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Ano VIII - Nº 368

Especial

Amor baseado em evidência

Antes de apelar para os búzios ou para o horóscopo, veja o que a ciência diz sobre o amor.

Postado em 20 de Junho de 2014 - Redação Semana On

A ciência ainda não encontrou a fórmula do amor, mas muitos pesquisadores parecem acreditar que estão quase lá. A ciência ainda não encontrou a fórmula do amor, mas muitos pesquisadores parecem acreditar que estão quase lá.

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A ciência ainda não encontrou a fórmula do amor, mas muitos pesquisadores parecem acreditar que estão quase lá. Estudos, equações e teorias solucionam dilemas como prever a chance de uma reconciliação ou de encontrar a alma gêmea.

Para a médica inglesa Luisa Dillner, as respostas das pesquisas são mais confiáveis que conselhos de amigos. Dillner é colaboradora da revista científica "British Medical Journal" e autora do livro "Os Números do Amor". "Conselhos são baseados em experiências. A experiência do outro pode bem ser diferente da sua. Já pesquisas são feitas com centenas de pessoas", disse.

Por exemplo: um amigo pode dizer que a ex-namorada vai pedir para voltar, mas estudos mostram que a chance de reconciliação para casais com menos de 30 anos é de 10%. "Se você sabe que a estatística está contra você, vai se mexer mais rápido."

O psicólogo Ailton Amélio, professor da Universidade de São Paulo e autor de "Relacionamento Amoroso", tem estudos sobre o amor, mas é mais cauteloso. "Existem pesquisas confiáveis, mas ainda há muito 'achismo' e soluções mágicas."

Outro porém é que dificilmente os estudos podem ser generalizados. "Muitos são com universitários americanos, nem sempre os resultados se aplicam a outros contextos", diz Dillner.

Para o psiquiatra e terapeuta de casal Luiz Carlos Osorio, não dá para desconsiderar a ciência mas também se pode ignorar a experiência e o contato com outras pessoas. "Não podemos reduzir tudo a um padrão. Relacionamentos são imprevisíveis. Existem caminhos para deixar a relação mais satisfatória, mas eles só vão funcionar se o casal se dispuser a isso."

Para a ciência, no entanto, não há mistério. Confira a seguir o que dizem as pesquisas sobre o tema em todo o mundo.

Buscas iguais

Diferentemente do que se imagina, homens e mulheres buscam as mesmas coisas em um parceiro. De acordo com levantamento internacional realizado com 9.474 pessoas em 33 países, todos procuram bondade, inteligência, bom humor e saúde na outra pessoa ("Journal of Cross-Cultural Psychology").

Não ajudou? Então tente procurar pessoas semelhantes a você. Casais com personalidades parecidas são mais satisfeitos em seus relacionamentos, segundo pesquisadores da Universidade de Iowa (EUA). Em estudo de 2005, eles pediram a 291 casais que respondessem a questionários e participassem de interações filmadas. Depois, mediram a satisfação matrimonial e as semelhanças entre os parceiros. Resultado: os casais se parecem muito no que diz respeito às atitudes. As semelhanças na personalidade foram importante para a qualidade da relação.

Cantadas que funcionaram

Romantismo à parte, para a psicologia evolutiva, a cantada é o momento de o homem mostrar suas qualidades como bom reprodutor e companheiro. As melhores cantadas, portanto, são aquelas que exibem esses atributos, de acordo com pesquisa da Universidade de Edimburgo, Escócia. Foi pedido a 195 universitários que dessem uma nota de um a cinco para 40 cantadas masculinas. Quanto maior a nota, maior a chance de a conversa continuar. As que tiveram mais sucesso foram aquelas em que o galanteador demonstrava disposição de ajudar ou expunha suas qualidades intelectuais.

Quando um homem impediu que roubassem o lugar de uma mulher na fila do ônibus, por exemplo, nota 3,83. Demonstrar que tem dinheiro também funciona: pedir opinião para comprar um relógio caro recebeu a nota 3,76. As que tiveram as menores notas foram as diretas, como convites explícitos ou elogios. Se você costuma perguntar, sem sucesso, "Você se machucou quando caiu do céu?" (nota 1,54), agora sabe o que está dando errado. A pesquisa foi publicada na revista "Personality and Individual Differences", em 2006.

Encontrar a alma gêmea

Quando você está apaixonado, como saber se outra pessoa que você ainda não conhece seria capaz de despertar sentimentos mais profundos? Para solucionar o problema, o matemático e psicólogo Peter Todd, da Universidade Indiana (EUA), junto com o psicólogo Geoffrey Miller, criaram uma teoria que pode ser chamada de "regra dos 12". É um algoritmo matemático, "que maximiza as chances" de achar a alma gêmea e "diminui os riscos" de se dar mal na escolha.

A ideia está baseada em um conceito chamado de "satisficing" (a mistura de satisfação com suficiente), que quer dizer fazer a melhor escolha dentro de opções limitadas. Doze pretendentes são uma boa amostra, segundo estimativas dos pesquisadores. Para dar certo, porém, é preciso conhecer bem as opções. E, depois de chegar à conclusão, ter cara de pau para correr atrás de "ex" e pedir uma segunda chance.

