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Ano VI - Nº 312

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Karl Marx: conheça a vida e a obra do pensador alemão

Fatos e a trajetória do pensador cujas ideias impactam o mundo até os dias de hoje

Postado em 09 de Maio de 2018   - Vitória Batistoti – Galileu

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“A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”, proferiu o alemão Karl Marx, ainda no século 19, embora essa e outras frases de sua autoria continuem ecoando nos dias atuais.

A atemporalidade característica de suas ideias e discursos são uma das razões para que Marx, o grande idealista do comunismo, seja

considerado um dos maiores pensadores da humanidade.É justamente por isso que, mesmo dois séculos após seu tempo

em vida, o filósofo, sociólogo e jornalista continua a ser celebrado.Para a ocasião, separamos fatos e curiosidades sobre a vida e o trabalho de Karl Marx, coletados a partir da obra Marx: uma biografia em quadrinhos (editora Boitempo, R$ 45, 64 páginas), de Anne Simon e Corinne Maier, e de Karl Marx: uma biografia dialética (Editora Prismas, R$ 88, 352 páginas), primeira biografia stricto sensu escrita por um historiador brasileiro, o professor de história contemporânea da USP, Angelo Segrillo.

Nascimento e infância

Marx nasceu em 5 de maio de 1818 em Tréveris, uma pequena cidade da Renânia, que vivia sob domínio da Prússia, reino da Alemanha. Isso quer dizer que, em termos gerais, Marx tinha nacionalidade alemã, por mais que fosse renegar sua pátria no futuro e passasse a viver grande parte de sua vida em Londres, no Reino Unido.Marx foi um dos nove filhos de um casal de rabinos de classe média. Naquela época, o povo judeu era proibido de exercer certas profissões. Foi por isso que seu pai, Heinrich Marx, renunciou à religião judaica e converteu-se ao luteranismo para seguir atuando como advogado.

O pai foi sua maior influência familiar. Apesar de ser politicamente conservador, estava sempre aberto às questões filosóficas e participava de círculos de intelectuais junto a um amigo, Ludwig von West

phalen, outro homem a quem Marx filho nutria admiração (inclusive, sua tese de doutorado foi dedicada à von Westphalen).Devido a amizade dos patriarcas, os filhos das famílias Marx e von Westphalen conviviam muito próximos, como era o caso de Karl e Jenny, que brincavam durante a infância e acabaram por se casar em 1843.

Educação

Durante o ensino infantil, Marx frequentou um Ginásio que tinha uma linha educacional muito próxima aos ideias iluministas franceses. Esse ambiente de conhecimento chamou a atenção do governo prussiano, que não enxergava com bons olhos a liberdade e os ideais discutidos ali.Em 1835, o jovem Marx deu início à vida universitária. Optou pelo curso de direito, assim como seu pai, como uma chance de garantir uma melhor qualidade de vida à sua família. Foi estudar na Universidade de Bonn, na Alemanha, e ali se aventurou durante a juventude: escreveu poesias (ele participava de um clube de poesia para e

studantes), foi a festas e abusou um pouco do álcool (Marx era membro de uma associação recreativa de noites de boêmia, por meio da qual entrou em uma

briga com um grupo rival). Após esse episódio em especial, seu pai decidiu transferir o filho para a Universidade de Berlim.Apesar de tudo isso, Marx era um aluno dedicado. Cursava muitas disciplinas, prin

cipalmente optativas de filosofia, história da arte e mitologia grega.Uma vez na Universidade de Berlim, Marx conheceu a linha de trabalho do filósofo alemão idealista Friedrich Hegel, cujas ideias lhe inspiraram muito naquele momento, mas com as quais iria romper no futuro.O interesse por filosofia preocupava o pai de Marx, que deseja um futuro promissor na área de direito para o filho. Todavia, em 1838, ano em que o patriarca faleceu, Marx decidiu desistir do cur

so de direito e embarcar na área de filosofia. Em 1841, termi

nou seus estudos na Universidade de Berlim, mas foi desligado por ter excedido o número limite de semestres e não ter requisitado um prolongamento de prazo. Assim, adquiriu somente certificado das aulas assistidas.Por outro lado, Marx já havia escrito uma tese de doutorado (A Diferença Entre a Filosofia da Natureza em Epicuro e Demócrito) e a enviou à Universidade de Jena, adquirindo, naquele mesmo ano, o título de doutor em filosofia.

