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Sábado 04.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Poder

Sob pressão, Alckmin cobra tucanos e diz que cunhado é simpatizante do PSDB

Em crise, partido debate até obrigar declaração de apoio a Doria e Alckmin

Postado em 25 de Maio de 2018 - Redação Semana On

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Sob pressão, o presidenciável do PSDB, Geraldo Alckmin, subiu o tom na crítica a correligionários encrencados com a Justiça e defendeu o cunhado Adhemar Ribeiro, acusado de operar para ele caixa dois. "É casado com uma banqueira e simpatizante do PSDB", respondeu.

Em sabatina realizada pelo jornal Folha de SP, UOL e SBT – no último dia 23 - Alckmin ainda fez o discurso de defesa contra acusações de caixa dois que era cobrado por sua equipe em resposta à Lava Jato.

O tucano disse que a Justiça deve ser cumprida no caso do ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, de seu partido, condenado no mensalão mineiro.

Afirmou que o senador Aécio Neves (PSDB-MG), réu no Supremo, não será candidato, tema que segundo o mineiro será decidido e anunciado em seu estado.

Disse que o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB) “vai se explicar”. E cobrou esclarecimentos sobre supostos recursos não declarados mantidos no exterior por Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, apontado como operador do PSDB.

“O PSDB não é imune a críticas. Não passamos a mão na cabeça de ninguém”, realçou. “A Justiça se faz para todos. Aliás, acaba de ser feita.”

A jornalistas, ao final, disse ter “certeza de que [Azeredo] vai se apresentar e cumprir a decisão judicial, embora ainda possa ter recurso”. Afirmou que não se discute punição ao mineiro no PSDB, visto que está afastado da vida partidária há dez anos.

Em esforço para reverter a onda negativa que abateu sua campanha desde que pesquisa CNT da semana passada mostrou variação negativa em seu desempenho, o tucano adotou discurso mais enfático na entrevista.

Rebateu acusação da CCR —“um absurdo verdadeiro”, tachou— de que teria recebido R$ 5 milhões em caixa dois na campanha de 2010, intermediado por seu cunhado Adhemar Ribeiro.

“Nunca vi ninguém, é um absurdo verdadeiro, ajudar alguém que sabe de antemão que vai trabalhar contra os seus interesses", afirmou, detalhando medidas em seu governo contrárias aos interesses da concessionária.

Também acusado pela Odebrecht de ter recebido mais de R$ 10 milhões em caixa dois, o tucano respondeu que as suas campanhas “foram feitas dentro da lei, sem ostentação”, e que essa foi a orientação repassada aos profissionais que nela atuaram.

Ele saiu em defesa de Ribeiro, “casado com banqueira e simpatizante do PSDB. Só isso”.

Na chegada à sede do UOL, Alckmin decidiu descer do carro no Largo da Batata e caminhou dois quilômetros pela avenida Faria Lima. Veio de gravata, segundo assessoria, porque hoje o acessório é mais usado pelos pobres do que os ricos.

Olhando para a câmera, ele se defendeu do que chamou de “tendência no Brasil de defenestrar a política e dizer que é tudo igual. Não é. Quem enricar na política é ladrão. L-A-D-R-Ã-O”.

“Me sinto indignado”, protestou. “Fui vereador na minha cidade natal, quando não se ganhava um centavo”, disse. Afirmou que recusou aposentadoria de deputado e hoje recebe R$ 5.000 do INSS depois de 42 anos de contribuição.

Questionado, disse que seu patrimônio é de R$ 1,3 milhão, com pouca variação do valor declarado em 2014.

Chamou especulações em torno de sua substituição no pleito presidencial por João Doria (PSDB) de fake news. “É impressionante a criatividade. Depois dele vão inventar outro.”

Alckmin disse que o adversário Jair Bolsonaro (PSL), com quem está empatado em seu reduto eleitoral, SP, representa o passado.

