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Ano VI - Nº 308

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Auau Miau

Amor não segue regras

Críticas a quem se considera mãe e pai de seus pets mostram como o especismo insiste criar regras para o amor

Postado em 16 de Maio de 2018   - Redação Semana On

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No último dia 14, um post da página humorística “De boas na revolução”, no Facebook, provocou uma enxurrada de comentários e compartilhamentos. O post (abaixo) tratava fazia uma crítica irônica a quem se dizia “pai e mãe” de cachorros. Até o fechamento desta edição, a postagem havia amealhado quase 40 mil reações e mais de 20 mil compartilhamentos, além de milhares de comentários, a maioria a críticos aqueles que aproveitaram a ironia da página para afirmar que o amor a um filho não pode ser comparada ao amor a um animal e, até mesmo, condenar quem assim se posiciona.

Alguns comentários mostravam como o especismo é disseminado no senso comum. "Mãe de pet...  Você deixa seu filho o dia todo preso em casa com uma vasilha de água e outra de comida e ele te espera chegar numa boa? Se vc fizer isso com o seu filho que nem faz com o cachorro, ai ok, ‘mãe de pet’”, disse uma jovem. “Sério que querem comparar cuidar de um humano de cuidar de um bicho?”, retrucou outra. “O que tem a ver uma coisa com a outra? Quem adota uma criança é mãe sim. Mas comparar criança com cachorro não dá né...”, argumentou uma terceira.

Entre os muitos comentários especistas, alguns (como a postagem abaixo) demonstravam incapacidade de compreender que o amor não deve ter barreiras. Nenhuma barreira.

Amor anterior a maternidade

Passar noites em claro, deixar de viajar ou de ir a festas, entender olhares. “Existe  diferença ente ser mãe de bicho e mãe de gente?”, questiona  a apresentadora e ativista Luisa Mell.

Em depoimento ao blog Bom pra Cachorro, para marcar o Dia das Mães, ela explica essa relação de amor.

“Foi bem antes do meu Enzo nascer que me tornei mãe”, afirma.  “Quando fiquei grávida, diziam que eu conheceria finalmente o que era ser mãe. Mas se enganaram. Eu já conhecia a fundo o que é ter um coração que bate fora do peito.”

Leia a íntegra:

*

Existe diferença ente ser mãe de bicho e mãe de gente?

Para muitas pessoas ainda é vergonhoso chamar cachorro de filho. Mas foi bem antes do meu Enzo nascer que me tornei mãe.

Me tornei mãe nas noites que passei em claro cuidando das dores dos meus peludos, nas vezes que deixei de viajar, de ir a festas e compromissos porque não tinha com quem deixá-los.

Me tornei mãe quando entendi tudo dentro de um olhar. No momento que percebi que eu era única e fundamental para que eles ficassem felizes e seguros.

Me tornei mãe quando escolhi a casa que iria morar pensando neles, não em mim.

Percebi que era mãe, quando confessei que só poderia namorar alguém que estivesse disposto a ser pai dos meus cachorros.

Quando fiquei grávida, diziam que eu conheceria finalmente o que era ser mãe. Mas se enganaram. Eu já conhecia a fundo o que é ter um coração que bate fora do peito. Já era intima do amor puro e incondicional. Já sabia muito sobre a dificuldade e a importância de educar.

Mas eu finalmente descobri a diferença entre ser mãe de gente e mãe de bicho. Um filho bicho você cria para você.  Educa para que ele seja seu bom companheiro e o ensina a viver sempre ao seu lado. Filho gente, você cria para o mundo. Educa para que seja uma boa pessoa e o prepara para viver sem você.

Mãe de filho bicho reza para poder cuida-lo na velhice e segurar sua pata quando a morte dele chegar.

Mãe de filho gente, reza para morrer primeiro e sonha que seu filho segure sua mão quando sua hora chegar.

Foi assim que compreendi a dimensão e entrega deste amor.

Amor sem fronteiras

“Sempre tive animais de estimação, mas, agora, algo mudou”. Assim, Neila Caputo diz como é se sentir mãe de seus dois cãezinhos: Pérola Carolline e Gregório Aparecido. Adotados após viverem nas ruas de Belo Horizonte, hoje eles são conhecidos nas redes sociais pelas fotos bem humoradas e posts fofos, inclusive quando falam sério.

