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Ano VI - Nº 315

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Brasil

Por que jovens de 16 a 24 anos são atraídos por Bolsonaro?

Eleitores desta faixa etária dão ao pré-candidato seus melhores resultados nas pesquisas de opinião

Postado em 07 de Junho de 2018   - G1

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Propostas simples, discurso distante dos marqueteiros e o modelo de político antissistema são alguns dos fatores que ajudam a explicar por que tantos jovens manifestam apoio ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), segundo avaliações de especialistas. Na pesquisa Datafolha, divulgada em abril, o capitão da reserva do Exército marcou 23% entre os jovens, bem acima dos 17% que tem no quadro geral.

Autora da pesquisa “Crise da Democracia e extremismos de direita”, Esther Solando, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que o pré-candidato do PSL encarna os anseios dos jovens por rebeldia na política. Para isso, usa linguagem inspirada na cultura da internet, como memes.

“Precisamos lembrar que esses jovens tiveram sua formação política durante os governos do PT. Então, para eles, o voto antissistema e antiestablishment vem da direita, que está personificada no Bolsonaro. No mundo todo, há um fenômeno da “direita pop”, e o Brasil não foge à regra. Se era cool ser de esquerda nos anos 1970, hoje é ser de direita”, afirma a pesquisadora.

Como parte de sua pesquisa, Esther acompanhou dinâmicas de grupo com estudantes de ensino médio de escolas públicas. Notou que, para jovens, Bolsonaro usa linguagem fácil de entender, com frases curtas e propostas rasas que agradam ao senso comum, como armar a população ou expurgar políticos corruptos:

“Ele ganha pelo emocional. Bolsonaro vende a imagem de não ser ligado à política tradicional. Muita gente fala que é um voto de desabafo, uma reação ao sistema que eles consideram uma porcaria. Esses jovens não se sentem parte da política”, afirma.

Na mesma linha, Camila Rocha, doutoranda em Ciência Política na USP e estudiosa da ascensão da nova direita na internet, cita a comunicação digital como o trunfo de Bolsonaro para conquistar uma “militância orgânica” nas redes sociais:

“Os jovens veem Bolsonaro como uma espécie de ícone pop. Oscilam entre levá-lo a sério ou rir de sua forma de se expressar. Isso passa uma ideia mais genuína, que soa a esse público como linguagem que não é fabricada por marqueteiros”, diz.

Camila destaca ainda a importância para esse grupo a imagem de honestidade construída em torno do político, a quem chamam frequentemente de “mito” — um termo típico da cultura dos memes.

“O fato de não ter nenhum escândalo cativa os jovens, quase como se ele fosse um super-herói”, avalia.

Colabora para essa imagem, segundo Esther Solano, também o fato de Bolsonaro ser oriundo das Forças Armadas. Esses jovens não têm memória sobre a repressão dos anos de ditadura militar no país.

“Há uma procura por respostas para a corrupção, e não se apresenta um discurso que possa resolver isso. Há uma visão de que não há lei e ordem. E que um militar pode resolver”.

Camila Rocha destaca ainda o intercâmbio entre movimentos diversos de direita, como universitários liberais e neoconservadores. Segundo ela, isso ajudaria a explicar o discurso hoje defendido por Bolsonaro, que une uma defesa de um estado mínimo e o armamento para a população civil. Em ambos os casos, avalia, as ideias têm relação com movimentos similares fundados nos Estados Unidos.

“Nos anos 2000 surgiu uma direita ultraliberal, que não existia no Brasil. Vários integrantes se tornaram conservadores com o tempo, outros mantiveram diálogo com essa direita que já existia”, explica.

No momento certo

Em sua pesquisa, Camila mapeou momentos marcantes da ascensão desses grupos, como o Movimento Brasil Livre (MBL). Segundo ela, dois momentos são marcantes para que esses movimentos ganhassem influência política:

“Junho de 2013 foi um marco porque ensinou a eles que a direita também podia ir para a rua. Mas a reeleição de Dilma Rousseff (PT) foi um divisor de águas. Houve comoção geral entre esses grupos, que tinham convicção na vitória de Aécio Neves (PSDB). A primeira manifestação na Paulista só reuniu 2 mil pessoas, mas já contou com a presença de Eduardo Bolsonaro. Eles souberam ler o momento político”.

Quem são eles

Uma pincelada liberal na economia, uma dose conservadora nos costumes e manifestações duras contra criminosos formam o tripé do discurso de ultradireita de Bolsonaro. Entre os jovens, o receituário tem ecoado com sucesso: 23% dos eleitores de 16 a 24 anos declararam voto nele, segundo um dos cenários avaliados na pesquisa mais recente do Datafolha. É esse recorte etário que concentra o melhor desempenho de Bolsonaro. No quadro geral, o deputado atinge 17%.

O interesse da juventude por ideias radicais associadas à direita e em candidatos que aparentam distância da “política tradicional”, ou antissistema, não é fenômeno exclusivo do Brasil — eleições na Europa e a escolha de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos são exemplos nítidos. Bolsonaro reúne as duas características: não esconde que é de direita e, apesar de deputado federal há quase 30 anos, consolidou a imagem de apolítico. Ele também se beneficia do desgaste dos 13 anos de governo petista e dos dois do presidente Michel Temer.

“O PT pegou o Brasil com a economia crescendo e não gastou nada em infraestrutura”, opina o estudante e microempresário Gabriel Santório, de 22 anos, que cita outra bandeira de Bolsonaro. “Tem que valorizar a propriedade privada e os fazendeiros, porque o alimento vai chegar mais barato. O empresário tem despesa com seguro, roubo de carga, e quem paga essa conta é o povo.”

