Semana On

Sábado 05.dez.2020

Ano IX - Nº 422

Coluna

A real sobre o casamento real

Porque tanta gente ama (e odeia) os frufrus dos gringos

Postado em 18 de Maio de 2018 - Rodrigo Amém

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Assim que algo vira notícia e "viraliza", leva em média uns 2 dias para que os "do contra" formem sua ofensiva. Imagino que é o tempo que necessário para os trolls profissionais organizarem a argumentação e gerar os memes. No último sábado, a coroa britânica celebrou o casamento do Príncipe Harry e Meghan Markle. Teve transmissão ao vivo, streaming e, é claro, comentários na internet. E tudo foi motivo de comentário: o vestido, o fato de Meghan ter omitido "obediência" de seu voto matrimonial e as fofices da princesa Charlotte como daminha de honra. Tudo inócuo e singelo, como pede a tradição da surrado "casamento de conto de fadas"

Antes mesmo do prometido terceiro dia, os detratores do casamento real chegaram com as também surradas cartadas. "Que absurdo, com tanta gente passando fome", ou "essa gente saqueou o mundo e agora todo mundo baba ovo pra eles". Só li verdades, mas verdades míopes.

A Inglaterra tem muito por responder pelas atrocidades cometidas nas suas colônias, e talvez jamais o faça a contento. Tem muita gente passando fome no mundo, mas não seria correto dizer que o casamento real é o empecilho para a solução desse problema. Assim como a Capela Sistina também não impede a Igreja Católica de alimentar os pobres. Assim como o Universo Cinematográfico de Edir Macedo não impede a Igreja Universal de estender a mão aos seus devotos.

O caso é que tanto a Igreja quando a Coroa sabem algo sobre seus seguidores que eles mesmos se recusam a admitir.

A série "The Crown" no Netflix - uma boa opção para quem já passou da fase de Casa de Papel - tem muitas cenas memoráveis, mas uma delas é particularmente esclarecedora.

Sem entrar no terreno dos spoilers, um dos personagens comenta a cerimônia de coroação da Rainha Elizabeth, a protagonista da trama. Diante de uma plateia rica e blasé, o personagem analisa os ritos reais: "Uma inacreditável teia ancestral de mistério e liturgia que nenhum historiador, clérigo ou jurista será jamais capaz de desmembrar". Ao que um bisavô de troll de facebook interrompe: "Isso é loucura!"

Sem perder tempo, o primeiro responde: "Pelo contrário. É perfeitamente racional. Quem quer transparência quando se pode ter mágica? Quem quer prosa quando se pode ter poesia? Se retiramos o véu, o que temos? Uma garota comum, de capacidade modesta e pouca imaginação. Mas paramentada e ungida desta forma, temos uma deusa."

A monarquia e seus ritos e tradições podem parecer antiquados, mas não são absurdos. Podem parecer ilógicos, mas não são inúteis.

Os países onde a monarquia representativa se mantém viva costumam ter um passado de tragédias, marcado por momentos sombrios, guerras, peste e fome. Onde qualquer coisa que se assemelhe a ordem e estabilidade é visto como um farol, uma bússola guiando para dias melhores. E a família real cumpre esse papel. Para o bem e para o mal.

Os súditos não necessariamente acreditam na natureza mágica de seus monarcas. Mas eles entendem a relevância desse credo. Sabem que, sem ele, restam apenas representantes "de capacidade modesta e pouca imaginação".

Pior somos nós, brasileiros marrentos, republicanos, presidencialistas e democratas, que teimamos em votar em qualquer vigarista com pinta de príncipe encantado. A gente também prefere mágica a transparência. A gente também prefere mito à realidade. A gente morre é de inveja.


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