Semana On

Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

Chuva e cantoria na aldeia dos mortos, sobre comunidade indígena brasileira, é premiado em Cannes

Documentário conquistou o prêmio do júri da mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes

Postado em 18 de Maio de 2018 - Redação Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O filme "Chuva e cantoria na aldeia dos mortos", sobre os indígenas brasileiros da etnia Krahô, conquistou nesta sexta-feira o prêmio do júri da mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

A cineasta brasileira Renée Nader Messora e o português Joao Salaviza (Palma de Ouro de Melhor Curta-Metragem em 2009 por "Arena"), gravou o filme durante nove meses, depois de ter passado longas temporadas com esta comunidade de 3.500 pessoas, no estado do Tocantins.

O filme contou com os membros da comunidade interpretando eles mesmos e falando em seu próprio idioma, o que fez das gravações uma façanha.

No tapete vermelho do Festival, o elenco protagonizou um protesto na quarta-feira para denunciar "o genocídio" dos indígenas no Brasil.

Iniciada com um protesto nas escadarias do Palais des Festival em prol da demarcação das terras indígenas e do fim dos etnocídios, a sessão da coprodução luso-brasileira na mostra Un Certain Regard do 71º Festival de Cannes, terminou com um desabafo de um veterano crítico francês: “Não há razão de um filme bonito como esse não estar concorrendo, sobretudo diante de tanta bobagem que foi indicada este ano por aqui”.

Metros adiante, um resenhista espanhol disse o mesmo: “Em 30 anos de carreira, eu nunca vi uma abordagem da realidade dos índios tão íntima e tão poética”. O aplauso vigoroso no fim da exibição já era indício de algo positivo para este ensaio metafísico sobre o virtude e o fardo de tradições e rituais entre o povo Krahô, rodado por Messora e Salaviza em terras do Tocantins, em película 16mm.

“Estive lá em 2009, para trabalhar num filme sobre o registro de uma festa de fim de luto, ritual feito um ano depois de uma morte, e acabei me encantando por aquele universo”, disse Renée, antes da exibição, quando ela e seus colegas exibiram cartazes cobrando o fim do genocídio indígena e a proteção do espaço dessas populações. “A ideia de ‘Chuva...’ é ser um filme horizontal sobre as transformações de uma espécie, feito com os Krahô, mas como ficção”.

A partir de uma delicadíssima construção visual, pautada por uma aproximação suave entre a câmera e os corpos dos índios, Renée e Salaviza acompanham a luta do jovem Ihjãc (Henrique Ihjãc Krahô) para lidar com um ritual funeral que exige dele um entendimento da permanência e da finitude. É um filme filosófico, de ritmo lento, mas de uma beleza plástica arrebatadora, que abre uma cultura distante para as plateias de Cannes. É o longa de maior cacife entre os concorrentes da Un Certain Regard, que serão julgados por um júri presidido pelo ator Benicio Del Toro. Seu título internacional é The Dead and The Others. Vale lembrar que um outro longa nacional sobre índios, o documentário Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi, foi premiado com uma menção honrosa no Festival de Berlim.


Voltar


Comente sobre essa publicação...