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Segunda-Feira 22.out.2018

Ano VII - Nº 325

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Comportamento

Por que temos tanta dificuldade em pedir ajuda aos outros?

Pedir ajuda em momentos necessários nos deixa expostos a inúmeras ameaças sociais, e é por isso que essa ação é tão desconfortável

Postado em 23 de Maio de 2018   - Galileu

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Segundo Aristóteles, viver em sociedade é tanto uma necessidade do homem quanto uma garantia fundamental para a existência da humanidade tal como conhecemos hoje.

Se somos marcados por este traço social que nos instiga a desenvolver relações interpessoais com indivíduos, participar de grupos sociais e almejar o convívio humano, por que ainda temos dificuldade de pedir ajuda quando precisamos?

Segundo a psicóloga social Heidi Grant, a resposta para esse bloqueio está no medo da rejeição, sentimento que está enraizado na psicologia evolucionista.

Em seu livro Reinforcements (sem tradução para o português), Grant explica que buscar por suporte ou apoio a outrem é tão desconfortável que pode até trazer sensações físicas de mal estar.

Quem conseguiu identificar essa relação muito bem foi o psicólogo Stanley Milgram (pesquisador que ficou famoso por um experimento de obediência e autoridade em 1961, conhecido por Experimento de Milgram). Em um de seus testes, o estudioso estimulou algum de seus alunos – que serviam como voluntários – a irem aos metrôs e pedir para sentar em assentos que já estavam tomados por outras pessoas. Esse pedido fazia com que muitos dos participantes se sentissem traumatizados. “Eu fiquei com medo de vomitar”, disse um deles ao jornal The New York Times.

O próprio Milgram decidiu praticar o ato e analisar suas sensações. Porém, assim como seus alunos, o psicólogo congelou no momento de pedir pelo assento.

“As palavras pareciam estar alojadas na minha traqueia e simplesmente não saiam para fora”, contou em entrevista.

Após diferentes tentativas sem sucesso, quando, por fim, ouviu de um indivíduo que poderia sentar no banco dele, o desconforto foi ainda maior.

“Ao pegar o banco do homem, eu fiquei arrebatado com a necessidade de ter que me comportar como se de fato eu precisasse me sentar. Afundei minha cabeça em meus joelhos e senti meu rosto ficar pálido. Eu não estava atuando. Eu estava realmente sentindo como se fosse perecer”, relembra.

De acordo com Grant, essa sensação ruim pode ser explicada com base no comportamento social que foi implantado em nosso cérebro durante a evolução humana.

Assim como outros primatas, os seres humanos são animais sociais inerentes que necessitam do suporte de sua família e tribo para sobreviver. Como forma de garantir esse apoio, nós desenvolvemos respostas psicológicas (semelhantes à dor) que são sinalizadas quando corremos risco de ser expulsos de nosso círculo social. Ou seja, esses traços podem surgir quando nos sentimos a ameaça de perder nossa posição social, tememos ser excluídos pela tribo e também quando nos amedrontamos com uma possível incerteza ou rejeição.

Isso quer dizer que quando nos sentimos desprezados, criamos um grande sofrimento dentro de nós – e esse é um sinal de que precisamos alterar nosso comportamento para ser aceito no núcleo social mais uma vez.

Pedir ajuda nesses momentos em que estamos para baixo nos deixa expostos a inúmeras ameaças sociais, e é daí que vem o desconforto.

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Segundo a psicóloga, a busca por apoio pode indicar fraqueza, vir acompanhada da sensação de diminuição de status e até servir como um convite para o outro conhecer nossos traços desprezíveis – tudo abre espaço para uma possível rejeição social.

“É de se esperar, portanto, que evitemos pedir ajuda como se isso fosse um pecado”, afirma Grant.

Todavia, essa barreira que criamos é muito negativa. Conforme estudo realizado na Universidade de Cornell (Nova York), é muito raro que um pedido de ajuda venha acompanhado de quaisquer um dos cenários negativos apresentados acima. Na pesquisa, em 14 mil casos realizados em que voluntários pediam ajuda a estranhos, eles tiveram o dobro de chance de serem auxiliados do que eles imaginavam.

Ou seja, é muito mais fácil conseguir ajuda do que pedir.

9 formas para lidar com o sentimento de solidão

A internet nos conectou de várias formas, mas nem por isso deixamos de nos sentir sozinhos. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos mostra que quase metade das pessoas se sentem sozinhas (46%) ou abandonadas (47) às vezes ou sempre. O estudo, organizado pela empresa de seguro de saúde Cigna, também revelou que um a cada quatro norte-americanos raramente ou nunca sente como se houvessem pessoas que as compreendessem.

