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Terça-Feira 20.nov.2018

Ano VII - Nº 328

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Poder

Esquerda debate candidato único, mas setores do PT não veem saída além de Lula

Partido vive disputa interna para escolher substituto para o ex-presidente

Postado em 06 de Julho de 2018   - Redação Semana On

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O debate entre representantes dos pré-candidatos da esquerda e progressistas à Presidência, no último dia 29, deixou claro que as ideias programáticas do PT, PSOL, PDT e PCdoB têm muitas semelhanças. A crítica ao governo Temer, também. No entanto, a sintonia pareceu parar por aí.

O encontro promovido pelo movimento Quero Prévias e que reuniu Fernando Haddad (PT), Luis Fernandes (PCdoB), Nelson Marconi (PDT) e Natalia Szermeta (PSOL) mostrou que não há uma concordância sobre uma união entre eles em torno de um único candidato já no primeiro turno. O assunto permeou todo o debate e incomodou inclusive parte da plateia que assistia ao encontro na Casa do Povo, em São Paulo.

Enquanto os representantes de Manuela D’Ávila e Ciro Gomes, em falas mais que afinadas, defendiam o candidato único nas eleições majoritárias - mesmo que essa candidatura não fosse a do ex-presidente Lula -, Haddad deixou claro do início ao fim que essa união não acontecerá se o ex-presidente não for o nome escolhido.

“Acho que nós deveríamos estar hoje debatendo um programa de um único candidato do nosso campo no primeiro turno das eleições. O Brasil está enfrentando um período gravíssimo e que está em causa a própria existência da nação enquanto país soberano”, argumentou Luis Fernandes, coordenador da campanha presidencial do PCdoB.

“A ameaça que paira sobre nós é gravíssima. Se a violência da cassação da legislatura do companheiro Lula à Presidência da República for confirmada, assim mesmo nós temos condições de ganhar as eleições. Mas para a gente ganhar as eleições precisamos estar unidos no primeiro turno para poder chegar no segundo turno”, completou sob aplausos.

A fala foi seguida de Nelson Marconi, que representou a campanha de Ciro Gomes no encontro. “Realmente a gente tem que pensar nessa união porque no fundo o que está em jogo hoje é que se a esquerda ou os progressistas não ganharem a eleição, o projeto liberal vai ser realmente consolidado nesse país dessa questão de legitimidade."

Ele afirmou que o projeto neoliberal não possui legitimidade por causa do contexto de golpe, o que pode mudar caso o campo conservador vença a disputa. "A partir do momento em que eles ganham a eleição, aí sim a plataforma liberal pode vir a ser implementada com legitimidade. Então, essa é a questão principal que está em jogo nessa eleição, por isso acho que temos que pensar na união das esquerdas e dos partidos progressistas.”

Szermeta, que apresentava as propostas de Boulos do encontro, não levantou a bandeira de seus antecessores e focou nas propostas de sua legenda, mas sua postura não foi suficiente para finalizar o assunto, que permeou o bloco seguinte e deixou de lado discussões mais aprofundadas sobre estratégias para colocar em prática as reformas que todos os partidos lá representados concordam ser essencial ao país.

Representante petista, Haddad se mostrou confiante nos resultados eleitorais. “Um dos nossos candidatos certamente vai ganhar essa eleição na minha opinião. Acho que essa esquerda vai ganhar a eleição. E acho que as forças progressistas têm que estar unidas em torno de um projeto nacional, inclusive para garantir a sustentabilidade desse governo e a agenda desse governo que vai ter muita coisa em comum.”

A declaração do coordenador de campanha do PT foi rebatida por Marconi. “Tenho um pouco de receio que, se a gente não se unir, não tenho tanta certeza que a esquerda ganhe o primeiro turno. Quero pensar assim de forma otimista, mas não tenho tanta certeza.”

O grau de desesperança foi corroborado por Fernandes. “Certamente se qualquer um de nós consultar mais amplamente os movimentos sociais, as bases de apoio de nossos partidos, na sua maioria, eles acham que deveríamos estar unidos na campanha eleitoral. E que nós estivéssemos unidos já no primeiro turno.” E complementa dizendo que “queria comungar da confiança do Fernando Haddad”.

No quinto e último bloco, insistentemente o representante de Manuela D’Ávila fez questão de concluir sua fala da onde começou. “Do que foi apresentado aqui, há sentido essas candidaturas não estejam unificadas no primeiro turno das eleições?”.

A fala de Luis Fernandes foi aplaudida, porém interpretada por uma senhora como uma desistência à candidatura de Lula. Interrompendo a fala de Fernandes, ela puxou o coro da plateia com o jingle “Ole, ole ole, olá! Lula, Lula” e disse: “essa é uma palavra mágica para unificar a esquerda”.

