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Quarta-Feira 25.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Brasil

Vice dos EUA cobra mais ação do Brasil em relação a migrantes e gera mal-estar

Maduro diz que vice-presidente dos EUA é cobra venenosa

Postado em 27 de Junho de 2018 - Patrícia Campos Mello e Gustavo Uribe – Folha de SP

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Em meio às tensões causadas pela detenção de 51 crianças brasileiras nos Estados Unidos, o vice-presidente americano, Mike Pence, cobrou maior empenho do Brasil para solucionar a crise migratória na região e para isolar o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, causando mal estar no governo brasileiro.

Em visita a Brasília, Pence aproveitou para fazer uma advertência dura à população da América Central, de onde sai a maioria dos imigrantes ilegais com destino aos EUA. "Para as pessoas da América Central, tenho um recado para vocês, do coração: queremos que suas nações prosperem e vocês não arrisquem suas vidas e as de seus filhos tentando vir para os EUA; se vocês não conseguem vir legalmente, não venham; cuidem de suas crianças e construam suas vidas em seus países de origem."

Em declaração à imprensa após encontro com Temer e almoço no Itamaraty, Pence afirmou que o governo americano está trabalhando para reunir as famílias, entre elas "as famílias brasileiras que foram pegas nessa onda de imigração ilegal".

Desde que o governo Trump implementou a política de tolerância zero com imigração ilegal, mais de 2300 crianças foram detidas, separadas de suas famílias.

Temer e Pence reuniram-se por cerca de uma hora no Palácio do Planalto. O vice americano entrou no Planalto pela porta lateral, ao som de música de ninar americana, tocada com trompete por um dos poucos manifestantes que estavam na frente do Planalto, com placas “Libertem nossas crianças".

Temer afirmou que a detenção das crianças brasileiras é um tema sensível, preocupante e precisa de uma solução célere. Mas ele evitou criticar a política migratória norte-americana e se concentrou na questão das crianças brasileiras. O presidente afirmou que o Brasil está disposto a buscar os menores brasileiros e trazê-los de volta ao país.

Pence teria afirmado que os brasileiros não são o cerne do problema migratório e prometido fazer todo o possível para reunir as famílias. Além disso, na manhã desta terça-feira, o governo americano compartilhou com o Brasil dados do departamento de segurança interna que estão sendo cruzados para agilizar a localização das crianças brasileiras. 

"Deixe-me ser claro: os Estados Unidos sempre foi o país mais acolhedor para imigrantes em toda a história da humanidade", afirmou. Pence, no entanto, ressaltou que o país está investindo como nunca na segurança de suas fronteiras. "Quero dizer a todas as nações da região, com todo o respeito: da mesma maneira que os EUA respeitam suas fronteiras e sua soberania, insistimos que vocês respeitem as nossas."

Segundo ele, os EUA estão ajudando a combater o crime e o tráfico de drogas na região, as causas que levaram mais de 150 mil pessoas a imigrarem ilegalmente para os EUA nos últimos seis meses. "Queremos que as pessoas do nosso hemisfério possam construir uma vida melhor para elas no país onde elas nasceram".

O americano afirmou que todos os países do hemisfério precisam ajudar a garantir a estabilidade de países vizinhos aos EUA, para que essas pessoas - provenientes principalmente de Honduras, Guatemala e El Salvador - fiquem em suas próprias casas, em vez de emigrar.

"Por isso, hoje digo ao nosso aliado Brasil : chegou a hora de vocês fazerem mais", afirmou o vice.

O tom de Pence causou desconforto entre integrantes do governo brasileiro, que não esperavam cobranças na declaração à imprensa, mas, sim, promessas de pronta resolução do problema das crianças brasileiras. Segundo pessoas que participaram do almoço no Itamaraty e do encontro com Temer, Pence foi muito mais cordato a portas fechadas. Mas, diante das câmeras, parecia estar passando recado para o público interno americano, de forma deselegante com o anfitrião.

O vice-presidente americano elogiou a atuação do Brasil em relação à Venezuela, mas também aproveitou para fazer cobranças. “Obrigado pelo apoio com a recepção de mais de 50 mil venezuelanos e por enfrentar o regime Maduro e ser um parceiro dos Estados Unidos”, disse Pence.

