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Domingo 20.mai.2018

Ano VI - Nº 303

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Brasil

Negros ganham R$ 1,2 mil a menos que brancos em média no Brasil

Negros têm índices de educação mais baixos e condições de vida mais precárias, apontam dados do IBGE

Postado em 13 de Maio de 2018   - Clara Velasco e Celso Tavares - G1

Eliad e uma conhecida ficaram desempregadas na mesma época. Uma amiga em comum resolveu ajudar. Encaminhou uma vaga de coordenadora de um projeto social em uma instituição pública para a conhecida. Para Eliad, ofereceu trabalho na sua casa, como doméstica. Eliad é negra; a conhecida, branca.

“Quem tinha expertise para trabalhar como coordenadora de um projeto era eu. Mas eu fiquei ali como doméstica. Precisava trabalhar, tinha uma filha para sustentar. É assim que as coisas funcionam”, diz Eliad dos Santos, de 52 anos.

Eliad tem mestrado em Teologia e História, estudou na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e já assessorou e coordenou diversos projetos sociais, principalmente envolvendo temáticas de gênero e raça.

Por conta de sua alta escolaridade, ela acaba se sobressaindo em relação à média de negros no país, que têm índices de educação mais baixos. Mas afirma que, em muitas situações, o preconceito é mais forte que os seus diplomas. “O Brasil é muito cruel nesse sentido, desse racismo velado. É muito difícil mesmo”, diz.

De acordo com dados do IBGE, os trabalhadores negros ganham cerca de R$ 1,2 mil a menos que os brancos em média. Os dados são do 4º trimestre de 2017 e fazem parte da Pnad Trimestral, que disponibiliza informações desde 2012. Os números mostram que, entre 2012 e 2017, não houve nenhuma mudança substancial na diferença de rendimento entre negros e brancos.

Especialistas apontam que desigualdades históricas estão por trás das grandes disparidades enfrentadas pelos negros no mercado de trabalho. O menor acesso à educação é um deles, bem como condições de vida mais precárias.

O preconceito e o racismo são o outro lado dessa “herança” centenária, que remete, ainda segundo especialistas, ao período de escravidão.

Há exatos 130 anos, a prática de comprar e vender outras pessoas foi abolida do país com a Lei Áurea, assinada no dia 13 de maio de 1888. Os negros, porém, foram escravos no país durante mais de 300 anos, um período marcado por diversas revoltas, mas também pela naturalização da servidão, segundo Maria Helena Machado, professora da Universidade de São Paulo especialista na história social da escravidão.

“No Brasil, a escravidão permeou a sociedade toda. As pessoas viviam com a escravidão de maneira muito naturalizada. Quando uma sociedade é construída sob uma base dessas, a mudança é bastante longa e difícil, é árdua”, diz a professora.

“130 anos é muito pouco para um país onde todo mundo era dono de escravo”, diz Maria Helena Machado, professora da USP.

Segundo Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, a desigualdade no país é histórica. “A forma como houve o processo de colonização do país mais esse processo de escravidão acabam por trazer uma herança muito forte”, afirma.

Segundo Azeredo, a forma como os escravos foram libertados em 1888, sem nenhuma política pública de apoio aos emancipados, diz muito sobre o processo de integração da população de cor preta ou parda na população. “A falta de acesso à educação vai remeter à entrada em postos de trabalho de baixa qualidade e à dificuldade de se inserir no mercado de trabalho.”

Essa herança, segundo Azeredo, fica clara nos números. Considerando os 10% da população com os maiores rendimentos no Brasil, 8 a cada 10 são brancos. Já entre os 10% mais pobres, a proporção se inverte: 8 a cada 10 são negros.

Além da diferença média no salário, há mais trabalhadores negros sem carteira assinada que brancos — 21,8% e 14,7%, respectivamente. A desocupação desagregada por cor de pele também mostra que a taxa das pessoas que se declaram brancas (9,5%) é bem mais baixa que a das que se declaram pretas (14,5%) e pardas (13,6%).

Já entre os índices de educação, os negros também estão abaixo. Apenas 8,8% da população negra com mais de 25 anos frequentou uma faculdade. Para a população branca, esse índice é de 22,2%.

Azeredo destaca que, nos últimos anos da história do país, políticas afirmativas, como cotas em serviços públicos e universidades, foram feitas para tentar diminuir as desigualdades raciais e tornar a entrada de negros no mercado de trabalho mais igualitária. Mas ainda não é possível perceber uma redução na diferença do rendimento médio de brancos e negros.

“Pelo menos nas últimas duas décadas, não percebemos uma redução nessa diferença salarial”, afirma. “A desigualdade já é muito cultural no país.”

Experiências negativas no mercado de trabalho

Mesmo quando conseguem ter acesso à educação e se inserir no mercado de trabalho, porém, negros relatam situações de dificuldade por conta de preconceito, mostrando um outro lado da desigualdade cultural a que Azeredo se referiu — aquela que diz respeito não apenas às desigualdades sociais a que negros vivem no país, mas a que reforça estereótipos e racismos.

Willian Carvalho, de 21 anos, conta que conseguiu chegar à faculdade “resistindo” contra esses preconceitos. O estudante, que mora com a família em Perus, bairro da periferia da Zona Norte de São Paulo, diz que gosta de arquitetura e arte desde os 13 anos.

Um primo arquiteto já tinha lhe alertado que seu caminho profissional não seria fácil. “O que me deixava mais triste é por ele sempre reforçar: ‘não vai ser fácil porque você é negro’.”

Hoje, anos depois, ele entende o que seu primo queria dizer. “Criei minha empresa e comecei a pegar projetos. Mas tive a maior dificuldade, pois, quando falava com cliente por e-mail, era uma coisa. E aí quando eu chegava e eles viam que eu era negro, mudava completamente a atitude. Aquela educação formal caía”, diz.