Sexo no primeiro encontro

Tanto faz se é homem ou mulher: quem tem relações sexuais com quem acabou de conhecer fica malvisto. Trabalho da Universidade Texas Tech (EUA), publicado pela revista "Personal Relationships", entrevistou 296 universitários, que responderam a questionários sobre o comportamento sexual de homens e mulheres tendo como base situações fictícias. Homens e mulheres que tinham sua primeira relação sexual após firmar um compromisso foram considerados mais apaixonados e companheiros. Enfim, desejáveis para um namoro ou casamento.

Outra pesquisa, publicada no mesmo periódico em 1998, mostra que homens tem 40% mais chances de se envolver em sexo casual. Ter tido uma experiência desse tipo no passado ou estar em uma situação que favorece o sexo (estar bêbado, por exemplo) aumenta as chances de a transa acontecer. Participaram da pesquisa 305 pessoas - 33% dos homens e 16% das mulheres já tinham feito sexo casual.

Fazer o amor durar

O matemático e psicólogo John Gottman, da Universidade de Washington (EUA), depois de acompanhar casais por anos, criou uma fórmula de sucesso para casamentos: a taxa 5 X 1. Para cada coisa (comportamento ou memória) negativa do parceiro, é preciso ter cinco positivas. A teoria da satisfação pode até parecer óbvia, mas a ideia é que os pontos negativos sejam reconhecidos e, quem sabe, evitados. Queixas sobre defeitos na personalidade do parceiro e declarações de desprezo são exemplos de comportamentos nocivos

Um dos estudos de Gottman começou em 1983, com 79 casais que participaram de conversas filmadas. A partir da ideia do 5 X 1, os pesquisadores conseguiram prever a maioria dos divórcios - dos 79 casais, 22 (27,8%) se divorciaram depois de 14 anos. A pesquisa foi publicada na revista "Journal of Marriage and the Family", em 2000. Uma maior capacidade de resolver conflitos e de cultivar memórias positivas ajuda a manter a satisfação no relacionamento. Segundo o pesquisador, há dois períodos críticos: os primeiros sete anos --quando metade dos divórcios acontece-- e na meia-idade, em que a satisfação matrimonial chega no ponto mais baixo.

Relacionamento no trabalho

O tra­balho é um dos lu­gares mais ci­tados na li­te­ra­tura ci­en­tí­fica como um local pro­pício para en­con­trar o amor. Mas de­pende do em­prego. Am­bi­entes mais li­be­rais, em que pi­adas são per­mi­tidas, são os mais fa­vo­rá­veis para os ro­mances, se­gundo pes­quisa da Uni­ver­si­dade de Tulsa (EUA), pu­bli­cada no "Journal of Ap­plied So­cial Psy­cho­logy", em 2011. O es­tudo en­volveu 293 pes­soas e foi feito em duas etapas.

Os par­ti­ci­pantes res­pon­deram a um ques­ti­o­nário que trazia per­guntas como "Você já tes­te­mu­nhou um na­moro no seu tra­balho atual?" e "Você já se en­volveu com al­guém do es­cri­tório?". Dos en­tre­vis­tados da pri­meira etapa, 35% já ti­nham se re­la­ci­o­nado com al­guém do tra­balho. O nú­mero chegou a 43% entre os par­ti­ci­pantes da se­gunda etapa. Tra­ba­lhar nas mesmas ta­refas e con­viver em um am­bi­ente li­beral ajudam. A pro­xi­mi­dade fí­sica é o que menos conta.

Reacender a chama

A qua­li­dade do re­la­ci­o­na­mento é li­gada à frequência das re­la­ções se­xuais, de acordo com es­tudo da Uni­ver­si­dade Es­ta­dual da Geórgia, pu­bli­cado em 2008. O pro­blema é que, ainda se­gundo a pes­quisa, na mai­oria dos re­la­ci­o­na­mentos a ati­vi­dade se­xual di­minui com o tempo. Os ci­en­tistas en­tre­vis­taram 77 pes­soas que es­tavam em um re­la­ci­o­na­mento sem sexo para en­tender o "ce­li­bato in­vo­lun­tário" - quando um dos par­ceiros não tem in­te­resse se­xual. Esse ce­li­bato pode ocorrer, por exemplo, por pro­blemas no re­la­ci­o­na­mento ou falta de de­sejo se­xual e pode trazer frus­tração, de­pressão e baixa au­to­es­tima (94% dos par­ti­ci­pantes do es­tudo de­se­javam ter sexo de novo em suas vidas).

A pes­quisa não en­sina a re­a­cender a chama, mas traz al­gumas pistas: as prin­ci­pais causas da perda do in­te­resse se­xual são a sen­sação de que não há mais no­vi­dade e que não é pre­ciso in­vestir na re­lação. Outro es­tudo, ca­na­dense, feito com 99 pes­soas, mos­trou que con­versar sobre sexo e falar sobre as pre­fe­rên­cias na cama pode me­lhorar a vida se­xual.

