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Quarta-Feira 19.set.2018

Ano VI - Nº 320

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Maio de 1968

As origens e os ecos do movimento

Postado em 09 de Maio de 2018   - João Paulo Charleaux – Nexo

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No dia 10 de maio de 1968, um grupo de pelo menos 20 mil estudantes franceses ergueu barricadas feitas de carros virados, carteiras e outros móveis destruídos, transformando o Quartier Latin, bairro estudantil da região central de Paris, numa espécie de ilha ou de território autônomo em relação a todo o restante da capital. A divisão, criada fisicamente pelos destroços acumulados ao longo de dias de protestos e de enfrentamento com a polícia, era, em si, a representação tangível de outras divisões, muito maiores e mais profundas, que mantinham os protagonistas daquela geração em confronto aberto com os valores dominantes da sociedade de então.

As barricadas do Maio de 1968, em Paris, representavam a separação irreconciliável de duas gerações, de pais e filhos, a separação moral da sociedade e dos costumes, entre conservadores e liberais, e, por fim, a separação política e econômica de boa parte do mundo, entre comunistas e capitalistas, no auge do enfrentamento ideológico entre esses dois blocos, personificados pelos Estados Unidos, de um lado, e pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), de outro, com dezenas de outros países, movimentos e personalidades orbitando ao redor.

De Paris, o movimento se espalhou pelo mundo, e, após 1968, pelo tempo. Para entender a dimensão dos eventos daquele período e sua influência sobre o presente, é preciso percorrer a linha do tempo, conhecer seus protagonistas e também as críticas às pretensões dos que falaram em nome daqueles protestos, que agora completam meio século.

O QUE foi o Maio de 1968

“Maio de 68” é uma expressão que se refere a um conjunto de eventos espaçados no tempo e no mundo, que, na verdade, tiveram início em março, não em maio; e cujo berço foi uma universidade em Nanterre, nos arredores de Paris. Esses eventos tiveram início com uma onda de debates no meio universitário francês, seguidos de ocupações, atos públicos, discursos, assembleias e protestos de rua, que rapidamente evoluíram para o enfrentamento aberto com a polícia e com toda estrutura formal de força e de poder na França – fosse no núcleo familiar, nos embates geracionais de fundo moral, por exemplo, sobre questões ligadas a gênero e sexualidade, fosse de maneira mais ampla na sociedade, no questionamento à figura do presidente, do primeiro-ministro e até do Estado, em si, assim como das leis, do dinheiro e da religião.

O movimento teve como bandeira um pacote de reivindicações que partiram de demandas extremamente pontuais, como reformas na grade curricular, passando por pautas estruturais, como o fim da Guerra no Vietnã e o fim do capitalismo, até chegar às reivindicações de cunho filosófico e existencial – como no lema “seja realista, queira o impossível”, que expressava o caráter artístico, poético e ilimitado que seus protagonistas atribuíam à própria forma de lutar contra estruturas que eram consideradas pesadas, antigas, opressoras, desiguais, superadas e obsoletas. A onda de Maio de 1968 teve como primeiro e principal ator o movimento estudantil, seguido imediatamente pelos sindicatos de trabalhadores e, na sequência, por artistas e intelectuais não apenas da França, mas de muitos outros países, incluindo o Brasil.

Muitas linhas do tempo sobre os eventos de 1968 situam o dia 22 de março daquele ano como um ponto de partida, quando um grupo de estudantes ocupou a Universidade de Nanterre para protestar contra punições disciplinares aplicadas contra alunos que protestavam contra a Guerra no Vietnã.

O movimento se alastrou rapidamente, envolvendo, no dia 3 de maio, os estudantes da Sorbonne, em Paris, que passaram a realizar uma série de protestos de rua no bairro estudantil chamado Quartier Latin. Os protestos foram reprimidos pela polícia e os estudantes costumavam se dispersar após os choques. Até que, no dia 10 de maio daquele ano, o movimento resolveu pela primeira vez confrontar a polícia de maneira consistente.