Para aprender a lidar com essa sensação, o site The Cut conversou com sete terapeutas, psicólogos e assistentes sociais sobre o assunto. Confira o que cada um deles tem a dizer.

1 - Descubra o motivo da sua solidão

O principal conselho dado às pessoas que se sentem sozinhas é que elas superem a solidão. Mas a psicóloga Juli Fraga insiste que, para isso, primeiro é necessário saber o que causa esse sentimento. “Se você se sente sozinho porque falta profundidade e significância em suas reações, ou você sente que pessoas, inclusive amigos, não te conhecem de verdade, pode fazer sentido examinar o que está interferindo no jeito de construir intimidade”, diz. "Uma vez que você identificou a razão pela qual você se sente sozinho, você pode aprender a remediá-la.”

2 - Divirta-se sozinho

“Muitas pessoas desejam uma companhia — quase que a companhia de qualquer um — porque elas têm medo do vazio e do desconforto de quando estão sozinhas”, afirma Sherry Amatenstein, autora do livro How Does That Make You Feel?. “Mas se juntar aos outros como uma tentativa desesperada de estar acompanhada de alguém só te deixará se sentindo mais sozinho.”

Inclua na sua rotina atividades que te deem a oportunidade de aproveitar a sua própria companhia. Faça coisas libertadoras, inspiradoras e significativas, que você nunca faria acompanhado de alguém.

3 - Construa amizades

Geralmente, são necessárias seis ou oito conversas com alguém para que essa pessoa realmente te considere um amigo. “Tem sido mostrado repetidamente que, conforme nós somos mutuamente gentis uns com os outros, nos tornamos amigos das pessoas que vemos com mais frequência. Proximidade e repetição são as chaves”, afirma Ellen Hendriksen, psicóloga e autora do livro How to be Yourself. Afinal, amizades não são feitas instantaneamente.

4 - Use a internet a seu favor

Outra dica de Braga é usar as informações que estão nas redes sociais para começar a interagir de forma saudável com as pessoas. Puxe conversa com amigos quando se deparar com alguma publicação deles e aproveite para combinar um encontro pessoalmente, por exemplo.

5 - Converse com desconhecidos

Puxe conversa com as pessoas que você encontrar no seu dia a dia. “Não pense nisso como um jeito de começar uma longa conversa, mas como uma forma de tornar aquelas breves e aparentemente impessoais interações um pouco mais amigáveis e convidativas”, explica o psicólogo clínico Darin Bergen.

Comente sobre o tempo ou notícias. Conforme for praticando, você poderá aumentar sua rede de contatos e se sentir mais seguro para se conectar com pessoas com as quais você queira construir uma amizade.

6 - Visite sua família

A conselheira Kathleen Smith, autora do livro The Fangirl Life, sugere aos seus clientes que eles revejam suas famílias e pensem na importância delas. “Quando as pessoas começam a escrever cartas para os avós ou a ligar semanalmente para um primo, isso pode ter um grande impacto no humor geral delas”, afirma.

7 - Tenha um animal de estimação

Esta é mais uma dica da psicóloga Juli Braga: “Passar o tempo com um animal de estimação pode ajudar a combater sentimentos de solidão ao nos dar uma explosão de ocitocina [popularmente conhecido como o hormônio do amor]”.

8 - Aceite seu estilo de vida

Se você não é uma pessoa expansiva, não compare a sua vida social com a de pessoas extrovertidas. Isso apenas trará uma sensação de insegurança e desvalorização para você. “Introvertidos não precisam ter um grande grupo de amigos que querem sair o tempo todo. Seja verdadeiro consigo mesmo. Você pode ter um grupo menor de amigos, aproveitar o seu tempo sozinho e ainda estar longe da solidão”, explica Jim Seibold, terapeuta familiar e de casais.

9 -  Persiga objetivos, não pessoas

Seibold ainda aconselha que você se dedique a tópicos do seu interesse, assim, consequentemente você encontrará pessoas que estejam em sintonia com o que você pensa e gosta. Estudar e voluntariar-se em algo são algumas sugestões do terapeuta para fazer boas companhias espontaneamente.

A assistente social Hilary Jacobs Hendel, autora de It’s Not Always Depression, também recomenda que você encontre atividades e interesses que possam te colocar em contato com novos grupos de pessoas.

“Por exemplo, se você gosta de esportes, entre para o time local.Se você gosta de escrever, participe de um grupo de escrita criativa”, indica.


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