Pence afirmou que os EUA impuseram as mais duras sanções da história contra membros do regime venezuelano e agradeceu a UE por ter adotado na segunda-feira sanções contra outros 11 integrantes do governo.

Ele também agradeceu ao Brasil pelos esforços para isolar o governo Maduro por meio da suspensão do Mercosul, declarações do Grupo de Lima e ter se juntado aos EUA no processo de suspender o país da OEA. "Mas agora é hora de agir de forma mais enérgica -  exortamos o Brasil a adotar mais medidas para isolar o governo venezuelano", afirmou.

Os EUA vem pressionando o Brasil a adotar sanções contra a Venezuela. Mas, após a declaração,  o ministro das relações exteriores, Aloysio Nunes, reiterou que o Brasil apenas adota sanções de forma multilateral, como, por exemplo, por meio do Conselho de Segurança da ONU.

Pence elogiou esforços do presidente Temer para fazer reformas ao "cortar os gastos do governo, liberalizar o mercado de trabalho e abrir o setor energético." Na reunião, afirmou que essas reformas, mais o teto de gastos, alinhavam o Brasil com os requisitos da OCDE. Os EUA vêm barrando a candidatura do Brasil ao órgão.

O vice abordou também a negociação do acordo de salvaguardas tecnológicas, que permitirá o uso pelos EUA da base de Alcântara, o tratado de cooperação entre a Agência espacial Brasileira e a Nasa, e as barreiras americanas ao aço e ao alumínio. 

Sonho americano

Durante almoço no Itamaraty, o senador Fernando Collor (PTC-AL), presidente da comissão de Relações Exteriores do Senado, criticou a política migratória dos Estados Unidos, citando a frase inscrita na estátua da Liberdade: "Dê-me suas massas de pobres e cansados que anseiam por respirar livremente". Ele afirmou que o governo americano não deveria acabar com o "sonho americano".

Pence defendeu a política de seu governo, e disse que ele mesmo era filho de imigrantes irlandeses; mas afirmou que o sonho americano sobrevive, desde que se preserve o direito do governo de defender a lei e a soberania do país.

Collor também afirmou estar extremamente preocupado com a guerra comercial, dizendo que eles não ajudavam a reforçar as alianças históricas dos EUA. Os EUA impuseram cotas sobre aço e alumínio importados, inclusive do Brasil, além de tarifas sobre cerca de US$ 50 bilhões (R$ 191 bilhões) em exportações chinesas.

A mulher do vice americano, Karen Pence, fez uma visita à igreja Dom Bosco e plantou uma árvore na Praça dos Três Poderes.

Cobra venenosa

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, chamou de "cobra venenosa" o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence.

"A cada vez que a cobra venenosa de Mike Pence abre a boca, eu me sinto mais forte, mais claro de qual é o caminho, o caminho é nosso, é venezuelano, não é o que nos aponta Mike Pence", disse Maduro durante ato transmitido pela emissora de televisão estatal VTV, por ocasião da entrega do Prêmio Nacional de Jornalismo.

"Não é o que ele diz que a Venezuela vai fazer, fracassado e derrotado Mike Pence. Sim, te derrotamos e vamos te derrotar onde esteja, para onde viaje, Mike Pence, a revolução bolivariana se torna cada vez mais forte", acrescentou o presidente.

Durante visita a um albergue de refugiados em Manaus, no Amazonas, Pence disse que o governo de Maduro é uma "ditadura brutal (que) debilitou a economia" e provocou "êxodo em massa" de venezuelanos.

Defesa

Maduro se defendeu ao afirmar que seu país sofre uma "guerra econômica", uma tese do chavismo governante que atribui o pobre desempenho da sua economia a supostos atos de sabotagem orquestrados por opositores e pelos próprios Estados Unidos, e lembrando que na Venezuela foram realizadas 24 eleições nos últimos 19 anos.

O venezuelano criticou a "complexada e racista" União Europeia, que esta semana impôs novas sanções contra 11 altos cargos do governo venezuelano, e afirmou que os países do bloco estão "de joelhos" diante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


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