou pelos mesmos problemas, esta é uma situação muito pesada. “Eu sinto que a gente está o tempo todo sendo submissa”, diz. Ela relata que já presenciou amigas sendo assediadas por chefes e até sendo vítimas de situações constrangedoras. “Até passada de mão na bunda já rolou com minhas amigas e colegas. Já ouvi histórias de chefes que beijaram forçadamente, situações terríveis, e é triste que isso ainda ocorra. O machismo é presente até nos comentários, durante a conversa diária de redação. A gente sente isso.”

Estas situações também são percebidas pelos colegas homens. O jornalista Carlos Alberto José da Silva Filho, 47, diz que já viu chefes que utilizaram do cargo para fazer insinuações a colegas jornalistas e também impor alguns trabalhos e ações por conta da posição de gerencia, diretoria ou mesmo chefia.

Berrocal passou a defender as mulheres na profissão após sofrer um estupro em uma redação. “Ocorreu um ano antes de me formar. (O estupro) ocorreu pelo dono de um jornal. Isso acabou comigo, mas resolvi me reerguer. O assédio em nossa profissão existe e não é velado”, afirma.

Ela conta também que já passou por muitas situações de assédio, e que já ouviu que ela se masculiniza para ser respeitada. “Fui chamada de sapatão por tentar me impor. Situações como essas são diárias, em especial no jornalismo de policia e política. Os políticos são cheios de gracinha pro nosso lado. Já passei por situações onde vereador tentou beijar e falar que só não tomava mais liberdade por eu ser feminista”. Berrocal respondeu a altura. “Assédio é quando eu não quero, quando eu quero e se der moral não é assédio, você tem que saber o seu limite”, disparou.

O assédio sexual no trabalho é previsto no artigo 216 A do Código Penal, que estabelece: "Constranger alguém com intuito de levar vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua forma de superior hierárquico, ou ascendência inerentes a exercício de emprego, cargo ou função: Pena: detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos."

Isso não inibe quem imagina que a mulher é inferior, pois segundo a psicóloga Cristiane Duarte, muitas não denunciam o assédio porque nem sabem o que isso significa. “Fomos educadas a achar que devemos servir aos homens, inclusive sexualmente. Outras sabem, mas se sentem intimidadas e com medo de perderem o emprego. Em muitos casos, a tendência é a culpa ser da vítima.

Para a jornalista Mariana a maior parte do machismo está camuflado. “Não acredito em uma medida imediata e milagrosa para acabar com o machismo, mas em mudanças gradativas de comportamento”, completa. Para essas mulheres ainda há chances de reverter esta situação de preconceito: “Espero que com essa geração nova de profissionais as coisas possam mudar e que, com a mente mais aberta, possamos quebrar esse tabu”, completa Gabriela.


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