Na “Noite das Barricadas”, 251 policiais e 102 estudantes ficaram com ferimentos graves. Mais de 400 manifestantes foram presos e 60 carros foram virados e queimados em Paris. Diante da repressão policial e em solidariedade aos estudantes, sindicatos de trabalhadores do setor privado decretaram greve geral de 24 horas na França, no dia 13 de maio. Com isso, o movimento extrapolou o ambiente estudantil, ganhou uma parcela importante da sociedade francesa, ampliou suas demandas e passou a ameaçar a própria sobrevivência do governo – à época, nas mãos do presidente Charles de Gaulle, um herói da Segunda Guerra Mundial para os franceses e um ícone da geração anterior, e pelo primeiro-ministro, George Pompidou, um dos mais longevos no cargo. Cinco dias depois, trabalhadores do setor público aderiram à greve.

O movimento reverberou na classe artística, quando três membros do júri do Festival de Cannes – um dos mais importantes do mundo e o mais importante da França – renunciaram a seus cargos. Os diretores Alain Resnais e Carlos Saura retiraram seus filmes da competição e a edição daquele ano foi cancelada. Em 22 de maio, o número de trabalhadores paralisados na França chegou a 8 milhões. Em 30 de maio, De Gaulle dissolveu o parlamento e convocou novas eleições, das quais saiu vencedor e na qual aumentou sua base parlamentar, mostrando a força do apoio do que foi chamada de “maioria silenciosa” que se opunha ao movimento.

AONDE o movimento chegou

Juventude, ruptura, rebeldia e liberdade nunca foram condições exclusivas da Paris de 1968, tampouco eram monopólio francês. A onda de contestação geracional, moral e política se alastrava por boa parte do mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, tendo como vetor as transmissões via satélite, a literatura, o cinema e, principalmente, a música pop.

Para entender como o espírito de 1968 se espalhou geograficamente pelo mundo, é preciso saber, de saída, que a maior parte dos estudantes e dos trabalhadores envolvidos nesse movimento estava conectada à ideia de construção de uma política de esquerda, baseada em algum tipo de socialismo utópico, igualitário e fraterno.

Para muitos dos protagonistas do movimento de 1968, esse socialismo idealizado não estava, por certo, presente no capitalismo americano, como também não se encontrava plenamente representado no comunismo soviético que vigorava nos países da chamada Cortina de Ferro (Tchecoslováquia, Romênia, Alemanha Oriental, Polônia e Bulgária).

“O que as cabeças pensantes [de Maio de 1968] diziam era uma coletânea de ideias malucas de grupos de esquerda: revisionistas socialista, trotskistas, maoístas, anarquistas, surrealistas e marxistas. Eles eram anticomunistas tanto quanto anticapitalistas. Alguns pareciam ser anti-industriais, anti-institucionais e até antirracionais”, definiu Peter Steinfels, jornalista do The New York Times que, em maio de 1968, era um dos estudantes envolvidos nos protestos no Quartier Latin, em Paris.

Maio de 1968 nutriu e se nutriu, por exemplo, do movimento americano pela defesa dos direitos civis – de negros, mulheres e gays – e de oposição à guerra no Vietnã, na qual os EUA haviam entrado quatro anos antes. Na América Latina, o movimento conectou-se com a luta dos estudantes e dos trabalhadores do México. Eles reivindicavam mudanças na condução política do país que, desde 1929, estava nas mãos do PRI (Partido Revolucionário Institucional).

O movimento também reverberou no Brasil. Desde 1964, o país estava sob ditadura militar. O movimento estudantil era perseguido e seus membros estavam sujeitos a prisão, tortura e morte. Em 1968, as contestações ao regime ganharam força. Artistas e intelectuais se uniram aos estudantes no mês de junho na “Passeata dos Cem Mil”. Em dezembro, os militares decretaram o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que suprimiu uma série de garantias individuais e inaugurou o período mais duro da repressão. O Maio de 1968 repercutiu em todos esses contextos – fossem de repressão militar de direita com apoio dos EUA, fosse de repressão militar de esquerda, sob batuta da URSS – inspirando jovens que tinham em comum alguma forma de rebeldia contra o que estava estabelecido como poder.