Em resposta, o representante do PCdoB disse defender o direito do petista “ser candidato e do povo votar nele”. “Mas o ponto que quero levantar é que tenho certeza que estaremos juntos no segundo turno. Mas temo que estejamos juntos fora das urnas.”

Com a palavra final do encontro, Haddad não arredou o pé. Em uma fala que soou como música aos ouvidos do próprio partido - que alimentava desconfiança de parte de seus pares após conversar com Ciro Gomes - manteve a posição da alta cúpula de sua legenda. "Como nós do PT podemos abrir mão do Lula? Não temos condição política, eleitoral, moral, programática. O PT não pode e não vai abrir mão de Luiz Inácio Lula da Silva".

Luta intestina

A pouco mais de 90 dias do primeiro turno, Lula tenta, em vão, deter uma disputa entre petistas pelo direito de substituí-lo na corrida presidencial, diante do provável impedimento de sua candidatura. Por intermédio de bilhetes e mensagens, o ex-presidente busca manter o controle do partido.

Mas, à espera de uma definição do ex-presidente, potenciais candidatos e apoiadores já deflagraram suas batalhas pelo papel de reserva de Lula.

Hoje existem quatro nomes cogitados para incorporar o plano B: o ex-governador Jaques Wagner, o ex-prefeito Fernando Haddad, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o ex-ministro Celso Amorim.

E uma amostra dessa rivalidade aconteceu no dia 8 de junho, data do lançamento oficial da pré-candidatura de Lula, em Contagem (MG). Apontado como preferido de Lula e dos governadores petistas, Wagner era o encarregado de ler uma mensagem enviada pelo ex-presidente.

Sob comando de Gleisi, os organizadores do ato decidiram, porém, montar um jogral para a leitura da carta. Descartada a ideia, a tarefa foi repassada à ex-presidente Dilma Rousseff.

No momento da leitura, Wagner já havia deixado o auditório onde se realizava o lançamento. A saída dele foi interpretada como mais um sinal de sua inapetência para a candidatura presidencial, especialmente após a realização de uma operação da Lava Jato em sua casa. Defensores de Wagner afirmam, no entanto, que ele aceitará concorrer se convocado por Lula, mas prefere ser discreto até lá.

Enquanto isso, Haddad tenta amenizar resistência interna. Para isso, se associou à maior corrente petista, a CNB (Construindo o Novo Brasil), tem viajado pelo Brasil e se reunido com petistas a pretexto da elaboração do programa de governo de Lula.

A disputa começou um dia depois da prisão de Lula, no dia 7 de abril. Contrariada com a veiculação de notícia segundo a qual Haddad dividiria com Gleisi a missão de falar em nome do ex-presidente, a senadora fez registrar em resolução do partido que ela foi a porta-voz designada por Lula.

Cada vez mais popular entre os militantes, Gleisi também tem interditado debate interno sobre o plano B, alimentando a suspeita de que busca se viabilizar para a disputa.

No último dia 18, durante reunião do conselho informal do PT, dirigentes petistas manifestaram apreensão quanto à falta de estratégia para depois da Copa do Mundo. A reunião foi gravada para que seu teor fosse enviado a Lula. Mas, por uma falha técnica, não chegou ao ex-presidente.

Na reunião, os ex-ministros Franklin Martins e Aloizio Mercadante se mostraram preocupados com a ausência de um porta-voz credenciado para representar Lula em atividades da pré-campanha. Mas a discussão sobre antecipação do nome do vice de Lula foi abortada.

Em meio a essa turbulência, um grupo de dirigentes do PT trabalha pela indicação de Celso Amorim para a execução do plano B. Há até slogan para o diplomata: "o chanceler da paz" ou "o embaixador da esperança".

Oficialmente, porém, o partido mantém o discurso de que Lula será candidato. Em evento na noite de sexta (29), em São Paulo, com representantes de pré-candidaturas de esquerda ao Planalto, Haddad repetiu que a sigla "não pode e não vai abrir mão" do ex-presidente.

"Nós não temos condições políticas, morais, intelectuais, programáticas de abrir mão do Lula", disse.

Quem são os planos B do PT 

Jaques Wagner

O ex-governador da Bahia é o preferido de Lula para substituí-lo; porém, pode sofrer desgaste com a Lava Jato

Fernando Haddad

O ex-prefeito de SP é o coordenador do programa de governo de Lula, mas seu nome enfrenta resistência na sigla 

Gleisi Hoffmann 

Presidente do PT, assumiu o papel de porta-voz do petista e tem vetado discussões internas sobre plano B 

Celso Amorim

Apelidada de 'plano C', indicação do ex-chanceler, que não tem experiência eleitoral, é defendida por grupo do partido


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