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Sexta-Feira 22.jun.2018

Ano VI - Nº 308

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Mundo

Quem é Pedro Sánchez, e o que quer o novo governo socialista espanhol?

Espanha muda os rumos após sete anos da direita no poder

Postado em 06 de Junho de 2018   - Kate Aronoff – The Intercept Brasil

O novo primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez, à esquerda, aperta a mão do ex-primeiro-ministro Mariano Rajoy depois que Sánchez conseguiu aprovar a moção de censura na Casa Baixa do parlamento espanhol em 1º de junho de 2018, em Madri. O novo primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez, à esquerda, aperta a mão do ex-primeiro-ministro Mariano Rajoy depois que Sánchez conseguiu aprovar a moção de censura na Casa Baixa do parlamento espanhol em 1º de junho de 2018, em Madri.

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Depois de um período de muito barulho no parlamento espanhol, a Espanha passou a ser comandada por Pedro Sánchez, o líder do Partido Socialista Operário Espanhol – para surpresa do próprio partido. Quando o Primeiro Ministro Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), recebeu uma moção de censura no começo do último dia 1º, o parlamento migrou para o PSOE, e as forças à esquerda e à direita ainda estão se recuperando do choque.

Depois que o PSOE apresentou a moção de censura no mês passado, era esperado que Ciudadanos – um partido arrivista de centro-direita com impulsos populistas – chegasse ao poder caso Rajoy fosse derrubado em consequência da condenação de 29 filiados ao PP por denúncias de corrupção. Uma série de movimentações de última hora de políticos espanhóis de diversos matizes ideológicos ocasionou um resultado bem diferente, produto de desdobramentos de tensões há muito tempo latentes no país, inclusive a independência da Catalunha. Agora Sánchez, de 46 anos, e o PSOE vão precisar costurar um governo em meio a um dos acontecimentos mais extraordinários dos últimos tempos na política europeia. Tendo sido o partido que ocupava o poder durante a crise financeira na Europa, eles talvez precisem também reconstruir o capital político que perderam quando implementaram duras medidas de austeridade, o que ao fim lhes custou o governo, em 2011.

Para saber mais, conversei na sexta-feira com David Lizoain, economista e ativista filiado ao PSOE, que reside em Madri.

O que acabou de acontecer?

Ninguém esperava por isso há três dias. Para mim o que explica o ocorrido é que o Ciudadanos jogou alto demais. Eles lideravam as pesquisas e queriam eleições rápidas. O partido segue uma linha muito forte de nacionalismo espanhol, e por isso os partidos nacionalistas do País Basco e da Catalunha estavam preocupados que eles pudessem levar o governo. Eles também defendem políticas econômicas neoliberais bastante convencionais, e com isso também não recebem apoio dos partidos de esquerda.

Ao anunciar que não apoiavam Rajoy, eles cometeram um erro crasso de avaliação das circunstâncias. Naquele cenário, era melhor ter o PSOE que um PP corrupto ou uma eleição imediata que colocaria o Ciudadanos no poder. Primeiro, os separatistas catalães de esquerda anunciaram apoio ao PSOE; houve então uma disputa de poder entre os nacionalistas catalães de direita, e os moderados venceram a ultradireita. Os moderados disseram que seria melhor ter um governo que em teoria é mais aberto ao diálogo sobre a questão nacional, que é o caso do PSOE. O Partido Nacionalista Basco (PNV) havia acabado de concluir uma negociação orçamentária muito favorável com o PP e não queria alterações, porque havia conseguido assegurar um grande investimento no País Basco. A possibilidade de um governo do Ciudadanos os preocupava porque o partido segue uma linha fortemente contrária ao privilégio fiscal e ao regime financeiro autônomo da região basca.

Ontem (30) ficou claro que Sánchez tinha conseguido uma maioria. Enquanto aconteciam os debates sobre a censura, Rajoy e sua equipe foram a um restaurante e ali permaneceram das 14 às 22h, em sinal de desrespeito pelas instituições democráticas da Espanha.

Como você espera que o governo de Sánchez se concretize?

O PSOE terá que compor seu governo no contexto de um parlamento muito fragmentado. As frentes de batalha que existiam entre direita e esquerda estarão acirradas. Sánchez precisará se movimentar em um contexto de incerteza, e veremos se conseguirá impor sua pauta e dar seguimento a um programa de governo progressista.