QUEM foram os protagonistas

Na França, Daniel Cohn-Bendit converteu-se num dos rostos mais conhecidos de Maio de 1968. Ele era estudante de sociologia na Universidade de Nanterre, aos 23 anos, quando assumiu a função de porta-voz do Movimento de 22 de Março, grupo que protagonizou o estopim dos protestos que levariam ao Maio de 1968 em Paris. Era conhecido como Dany Le Rouge (Dani, o vermelho, em português). O nome se referia tanto à cor dos cabelos de Cohn-Bendit quanto a sua adesão à esquerda, embora hoje ele seja ligado ao Partido Verde da Alemanha, onde tem dupla cidadania, e tenha sido criticado quando jovem pelo Partido Comunista Francês por ser um membro da burguesia local.

Na universidade, Cohn-Bendit pertenceu a grupos anarquistas. Um dos episódios que marcaram o início de sua liderança entre os estudantes se deu quando ele interrompeu o discurso do então ministro para a Juventude, François Missoffe, que inaugurava uma piscina na Universidade de Nanterre, para reivindicar livre acesso dos estudantes aos dormitórios femininos. Desde o início, o jovem se envolveu na defesa da liberação sexual.

Ao lado de Cohn-Bendit estava Jacques Sauvageot, estudante de história da arte, então com 25 anos, e vice-presidente da União dos Estudantes Franceses, instituição que ele presidiu de 1968 a 1971. Sauvageot era um militante de esquerda não comunista. Ele foi preso nos primeiros protestos no Quartier Latin, em 3 de maio de 1968. Ao sair da detenção, poucos dias depois, passou a liderar grandes marchas por Paris, com a participação de estudantes e de trabalhadores.

Alain Geismar, então com 28 anos, completava o trio francês, como líder estudantil, membro dos Estudantes Socialistas Unificados e estudante do curso de física e mineralogia em Paris. Em 1967, tornou-se secretário-geral do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Ensino, seguindo caminho no movimento sindical.

Assim como Cohn-Bendit, Sauvageot e Geismar na França, muitos outros jovens líderes despontaram em movimentos contemporâneos semelhantes, em muitas outras parte do mundo. O Brasil, ao contrário da França, vivia sob uma ditadura que torturava e matava seus dissidentes. Por isso, o movimento brasileiro não esteve restrito apenas a grupos estudantis, mas também engendrou a formação de grupos armados revolucionários, num enfrentamento não apenas retórico ou simbólico contra o poder.

Em 1968, foi formada a ALN (Aliança Libertadora Nacional), liderada pelo guerrilheiro Carlos Marighella. Na sequência, vários outros grupos seriam formados, como Polop (Política Operária), Colina (Comando de Libertação Nacional) e VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Foi em outubro de 1968 que os militares brasileiros invadiram o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), que ocorria na cidade paulista de Ibiúna. Estavam nesse encontro lideranças como José Dirceu e Vladimir Palmeira, que acabaram presos pela polícia política. Dirceu havia ingressado no curso de direito da PUC de São Paulo em 1964, e se tornando, no ano seguinte, vice-presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes).

O início da militância de Dirceu no movimento estudantil coincide com o início da ditadura militar no Brasil. Em 1967, passou a presidir a UEE (União Estadual dos Estudantes), em São Paulo. Em 1968, cinco meses depois de os estudantes franceses sacudirem Paris, Dirceu foi preso no Congresso de Ibiúna. Em 1969, ele e outros 14 presos políticos foram libertados, em troca da libertação do embaixador americano no Brasil Charles Burke Elbrick, que havia sido sequestrado por grupos guerrilheiros formados por outros jovens militantes da época, como Fernando Gabeira e Franklin Martins. Depois de um exílio em Cuba, ele retornou clandestinamente ao Brasil em 1971. Foi anistiado em 1979 e, após a redemocratização, já nos anos 1980, dedicou-se à estruturação do PT (Partido dos Trabalhadores), partido que presidiu entre 1995 e 2002.