Contato com o jornalismo

Mesmo com um título de doutor, Marx não conseguiu ingressar na carreira acadêmica e virar professor universitário, seu sono profissional. O que o filósofo conseguiu foi escrever artigos como colaborador para diferentes jornais. Um deles era a Gazeta Renana, veículo em qual se tornou redator-chefe.

A Gazeta de Renana, por sua vez, era um jornal liberal, que lutava por uma Prússia constitucional e denunciava a ditadura do rei. Marx, em particular, deixava transparecer em seus artigos o desejo por democracia. Por conta desses ideais propagados em suas páginas, o veículo foi alvo de censura do regime prussiano e, em 1843, foi fechado.

Vale ressaltar que até aquele momento Marx não era comunista. Ele acreditava na ideologia de Hegel: a realidade se move através de embates (tese, antítese e síntese) e de confrontos, os quais são amplamente idealistas, ou seja, que ocorrem no campo das ideias.

Guinada para o comunismo

Vítima da censura e expulso de seu país, em 1843, Marx se mudou com a família para Paris, e passou a escrever para o jornal Anais Franco-Alemães, veículo em prol da democracia.

“É nesse mesmo ano que Marx conhece a realidade operária de fato, e entra em contato com organizações de trabalhadores. Assim, suas ideias que eram muito abstratas ganham concretude”, explica o professor Angelo Segrillo, da USP.

Marx percebe, então, que as transformações sociais não acontecem no campo das ideias, mas no campo material e real. O filósofo também vê que o Estado prussiano, o mesmo que o censurou, não era uma evolução da democracia, mas uma instituição injusta.

Enquanto estava na capital da luz, Marx conheceu diversos intelectuais do período: o anarquista russo Mikhail Bakúnin, o filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon e o alemão Friedrich Engels, com quem iria travar grande amizade e parceria.

Junto a Engels, Marx nota que só seria possível libertar a humanidade da miséria, da exploração, do desemprego e das desigualdades – problemas que, segundo ele, eram resultados do capitalismo – através de uma transformação social, ao que nomeou de revolução comunista. Para tanto, renunciou à religião e ao Estado déspota e monárquico prussiano.“Aí, Marx se torna mais radical e seu materialismo fica mais completo. Ele continua mantendo a dialética de Hegel, mas de forma invertida. Agora, ele acredita que a história é movida a partir da luta de classe, dos conflitos entre as forças produtivas e as relações de produção. Vê que as classes sociais têm interesses diferentes e é o embate entre elas que  faz girar o mundo”, explica o historiador.

Amizade fraterna

Marx e Engels se completavam: enquanto o primeiro possuía um caráter intelectual e teórico, o segundo era filho de um dono de fábrica capitalista e conhecia as condições deploráveis do meio operário e a exploração desse serviço. Como Segrillo sintetiza: “Engels era prático, Marx era filosófico.”

Por Engels ter uma condição de vida mais abastada que seu colega, diversas vezes ele ajudou Marx e sua família com recursos financeiros, visto que ele apoiava o trabalho do pensador e amigo.

Quando Marx foi expulso de Paris por conta de seus artigos no jornal Anais Franco-Alemães, o filósofo refugiou-se na Bélgica e Engels foi junto.

Condição econômica

Marx nunca conseguiu ter um emprego regular porque era perseguido praticamente em toda a Europa, então, enfrentava dificuldades financeiras e vivia, principalmente, do dinheiro que conseguia como freelancer e de heranças que ele e sua esposa ganhavam.

As condições nunca foram simples para aquela família. Por exemplo, de todos os sete filhos nascidos, quatro deles morreram ainda jovens ou crianças devido a problemas de saúde.

Obra-síntese

Enquanto Marx e Engels teorizavam suas propostas de revolução e como aplicá-las, a Europa era palco de rebeliões operárias contra os governos monarquistas e às recentes transformações decorrentes da industrialização global. Esses movimentos, ocorridos em 1848, ganharam o nome de Primavera dos Povos.