Também eleitora de Bolsonaro, a estudante Jéssica Rodrigues, de 19 anos, foi assaltada há oito meses por dois homens armados. “Sinto necessidade de ter uma arma por ser mulher. O Espírito Santo é muito violento, quero poder me defender”, diz a jovem, que é moradora de Cariacica.

Outra arma, a política, está na comunicação. “Ele é um homem comum que defende aquilo que pessoas comuns precisam”, diz o estudante Jonathan Santana, de 24 anos.

Emanuel Sousa, 20 anos

Emanuel é um típico jovem de periferia. Morador de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, fez diversos cursos técnicos e profissionalizantes na área de mecânica. Apesar disso, está desempregado há quatro meses. Ele vive em uma região cercada por favelas tomadas por traficantes e milicianos. Segundo ele, são justamente as propostas na área de Segurança que o fizeram aderir à candidatura de Bolsonaro: “Acho que devemos ter leis mais severas mesmo. Isso levaria as pessoas a pensar mais antes de cometer um crime.”

Ingrid Lopes, 24 anos

Defensora da “família tradicional brasileira”, como se define, Ingrid Lopes, de 24 anos, acredita que Bolsonaro é o mais preparado para lidar com a Segurança Pública. Ela é entusiasta da proposta que defende mais facilidades para o acesso da população às armas de fogo. “Se um meliante me aborda, eu vou querer ter em mãos um papel com a lei do feminicídio ou uma arma para responder à altura?”, questiona Ingrid, moradora de Extremoz, no Rio Grande do Norte, e estudante de ciências contábeis. “Para um país ir bem, a Segurança Pública tem que estar no topo.”

Jonathan Santana, 24 anos

Jonathan Santana, de 24 anos, não recorre ao argumento de que o Brasil vive uma crise política. Segundo ele, que estuda Filosofia na PUC-Rio e integra o Centro Dom Bosco, um grupo católico de estudos, o colapso brasileiro é moral: “Os valores se perderam: de Justiça, verdade, bondade.” Santana cita o fato de Bolsonaro ser “contra o aborto, antiesquerdista, patriota e antiestabilshment” e diz que o deputado não é racista ou homofóbico: “Nunca vi esse discurso de ódio. Existem recortes de falas usados para tentar impugná-lo.”

Anna Carolina Baani, 16 anos

Moradora da Zona Leste de São Paulo, a jovem Anna Carolina Baani ganha R$ 500 por mês. Ela é estudante de escola pública e funcionária de um call center. Anna começou a prestar atenção em Bolsonaro durante o processo de impeachment, em 2016:Com esses escândalos de corrupção, o país precisa de uma pessoa como o Bolsonaro, que tem o pulso firme e apoio dos militares.” A estudante diz se identificar com as ideias do pré-candidato de dar “mais poder ao Exército e à polícia” e de incentivar o porte de arma: “Gostaria de ter uma arma depois dos 21 anos.”

Bruno Campoy Freire, 20 anos

O estudante de Administração e estagiário de uma multinacional Bruno Campoy Freire vive num condomínio de luxo na Região Metropolitana de São Paulo. Bruno teme que, se o PT voltar ao governo, o Brasil estará no caminho de virar uma Venezuela. Também acredita que a ditadura militar foi um “período importante”. “Acredito que hoje há uma inversão de valores em que o policial é visto com maus olhos quando age, e os criminosos são sempre acolhidos e não pode acontecer nada com eles. Se o Bolsonaro entrar, essa mentalidade pode acabar mudando”, argumenta.

Gabriel Santório, 22 anos

A recente adesão ao receituário econômico liberal rendeu a Jair Bolsonaro o apoio do estudante e microempresário Gabriel Santório, de 22 anos. Morador de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, Santório defende o livre mercado. “Ele (Bolsonaro) prometeu menos impostos, menos intervenção do Estado na economia e mais facilidade para abrir empresas. Hoje em dia, é complicado abrir empresa”, diz ele, que faz faculdade de Administração e é dono de um pequeno negócio de venda e entrega de cestas básicas.

Felipe Winter, 16 anos

Morador de Sinop, no Mato Grosso, o estudante Felipe Winter tirou o título de eleitor um dia depois de completar 16 anos apenas para votar em Bolsonaro. Para ele, o maior problema do país é a carga tributária. A diferença dos preços dos tênis que comprava em Minas Gerais, onde morava, e em Sinop é um dos exemplos do problema, diz ele. Para o jovem, bandido bom é bandido morto. “Todo mundo tem que pagar. Se não for na cadeia, tem que ser igual antigamente: olho por olho, dente por dente.”

Jéssica Rodrigues, 19 anos

Moradora de Cariacica (ES), Jéssica Rodrigues é oriunda de uma família de classe média baixa e afirma concordar com todas as opiniões de Jair Bolsonaro. Estudante de Comunicação e entusiasta do porte de armas para civis, ela afirma não frequentar igrejas. Porém, isso não é um obstáculo para que apoie de maneira irrestrita a imposição de valores religiosos cristãos, “da maioria dos brasileiros”, por meio de leis ou ações do governo federal. “Não tenho religião, mas acredito que os princípios cristãos são importantes para a sociedade”, destaca.

Bruna Pereira, 21 anos

Há dois anos, a gaúcha Bruna Pereira leu um post no Facebook no qual um amigo dizia que muitas pessoas criticavam as ideias de Bolsonaro sem conhecê-las. Ela foi pesquisar e mudou de opinião sobre o político, apesar de ainda ter ressalvas. “Não é o candidato ideal, porque não é uma pessoa muito equilibrada. Só que, entre os que estão aí, é ele que tem as melhores propostas”, diz a estudante de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de 21 anos, que apoia o projeto para escolas públicas adotarem o sistema de ensino de colégios militares.


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