Pessoalmente, eu ficaria surpreso se surgisse um governo de coalizão entre Podemos e PSOE. Que ganhos isso pode trazer? À direita, há uma disputa entre Ciudadanos e PP. À esquerda, entre PSOE e Podemos. Os partidos em cada um dos campos são, nesse momento, aliados de ocasião com muitos interesses conflitantes, e não tenho certeza se é prudente incluir no gabinete aliados nessas condições.

Não acho que estabelecer uma maioria permanente seja um dos principais objetivos aqui, e as políticas provavelmente dependerão em grande parte do Ciudadanos, em termos de estratégia parlamentar. O Podemos fez uma importante contribuição para a regeneração das instituições democráticas na Espanha. Eles não estão agora numa posição mais forte o suficiente [no] parlamento para conseguir algo. Mas estão definitivamente numa posição mais forte para colocar as questões na mesa, como a liberdade de expressão. Ontem e hoje foram bons dias para um reaquecimento das relações no campo da esquerda. Isso deixa claro o que já deveria ser óbvio: a principal divisão na política espanhola é entre direita e esquerda.

Acho que o PSOE fará um governo minoritário. A impressão é que o PP irá se opor frontalmente a qualquer proposta que o PSOE apresente. O Ciudadanos poderia ser uma espécie de fiel da balança, mas não participaria de qualquer aliança que inclua ao mesmo tempo PSOE e Podemos. Ele é um partido de centro-direita liberal, e será difícil aproximá-lo do Podemos para negociar em qualquer questão relacionada à economia. No que se refere a um programa propositivo, o PSOE poderia impor uma pauta feminista ou climática, e buscar a revogação das leis mais draconianas do PP contra a liberdade de expressão. O objetivo será a resistência.

O que vem agora?

Sánchez pode estar prestes a se encontrar com o Rei neste exato momento. Primeiro ele precisará compor seu gabinete, e então ocupar os cargos administrativos. O PSOE é um partido de governo; há muitos talentos mantidos na reserva. Foi tudo tão rápido que o sistema político ainda está se recuperando. O objetivo da oposição será abreviar ao máximo sua permanência no cargo e assegurar que não ultrapasse, no mais tardar, as eleições locais e regionais do ano que vem.

É a primeira vez na história da Espanha que um Primeiro-Ministro é removido dessa forma. Isso significa que você não precisa dos votos apenas para derrubar um cara. Você também precisa de votos para colocar um cara novo no lugar. Eles agora precisam descobrir como substituir a pauta que vigorou nos últimos 7 anos por uma nova pauta, que imagino que será construída sobre os pilares de estabilidade econômica, anti-corrupção, estabilidade social e diálogo sobre a questão nacional – as mesmas coisas que estávamos buscando antes.

No âmbito fiscal há uma situação meio bizarra. Sánchez se comprometeu a manter o orçamento que foi aprovado há algumas semanas, porque isso era essencial para ganhar o apoio dos nacionalistas bascos. É o orçamento mais keynesiano da Europa, que ao mesmo tempo estabelece reduções tributárias e aumenta os gastos. Ele é ruim da perspectiva do déficit, que é relevante para a questão europeia em curso na Itália.

Isso significa que estamos herdando um orçamento que tem prioridades equivocadas, mas que deve ter um impacto positivo sobre a economia. O orçamento pré-eleição do PP agora é o nosso orçamento pré-eleição, no sentido de que estimula a economia pela perspectiva da demanda. É muito pouco provável nesse momento que possamos desfazer as reduções tributárias e investir em medidas contra a pobreza, mas ainda é cedo para ter certeza.

Como o PSOE precisará lidar agora com a questão nacional?

Até onde sei, eles saíram vencedores entre os nacionalistas bascos e catalães sem prometer nada em troca, apenas uma maior abertura ao diálogo. O PSOE sempre teve, em relação aos outros partidos, uma percepção mais aguçada da natureza plural da Espanha.