Em entrevista ao blog Bom pra Cachorro, da jornalista Lívia Marra, Caputo conta que tudo começou com Pérola, que buscou refúgio na porta da casa da Neila em um dia de chuva. Adotada, a cadela passou a acompanhar a tutora em corridas matinais e ganhou o título de musa fitness, por compartilhar imagens e dicas de saúde. Mas, depois, veio Gregório para completar a família —e se juntar ao perfil da irmã de quatro patas.

Além de muito amor, ser mãe de pet inclui as preocupações com saúde e bem-estar do bichinho. Neila fez cursos de alimentação natural, já que Pérola teve intolerância a ração. Recentemente, o susto foi com Gregório, que começou a apresentar coceiras, feridas e houve até suspeita de leishmaniose —exames comprovaram problema renal.

“Esse susto que passei com o Greório. […]  me ensinou que não podemos deixar pra amanhã aquele passeio, aquela brincadeira, aquele abraço, aquela bagunça em cima da cama”, diz Neila em relato ao blog para marcar o Dia das Mães. Para ela, esse amor deve se estender às pessoas. “É preciso ser mãe de todos.”

Leia a íntegra:

*

Quem nunca ouviu a frase: “você só saberá o que é amor de mãe quando se tornar uma”? E é verdade.

Quando criança, sempre tive animais de estimação e os amei muito, mas, agora, algo mudou. Em uma noite de chuva, ao chegar do trabalho, me deparei com um cãozinho deitado no tapete da minha porta. Tão debilitada, magrinha e com olhos de esperança que fizeram meu coração sorrir. 

Foi assim que conheci a Pérola. Naquela noite algo mudava em mim. Não era mais uma criança e seu cachorrinho, era alguém responsável por uma vida. 

Pérola crescia em tamanho e doçura, se tornou minha parceira das corridas matinais. Acompanhada por uma veterinária, passou a usar alimentação natural devido a problemas de intolerância com ração. Fiz cursos sobre o assunto, fico imensamente feliz em vê-la se alimentando com as refeições que eu mesma preparo.

Depois, através de rede social, meu marido e eu vimos a foto de um cão, de aproximadamente três anos, que estava para adoção. Foi assim que o Gregório completou nossa família.

Consequência do tempo que morou nas ruas, seu estado de saúde sempre foi frágil. Além das coisas proibidas que comia escondido, ele é asmático e muito alérgico. Em abril, após apresentar uma coceira intensa, a veterinária examinou e passou algumas medicaçãoes. Como teve  reação adversa a uma delas, voltamos à médica, esta solicitou exame de sangue, pois apareceram muitas feridas pelo corpo e ele perdeu peso consideravelmente. 

Apesar de serem vacinados, houve uma suspeita de leishimaniose. Foram feitos todos os testes, que deram negativos. Mas a pesquisa continuou com uma ultrassonografia e demais exames. Então, na somatória de resultados, Gregório foi diagnosticado com um problema renal, já está em tratamento. A dieta mudou um pouco e foram acrescentados suplementos vitamínicos de acordo com prescrição.

Atualmente, sabemos que leishimaniose tem tratamento, mas muitas pessoas ainda ignoram esse fato. Lembro muito bem de uma pessoa que me falou: “Coitado! Vai ter que sacrificar”!

Quando ouvi isso, perdi meu chão, apesar de saber do tratamento. Mas à sombra de perder alguém que se ama, tudo fica escuro e vazio. O que não me deixou paralisar foi o amor que crescia e cresce em mim, eles me nutrem.

Recebemos muitas mensagens carinhosas dos amigos das redes sociais, compartilhamos informçãoes e trocamos experiências. É um tipo de contato que muito acrescenta.

Esse susto que passei com o Greório, essa doçura do apoio da Pérola —que parecia compreender tudo—, me ensinou que não podemos deixar pra amanhã aquele passeio, aquela brincadeira, aquele abraço, aquela bagunça em cima da cama.

Hoje, pelo amor que sinto por eles, sei que vieram aqui para me mostrar que, com esse mesmo amor, é preciso amar as pessoas também. É preciso ser mãe de todos.


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