“O que anda para trás é caranguejo. O Brasil não vai regredir. Bolsonaro e PT é a mesma coisa, corporativismo puro, não tem interesse público”, comparou.

​Sobre Ciro Gomes (PDT), disse que “ele quer reestatizar, eu quero privatizar”, mas fez acenos: “Tenho discordância conceitual do Ciro, mas acho que ele tem espírito público. Não é um corporativista”.

Em crise, PSDB quer apoio na marra

Em mais um sinal das dificuldades internas pelas quais passa o PSDB, o diretório paulista do partido discutiu obrigar seus filiados a declararem apoio formal a João Doria para governador e a Geraldo Alckmin para presidente, sob pena de expulsão por infidelidade.

A medida foi proposta pelo presidente estadual da sigla, Pedro Tobias, mas acabou rejeitada após discussão em que ficou evidente que ela se tornaria uma prova pública do dissenso interno do PSDB.

No alvo da iniciativa estavam prefeitos, deputados e secretários estaduais que têm feito jogo duplo na corrida estadual, mantendo relações próximas com o sucessor de Alckmin no Palácio dos Bandeirantes, o ex-vice Márcio França (PSB).

O governador é candidato à reeleição e tem executado uma agenda intensa de aproximação e cooptação de aliados de Alckmin —que, para irritação da equipe do ex-prefeito paulistano Doria, aceita o duplo palanque no estado.

No campo federal, a medida foi vista como uma tentativa pública de enquadramento de deputados estaduais e federais do partido que têm mostrando crescente insegurança com a fraca posição de Alckmin nas pesquisas eleitorais, entre 5% e 8% a depender do instituto.

Eles já falam, em reserva, que talvez o PSDB tenha de trocar de candidato. O nome de Doria para a missão é o mais citado na Assembleia Legislativa e entre correntes federais do partido, o que acendeu o sinal de alerta na equipe da pré-campanha de Alckmin.

Doria, por sua vez, tem mantido silêncio público e privado sobre o assunto.

Tobias, que não respondeu aos pedidos para comentar o caso, fez a proposta draconiana na reunião do Diretório Estadual, ocorrida no último dia 21.

Apresentou um modelo de notificação extrajudicial ao qual seriam anexadas reportagens relatando supostas infidelidades tucanas.

O acusado teria então cinco dias para responder à acusação e fazer uma retratação pública a fim de provar que segue a orientação do partido.

“Comprovada a fidelidade partidária e o respeito às orientações estatutárias, solicitamos que vossa senhoria declare apoio formal, no mesmo prazo assinalado, aos candidatos já escolhidos nas prévias partidárias, ou seja, ao filiado Geraldo Alckmin para a Presidência da República e ao filiado João Doria para o governo do estado de São Paulo”, diz o texto, que sublinha o “apoio formal”.

Em caso de descumprimento da ordem, “será iniciado o processo de desfiliação por infidelidade partidária”, encerra a proposta de documento.

A reunião foi tensa, com a expulsão de um membro de movimento de juventude tucano sob acusação de estar espionando o encontro.

O episódio evidencia o clima de desconforto no PSDB. Operadores de Alckmin, que está paulatinamente apresentando integrantes de seu programa de governo, se queixam da falta de coordenação política.

Não há por ora líderes regionais que comandem uma política coesa de alianças, por exemplo, nem tampouco um nome para dar a “ordem unida” nacionalmente à sigla.

A situação vai contaminando o entorno de Alckmin. O aliado mais importante do tucano neste momento, o PSD, está fora do centro das decisões. O ministro Gilberto Kassab, que controla a agremiação, não foi consultado pela pré-campanha até aqui.

Para um estrategista de Alckmin, a ansiedade dos aliados é exagerada e alimentada por adversários internos do ex-governador. Ele diz que o tucano só deverá começar a mostrar força quando a campanha começar, em agosto.


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