Segundo ele, sua maior dificuldade no mercado de trabalho é provar que é capacitado.

“A gente sempre tem que estar provando dez, mil vezes que somos capazes, que nós tivemos a formação. ‘Você é negro design? Tem alguma coisa errada.’ Não, é possível também”, diz o estudante Willian Carvalho.

Ellen dos Santos, engenheira de computação de 32 anos, conta que passa pela mesma situação. Uma colega se mostrou muito surpresa ao saber da sua formação. “Ela arregalou o olho e falou: ‘Nossa, você fez engenharia?’ Como se eu não fosse capaz.”

Eles contam que as dificuldades não se concentram apenas no ambiente de trabalho, mas no próprio processo de entrada no mercado. “Teve um constrangimento que passei, que fui para uma entrevista de trabalho de trança e ele falou: ‘Olha, não tem como você trabalhar de trança aqui nessa empresa’. E eu perguntei: ‘Por quê?’. ‘Ah, o padrão.’ Quando ouvi essa palavra, já falei: ‘Não vou passar, infelizmente’”, conta Willian.

Eliad diz que sua primeira experiência negativa começou cedo. “Eu tinha de 14 para 15 anos. Eu ouvi alguém dizendo que tinha um dentista que precisava de uma secretária. Eu liguei antes de sair de casa e a moça falou: ’Pode vir que a gente faz uma entrevista’. Quando eu cheguei, ela me olhou assim e falou: ‘Ah, que pena, ele acabou de contratar uma pessoa’. E eu falei: ‘Mas eu acabei de ligar’. ‘Ah, mas ele acabou de contratar’. Aí eu desci no orelhão, mudei de voz e liguei perguntando da vaga. E ela: ‘Ah, pode vir’”, conta.

“Você entrega currículo, quando chega no lugar, as pessoas te olham, dão aquela desculpa. Você nunca é qualificada”, diz Eliad dos Santos.

Para as mulheres negras, Ellen e Eliad afirmam que a dificuldade está também no fato de que, geralmente, elas são ligadas a perfis de emprego doméstico. “Eles associam a mulher a esse estereótipo de que ela serviria apenas para limpar ou para cozinhar”, diz Ellen.

Eliad conta que já foi confundida com funcionária de limpeza diversas vezes. “Eu fui em vários lugares como pastora ou representando algum lugar, e quantas pessoas chegaram e falaram: ‘Será que você pode tirar o negócio ali para mim? Será que você pode pegar o negócio que caiu no chão?’. E eu nem estava de uniforme, estava de salto”, diz.

“Nós fomos o último país a abolir a escravidão. Então, mesmo tendo passado tantos anos, as pessoas associam negros a servidão”, diz Eliad. Ellen concorda: “Acho que isso ainda está muito enraizado e acredito que seja por consequência da escravidão”.

130 anos de emancipação

Segundo Maria Helena Machado, o processo de emancipação dos negros explica a manutenção de certas desigualdades na sociedade brasileira atual. Ela afirma que, mesmo antes de 1888, era uma prática normal escravos comprarem ou fazerem acordos para conseguir a alforria.

Escravos juntavam dinheiro obtido através de trabalhos secundários, como o de venda de cultivos próprios, para conseguir comprar sua liberdade. Muitos passavam anos ou mesmo décadas pagando essa alforria ou trabalhando para finalizar a dívida estabelecida pela liberdade.

Uma carta disponibilizada pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, por exemplo, expõe a concessão de liberdade ao escravo de nome Geraldo, um lavrador de 42 anos casado com uma mulher liberta, mediante a prestação de serviços a Antonio Joaquim de Souza Costa na Fazenda da Ponte Nova, em São Paulo, por um período de seis anos. A carta é de 1882, seis anos antes da abolição.

“Muitos saíam da escravidão totalmente depauperados. Esse processo de compra impõe condições de dependência. Mulheres, por exemplo, se tornavam criadas, amas de leite. E o sistema do trabalho doméstico é altamente escravista”, diz a professora. Outros, segundo ela, acabavam realizando trabalhos muito semelhantes, senão piores, aos que realizavam quando eram escravos.

“Não se produziram políticas públicas que acolhessem ou que indenizassem o próprio escravo. Foi um sistema indenizatório para os senhores”, diz Maria Helena Machado.

“Você tem um sistema que favorece a manutenção de formas de discriminação do trabalhador e, ao mesmo tem, se vulgarizam teorias raciais que asseguram que o homem e a mulher negra são inferiores e que seus lugares são sob domínio, sob controle.”

O próprio movimento abolicionista, segundo Machado, era muito mais pautado na questão do progresso e de livrar o Brasil de uma ideia ultrapassada como a escravidão. “Não era favorável à população afro. Os próprios abolicionistas em sua maioria eram racistas. Eles queriam modernizar o país, pois o Brasil era mal visto porque tinha escravidão. A igualdade não estava na pauta dos abolicionistas, com raras exceções”, diz a professora.

Ela destaca, porém, que o 13 de maio significa muito. “A lei não permitia mais que uma pessoa fosse comprada e vendida por outra. Mas a maneira como foi realizada, com seus muitos acidentes e manipulações, sem política públicas, gera essas enormes distorção e desigualdade que a gente tem até hoje.”

Segundo a professora, essa perpetuação das desigualdades se dá por meio de concessões e novas roupagens. Ou seja, as desigualdades não são iguais, mas, de acordo com ela, há uma opção por mantê-las. “Há um sentimento, uma maneira de agir generalizada que é produto dessa sociedade escravocrata que nós vivemos no passado.”


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