Em 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência do Brasil pela primeira vez, Dirceu converteu-se no homem forte do governo, à frente da Casa Civil. Deixou o cargo em 2005, acusado de participar de um esquema de compra de apoio parlamentar conhecido como “mensalão”. A cassação do mandato de deputado federal tornou-o inelegível por 10 anos. Em 2015, foi condenado pela primeira vez em outro escândalo, o da Lava Jato, acusado de desvios na Petrobras. Já Palmeira era estudante de direito no Rio de Janeiro e, em 1964, participava do movimento estudantil na então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, assumiu cargos cada vez mais importantes, chegando a presidir a UME (União Metropolitana dos Estudantes), à frente da qual liderou passeatas importantes. Foi preso seguidas vezes até exilar-se em 1969, vivendo no México, em Cuba, no Chile e na Bélgica.

COMO o movimento foi contestado

Por ter sido um movimento de espectro ideológico tão amplo, com contornos institucionais tão difusos e resultados tão difíceis de mensurar, o Maio de 1968 sempre esteve sujeito a críticas, não apenas de pessoas que se opunham frontalmente aos itens daquela agenda – como políticos, policiais, pais e autoridades mais velhas de maneira geral –, mas também de muitos de seus próprios protagonistas. Algumas das experiências de extrema esquerda cultuadas por parte dos manifestantes de 1968 – não por todos eles – continham, em si mesmas, elementos de censura, de violência e de autoritarismo que eram combatidos nas ruas, como nos casos de Cuba, da China, do Vietnã do Norte e da URSS, o que motivou e ainda hoje motiva críticas de todos aqueles que sequer se identificavam com os valores defendidos por essas esquerdas. Mas as críticas também vinham da extrema esquerda.

O Maio de 1968 foi rechaçado de cara pelo Partido Comunista Francês. Esse rechaço comunista mostrou o choque entre o caráter relativamente plural do movimento de estudantes e trabalhadores na França e a estrutura hierarquizada e centralizadora do Partido Comunista, ligado a um regime soviético que via seus interesses confrontados por jovens estudantes, por exemplo, na Cortina de Ferro. As críticas feitas no interior do próprio movimento sempre mostraram condescendência com certa pretensão ingênua de mudar o mundo a partir de uma ofensiva que foi, em muitos sentidos, mais estética do que estrutural – o que pode ser percebido pelos slogans que tornaram o Maio de 1968 conhecido, como: “poder à imaginação”, “aqui se espontaneiza”, “viver o presente” e “trabalhadores do país, divirtam-se”, além do mais famosos deles, “seja realista, queira o impossível”.

Geismar, um dos líderes do movimento, companheiro de Cohn-Bendit, afirmou em seu livro de memórias, “Meu Maio de 1968”, que o movimento foi exitoso “enquanto revolução social, não como revolução política”. De fato, politicamente, na França, o rechaço pode ser visto nas ruas, quando, no dia 30 de maio, apenas 20 dias depois da “Noite das Barricadas”, milhares de parisienses caminharam pela avenida Campos Elíseos mostrando o apoio da auto denominada “maioria silenciosa” ao presidente De Gaulle no embate em curso com os estudantes.

Considerando que o Maio de 1968 chegou a ser visto como uma possibilidade de revolução, o resultado eleitoral que manteve De Gaulle no poder era, em si, uma mensagem de rechaço da maior parte dos eleitores às pretensões políticas mais radicais dos estudantes. No Brasil, setores que apoiaram e que apoiam a ditadura militar ainda hoje veem no movimento estudantil de 1968 e naquelas esquerdas, de maneira mais ampla, um embrião de comunismo que, se triunfasse, teria levado o país na direção de Cuba.