Existem três fatores relevantes para o nacionalismo catalão. Há a esquerda republicana, que percebeu depois das últimas eleições regionais que o caminho da independência unilateral é um beco sem saída, e está tentando retomar o diálogo. E há duas facções de nacionalistas de direita. O PDeCAT, herdeiro da antiga Convergência, é parte da aliança Juntos pela Catalunha (JxC), que também está a favor do diálogo. E, por fim, há a terceira facção, por conveniência “JxC”, que é controlada pelo ex-presidente da Catalunha Carles Puigdemont e tem como estratégia fomentar as tensões. Os nacionalistas de direita são controlados pelo JxC (Puigdemont) no parlamento catalão, mas pelo PDeCAT em Madri. Puigdemont supostamente não queria dar apoio à moção de censura, mas os realistas do PDeCAT prevaleceram e impuseram o voto “sim”. São notícias muito boas para reduzir as tensões com relação ao tema.

O PSOE está essencialmente tomando o poder em decorrência de maquinações internas do parlamento. Eles têm um mandato popular?

Não posso dizer que um governo do PSOE esteja entrando com um mandato forte, porque já se passaram dois anos das eleições e eles voltaram ao poder por meio de manobras parlamentares. Houve um forte apoio para nos livrarmos do PP, e foi o PSOE que apresentou a moção. Não está claro ainda, porém, qual será o mandato propositivo. Isso precisa ser definido, e depende da habilidade política de Sánchez, do partido e do governo. No último mandato, o governo foi pego de surpresa pela crise financeira, respondeu mal, e desde então vem pagando por isso.

Que tipo de lições você acha que o PSOE aprendeu desde então?

Sánchez, em especial, se define por alguns aspectos que representam uma certa ruptura em relação ao que o PSOE era enquanto estava no poder, durante a crise. Um deles é que ele foi contra a decisão do PSOE de implementar medidas de austeridade e equilíbrio de balanços, que foram muito impopulares. Durante seu período na liderança do partido, ele se voltou contra o partido em relação a isso. Ele renunciou à sua cadeira para não votar com o PP quando o PSOE participava de uma aliança com o partido.

É um cara que está aqui porque se insurgiu contra a ideia de que é preciso fazer grandes alianças. Foi assim que ele ganhou renome e é por isso que conseguiu chegar aonde chegou. Quanto às questões específicas sobre a sustentabilidade da dívida e a reforma da Zona Euro, as equipes econômicas do partido têm acompanhado de perto o que está acontecendo, e estão mais bem preparadas que da última vez. Obviamente, o contexto agora é muito diferente, porque aquela foi uma crise completa.

O PP promulgou uma série de políticas climáticas e energéticas retrógradas, voltando atrás em várias mudanças pró-ambientais feitas pelo PSOE quando estava no poder. Quais são os planos do PSOE para a questão climática?

Houve notícias recentes de que o governo espanhol teria adotado uma postura intransigente contra objetivos climáticos mais ambiciosos. Isso é um pouco desconcertante, porque a Espanha está na linha de frente da crise climática, e deveria estar também na linha de frente de uma revolução ecológica. Em termos de clima, esta pode ser uma grande oportunidade. A equipe de Sánchez tem enfatizado energicamente a questão climática, e o atual presidente do partido é um ex-ministro do Meio Ambiente. A questão climática não está no topo da lista de prioridades da Espanha, mas, em termos das prioridades que impulsionaram Sánchez a retomar a liderança do PSOE, era mais valorizada por ele do que pelo Podemos.

Como você acha que essa eleição irá afetar a situação dos partidos municipais de esquerda afiliados ao Podemos, como o Barcelona En Comú, que vêm enfrentando desafios em âmbito nacional ao tentar implementar uma pauta mais progressista?

Eles identificaram uma série de gargalos, e cabe a eles chamar a atenção para essas questões e incluí-las na pauta para que possam ser resolvidas – idealmente, por meio de mudanças na regulamentação ou nas leis existentes. Se já entendem tão bem as barreiras em nível nacional, é do interesse deles propor essas mudanças, para que possam dizer que atingiram sua pauta e para que nós possamos dizer que facilitamos esse processo. É do interesse de ambos os lados.

Algo mais?

Tivemos um governo de direita nos últimos sete anos. O partido no poder acaba de enfrentar um escândalo de corrupção sem precedentes, e foi bastante antissocial no que se refere aos direitos políticos. Nós ainda não resolvemos a questão nacional. Não é uma herança simples.


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