Neste mesmo ano, Marx e Engels lançaram O Manifesto do Partido Comunista, obra por meio da qual pretendiam atingir os operários de todo o mundo para iniciar a revolução. “Proletários de todos os países, uni-vos!”, escreveram os autores.

A revolução comunista

De acordo com Marx, o comunismo deveria ser implementado em um momento específico da história da sociedade. Devido sua visão de mundo materialista histórica, seria necessário que cada país passasse por uma revolução burguesa, adotasse o modelo de produção capitalista, em sequência, estaria pronta para a adesão do socialismo e, finalmente, para o comunismo.

O filósofo acreditava que o capitalismo era um sistema fadado a crises cíclicas e irremediáveis – tal como explica em seu livro O Capital (1867). Marx teorizou que, por exemplo, a livre concorrência gerava maior competição entre os fabricantes no mercado e a tecnologia resultante das revoluções industriais exigia cada vez menos mão de obra humana.

Cruzadas essas duas realidades, haveria cada vez menos trabalhadores assalariados (ou seja, com recursos financeiros) e cada vez mais produtos no mercado, o que geraria uma crise de superprodução em que a alta oferta não encontra tamanha demanda.

Para Marx, era exatamente em uma dessas crises do capitalismo que o operariado deveria tomar posse do governo e instaurar uma ditadura inicial para reprimir a contrarrevolução da burguesia. Neste primeiro momento, dar-se-ia início ao socialismo, e cada indivíduo trabalharia de acordo com sua especialização.

Em um segundo momento, seria dado o surgimento do comunismo, o momento final da luta de classes, em que cada indivíduo trabalharia de acordo com suas próprias necessidades. Seria o fim da propriedade privada, da alienação e exploração capitalistas; o fim do trabalhador como mercadoria do burgês capitalista, o detentor dos meios de produção.

“Seu objetivo era chegar ao comunismo, mas como chegar lá era uma questão particular. Marx acreditava que cada país deveria ser estudado, pois não adiantava somente a vontade política, deveria haver também condições objetivas”, explica Segrillo.

Mais-valia

Um termo cunhado por Marx e conhecido até hoje é a mais-valia, expressão que, em síntese, significa a diferença entre o valor do que o trabalhador produz e aquilo que ele realmente ganha.

Em termos gerais, para Marx, o trabalhador era apenas mais uma mercadoria que produzia outras mercadorias. Durante seu período de trabalho, esse proletário desenvolve mais produtos do que de fato precisa para viver. Ou seja, há um valor em cima daquilo tudo o que ele produz e aquilo que ele ganha como salário. Essa diferença nunca chega até ele – fica nas mãos de seu chefe.

De acordo com o historiador Segrillo, é isso que Marx via como uma dicotomia dialética entre o capitalismo e a economia, o que chamou de caráter coletivo da produção e o privado da apropriação: “As pessoas produzem coletivamente em uma fábrica, mas a apropriação, os lucros, são privados, vão para o dono”, sinteza.

Falecimento

Em 1849, mais uma vez, Marx é expulso de outro país e parte para Londres com sua família. Ali ele viveu momentos difíceis devido a falta de recursos financeiros e voltou a escrever para um jornal, o Nova Gazeta Renana.

Junto a Engels e outros pensadores da época, Marx passou a dirigir a Associação Internacional dos Trabalhadores, que reunia membros do operariado de diversas partes da Europa.Em 1871, o tal grupo de intelectuais assiste ao surgimento da Comuna de Paris, o primeiro governo operário da história, formado na França, durante a guerra franco-prussiana.

A Comuna adotou uma política de caráter socialista baseada nos fundamentos da Associação Internacional. Porém, durou poucas semanas, pois logo foi reprimida pelas forças do governo.

Em 1881, sua esposa Jenny morre. Dois anos depois, em 14 de março de 1883, é a vez de Marx deixar o mundo – porém, apenas no campo material, já que continuou sendo a voz do século 19 e dos anos seguintes, servindo como base teórica para revoluções na Rússia, na Cuba e na China. No entanto, todos estes exemplos falharam na interpretação do socialismo e nunca chegaram de fato ao comunismo, modelo final proposto pelo filósofo alemão.


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