Do lado contrário, seus defensores realçam o caráter democrata de um movimento que justamente se opunha à ditadura em curso, defendendo – com base em matizes que incluíam até mesmo a luta armada – o restabelecimento dos direitos civis, de eleições livres e de uma nova constituinte no Brasil de então.

QUANDO 1968 terminou

No calendário, 1968 foi um ano bissexto que terminou, como outro ano qualquer, no dia 31 de dezembro. Do ponto de vista dos desdobramentos do Maio de 1968, entretanto, o fim foi mais incerto, pois os reflexos do movimento se fizeram sentir meses e até mesmo anos depois. Daí o livro do jornalista brasileiro Zuenir Ventura sobre esse período da história se chamar “1968: O Ano Que Não Terminou”. Nele, Zuenir fala das diversas transformações políticas, morais, artísticas e comportamentais que o ano de 1968 engendrou, e cujas consequências se abriram a partir de então, não se fecharam no fim daquele ano.

Para os jovens franceses, De Gaulle encarnava a figura paterna, militar e autoritária. Confrontado em 1968, ele só deixaria o poder no ano seguinte, 1969. Embora tenha reafirmado seu poder diante dos estudantes, por meio da vitória nas eleições antecipadas, De Gaulle era a encarnação do pós-guerra, um herói nacional de um passado reminiscente, mas que já havia sido superado culturalmente, e que o movimento de 1968 ajudaria a, gradativamente, superar.

No mundo, o 1968 seria marcado ainda pela morte do líder negro americano Martin Luther King, assassinado a tiros no dia 4 de abril daquele ano, antes de liderar uma marcha em Memphis, no sul dos EUA, e pelo assassinato a tiros do senador americano Robert F. Kennedy, em junho daquele ano, num hotel de Los Angeles. No Brasil, a ditadura levaria ainda 17 anos para ser encerrada.

O Muro de Berlim – que separava fisicamente os blocos comunista e capitalista na Europa – só cairia em 1989. Todos esses eventos sofreram influência de 1968. Em 2008 – quando o Maio de 1968 fez 40 anos – muito se falou sobre os ecos desse período e sobre como aqueles dias ainda provocavam consequências na política contemporânea.

Agora, passados 50 anos, o mesmo ocorre. Enquanto o atual presidente francês, Emmanuel Macron, propõe à sociedade reformas profundas nas leis trabalhistas e de aposentadoria, estudantes e trabalhadores voltam às ruas de Paris para protestar, muitos deles levantando cartazes e gritando slogans que remetem ao Maio de 1968.

POR QUE 1968 ainda ecoa

As consequências de 1968 (na verdade da década de 60 como um todo) estão presentes em situações hoje consideradas tão prosaicas quanto o comprimento de um vestido ou de uma saia, o uso de pílulas anticoncepcionais, as relações sexuais entre pessoas que sequer sonham em manter relações formais estáveis, o direito ao voto e muitos outros costumes e atitudes que mudaram radicalmente desde então. Não é que todas essas mudanças tenham 1968 como gênese absoluta. Demandas por maior participação nas estruturas de poder, de igualdade e fraternidade já tinham surgido, por exemplo, na Revolução Francesa, 170 anos antes do Maio de 1968. A questão é que o movimento estudantil em Paris e em outras partes do mundo deu visibilidade, fôlego renovado e contemporaneidade a antigos ideais. A partir dali, sindicatos, grêmios, grupos de teatro, coletivos de cinema, praticamente todas as novas estruturas sociais compostas por jovens passaram a incorporar as ideias de horizontalidade, participação e diversidade, como se quisessem mostrar um caminho possível para a gestão da política em todos os níveis.