Namoro à distância dá certo?

Es­tudos mos­tram que re­la­ci­o­na­mentos a dis­tância podem ser mais es­tá­veis do que os pró­ximos. Se­gundo pes­quisa da Uni­ver­si­dade Es­ta­dual de Ohio, feita em 2007 com 122 ca­sais, a ide­a­li­zação do par­ceiro e a sa­tis­fação com a co­mu­ni­cação são mai­ores em re­la­ções a dis­tância. E o que acon­tece quando os ca­sais que moram longe passam a viver perto? O mesmo grupo de pes­qui­sa­dores re­a­lizou, em 2006, um es­tudo para des­crever as mu­danças que a re­lação sofre quando deixa de ser a dis­tância. Foram se­le­ci­o­nados 335 uni­ver­si­tá­rios para res­ponder a ques­tões abertas sobre a re­lação.

Os re­sul­tados não foram muito ani­ma­dores: 36,6% dos que es­ti­veram em um re­la­ci­o­na­mento a dis­tância e pas­saram a morar no mesmo lugar ter­mi­naram em até três meses e 97% deles per­ce­beram al­guma mu­dança na re­lação, como au­mento nos con­flitos, ciúmes e per­cepção de novos de­feitos ou qua­li­dades no par­ceiro. A mai­oria dos par­ti­ci­pantes (85%) disse sentir falta de pelo menos uma coisa na re­lação a dis­tância - au­to­nomia, por exemplo.

Discutir sem Cobranças

Dis­cus­sões são ine­vi­tá­veis e, de acordo com a ci­ência, dizem muito sobre a qua­li­dade do re­la­ci­o­na­mento. Um tra­balho da Uni­ver­si­dade de Wis­consin (pu­bli­cado em 2000 pelo "Journal of Mar­riage and Fa­mily") en­tre­vistou 97 ca­sais recém-ca­sados com, em média, 25 anos. Dois terços deles foram con­vi­dados a par­ti­cipar de in­te­ra­ções em la­bo­ra­tório. A ideia era ob­servar como eles dis­cu­tiam e como re­a­giam a res­postas hostis e ten­ta­tivas de ter­minar a con­versa. Os re­sul­tados con­tra­ri­aram al­guns es­te­reó­tipos de gê­nero: ho­mens que evi­tavam con­flitos e se re­ti­ravam da dis­cussão (mu­dando de as­sunto, por exemplo) foram bem vistos pelas mu­lheres.

A ati­tude foi vista como um em­penho do ma­rido em evitar a briga. Já entre os ho­mens, es­posas que fu­giam de dis­cus­sões foram mo­tivo de queixa. Se­gundo a pes­qui­sa­dora, o es­tudo mostra que é pos­sível iden­ti­ficar com­por­ta­mentos que são hostis e, assim, evitá-los. Mas nem todos os con­flitos podem ser re­sol­vidos. Pes­quisa de 2009, pu­bli­cada na re­vista "Fa­mily Re­la­tions", feita com 100 ho­mens e 100 mu­lheres ca­sadas, mos­trou que as dis­cus­sões sobre di­nheiro são umas das mais fre­quentes. E elas nunca têm so­lução.

As chances de recomeçar

O fim de um re­la­ci­o­na­mento não sig­ni­fica um ponto final na vida amo­rosa, mostra es­tudo re­a­li­zado pela Uni­ver­si­dade de Essex (In­gla­terra). A partir de dados de pes­quisas do "Bri­tish Hou­sehold Panel Survey", que en­tre­vista anu­al­mente 5.500 fa­mí­lias, foi pos­sível con­cluir que, entre as pes­soas que acabam de se di­vor­ciar, 30% passam a viver com outro par­ceiro em um ano. Em cinco anos, a por­cen­tagem é de 47%.

Porém, a ve­lo­ci­dade em que a pessoa inicia um novo ro­mance di­minui à me­dida que ela en­ve­lhece. Viúvos e res­pon­sá­veis por cri­anças se en­volvem 15% menos em novos re­la­ci­o­na­mentos. E esses re­la­ci­o­na­mentos pós-rom­pi­mento podem ser du­ra­douros? Pes­quisas já dis­seram que há um risco de "efeito re­bote" (usar um amor para curar outro), mas um es­tudo pu­bli­cado no "Journal of Di­vorce and Re­mar­riage", em 2011, com dados de 13 mil pes­soas, mos­trou que a quan­ti­dade de di­vór­cios dos "re­la­ci­o­na­mentos-re­bote" é a mesma de ou­tros tipos de re­la­ci­o­na­mento: 15% dos ca­sais que re­co­me­çaram aca­baram se se­pa­rando. O tra­balho ana­lisou re­la­ci­o­na­mentos que co­me­çaram em vá­rios pe­ríodos pós-se­pa­ração e não en­con­trou di­fe­renças.


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