Parte desses conceitos foi usada, por exemplo, por movimentos que deram início à série de manifestações de junho de 2013 no Brasil. Muitos deles, aliás, ainda são a base da atuação de estudantes que se organizam por uma causa. Muitos centros acadêmicos, diretórios e grêmios estudantis estão construídos hoje sobre um legado de 1968 que se manifesta na organização política – em relação ao protagonismo feminino, à democracia, à horizontalidade e até mesmo à anarquia – e também nos slogans, cartazes, protestos e outras formas de atuação. Além disso, toda uma geração de políticos foi formada no movimento estudantil e nos grupos políticos que se criaram e se fortaleceram nesse período, sejam os fundadores do PT, como Dirceu e Palmeira, já citados, sejam os membros do PSDB, como José Serra e Fernando Henrique Cardoso, entre outros políticos, de outros partidos.

No cinema, 1968 deu impulso à Nouvelle Vague francesa, com diretores como François Truffaut e Jean-Luc Godard, e reverberou também no Cinema Novo brasileiro, com Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade. Na música, o movimento de 1968 – e mais do que ele, toda a década de 1960 e, antes disso, o rock'n'roll surgido no pós-guerra dos anos 1950 – embalou uma safra de trovadores politizados, como Bob Dylan e Joan Baez, nos EUA, ou Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Elis Regina, Chico Buarque e tantos outros, no Brasil.

 Nesse sentido, 1968 não foi necessariamente o berço de todas essas transformações, mas foi um catalisador e um amplificador. Mesmo embalado pela contracultura e pela contestação ao sistema, o movimento não escapou de ser transformado em produto de consumo, reembalado e vendido de maneira domesticada, sob medida para um mercado jovem. Palavras como “liberdade” e “rebeldia” foram associadas, por exemplo, à qualidade de uma calça jeans que se podia comprar.

Os ecos de 1968 nunca puderam ser definidos, contidos ou monopolizados por um outro setor específico da sociedade, pois se espalharam em direções imprevistas. A influência do movimento pode ser sentida atualmente em aspectos tão cotidianos quanto a roupa que se veste, os posts que se leem em redes sociais e a pauta do debate político em curso.

NA ARTE LIVROS: Maio de 1968 na literatura

“Esqueça 1968”, de Daniel Cohn-Bendit

“1968 – Eles Só Queriam Mudar o Mundo”, de Regina Zappa e Ernesto Soto

“1968 – O Ano Que Não Terminou”, de Zuenir Ventura

FILMES: Maio de 1968 no cinema



“Amantes Constantes”

Filme de Phillippe Garrel, lançado em 2005, conta a história de um grupo de jovens protagonistas dos eventos de maio de 1968 em Paris.

“Os Sonhadores”

Filme de Bernardo Bertolucci, lançado em 2005, conta a história de um triângulo amoroso envolvendo um jovem americano e um casal francês na Paris de 1968.

“Confrontação: Paris, 1968”

Entre o documentário e a reportagem, Seymour Drescher e Eugen McCreary apresentam imagens dos confrontos ocorridos em 1968 em Paris.

“No Intenso Agora”

Documentário de João Moreira Salles que tem como matéria prima filmes caseiros rodados pela mãe do diretor em 1966 na China, além de imagens da França, da Tchecoslovária e do Brasil em 1968.

Vá ainda mais fundo:

Maio de 68: O Advento do Individualismo e da Heteronímia”, de Irene de Arruda Ribeiro Cardoso, professora do Departamento de Sociologia da USP

Os Panfletos em Maio de 68”, de Michel Demonet, sociólogo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris

Sem Pão e Sem Rosas: de Feminismo Marxista Impulsionado pelo Maio de 1968 ao Academicismo de Gênero” de Renata Gonçalves, pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais da UEL (Universidade Estadual de Londrina)

Movimento Estudantil no Brasil: Lutas Passadas, Desafios Presentes”, de Silene de Moraes Freire, socióloga da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


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