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Quarta-Feira 19.dez.2018

Ano VII - Nº 332

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Comportamento

As jovens não fazem ideia de que podem sentir prazer no sexo

No livro Garotas & Sexo, a jornalista norte-americana Peggy Orenstein investiga como garotas de 15 a 20 anos lidam com a sexualidade

Postado em 09 de Maio de 2018   - Isabela Moreira – Galileu

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Após décadas escrevendo sobre mulheres e questões relacionadas à saúde e ao comportamento delas, a jornalista Peggy Orenstein começou a perceber que algumas pautas eram ainda mais abrangentes do que pensava: em um momento, sua filha estava obcecada com cor-de-rosa e princesas da Disney; pouco depois, entrava na adolescência e começava a descobrir a própria sexualidade em tempos em que a tecnologia e a “cultura da pegação” colidem.

A escritora nascida em Minneapolis, meio-oeste dos EUA, transformou os choques iniciais em trabalho. O mais recente é o livro Garotas & Sexo (Zahar, R$ 39,90, 272 páginas), lançado há pouco no Brasil. “Eu tinha ouvido vários amigos que têm filhos mais velhos falando sobre adolescentes e bebida em excesso, sexo casual, acesso fácil à pornografia, todas essas coisas que, como mãe, não quero saber”, brinca Orenstein. “A ignorância e o medo podem parecer boas estratégias para criar uma criança. Mas decidi que, como jornalista, precisava investigar como essa geração está encarando esses fatores.”

Ela, então, passou três anos entrevistando mais de 70 garotas com idades entre 15 e 20 anos para entender as contradições que existem na experiência feminina. “Quando garotinhas brincam de ser ‘sexy’ antes mesmo de entenderem o significado da palavra, elas aprendem que o sexo é mais desempenho do que uma experiência sensorial. Mas e quando elas já entendem o que a palavra significa?”, questiona no livro.

Orenstein argumenta que uma dinâmica equilibrada nas relações sexuais é tão importante quanto o consentimento em si. As garotas sabem que podem transar e se sentir empoderadas por isso, no entanto, raramente compreendem que podem sentir prazer. Ela ouviu, por exemplo, relatos de jovens que fazem sexo oral só para que os parceiros vão embora sem perturbá-las. Elas fazem com que suas vozes sejam ouvidas… só que não na cama.

Apesar de tudo, há esperança. Com a força do feminismo e a maior cobertura de temas como gênero e sexualidade, garotas e garotos estão se dando conta de alguns comportamentos e de como é urgente que sejam transformados. “Estudo comportamento emocional e físico há muitos anos, e esses últimos tempos têm sido de grande mudança”, afirma. Na entrevista a seguir, a autora mostra que a transformação está só no começo.

Por que você se interessa tanto pelos problemas que as meninas encaram?

Sempre tive uma inclinação pela escrita sobre questões relacionadas a meninas e mulheres. Não há nada mais interessante do que documentar as mudanças gigantescas pelas quais as mulheres passam o tempo todo, praticamente desde o nascimento. Na época em que comecei a pesquisa para Garotas & Sexo, tinha acabado de escrever meu outro livro, Cinderella Ate My Daughter (Cinderela Engoliu Minha Filha, em tradução livre), que aborda a forma como a cultura “menininha”, cheia de fofura e de coisas cor-de-rosa, afeta o desenvolvimento da consciência mental e corporal das garotas. Fez sentido ir da pesquisa sobre o que está acontecendo com meninas mais novas para outra sobre as mais velhas.

Como foi a experiência de entrevistar as garotas para o livro?

Agora é bem mais fácil para mim conversar com meninas e meninos sobre qualquer assunto. Eu não consegui perguntar a eles “como foi a sua primeira vez fazendo casual?” de forma natural [risos]. Foi bastante difícil. Não só iniciar a conversa, mas algumas das histórias eram tão devastadoras que foi difícil e surpreendente ouvir. Para falar a verdade, eu estraguei as primeiras entrevistas.

A questão é que essas jovens entendiam que tinham o direito de ser sexualmente ativas, mas não faziam ideia de que podiam sentir prazer nessas experiências. Fiquei tão surpresa... elas estão no controle de tantos aspectos de suas vidas, mas esse não é um deles. Quando essas primeiras meninas me contaram suas experiências, fiquei muito chocada — o que as envergonhou. As duas primeiras entrevistadas nunca mais falaram comigo, mesmo quando tentei retomar o contato em diferentes plataformas. Tive de aprender como conversar de forma que pudesse ouvi-las sem julgamento.

Você sentiu que elas sabiam identificar situações de abuso sexual?

Não acredito que isso tenha mudado de forma drástica nos anos que antecederam a primeira publicação do livro nos EUA, em 2016. Entrevistei algumas garotas muito inteligentes, que estudam nas melhores faculdades, que relataram que não saberiam dizer se estão sofrendo um estupro a não ser que um desconhecido pulasse em cima delas em um beco escuro. Elas não reconheciam suas experiências dentro da cultura dos campi universitários como abuso sexual, mas isso está mudando rapidamente agora por conta do movimento #metoo [hashtag para compartilhar experiências de assédio] e do ativismo.

Não que ainda não aconteça: uma pesquisa recente da Universidade Tulane, em Nova Orleans, mostra que quatro de cada dez estudantes da instituição já foram estupradas e seis de cada dez já sofreram algum tipo de violência sexual. Se uma universidade revelasse que quatro de cada dez alunas levaram tiros, os pais não deixariam seus filhos ou filhas estudarem lá, é um absurdo. Então, estamos reconhecendo cada vez mais o que significa o assédio sexual, mas ele ainda continua acontecendo em instituições nas quais as pessoas deveriam estar estudando e se sentindo seguras.

Há dois anos, o Instituto Avon fez uma pesquisa aqui no Brasil em que 10% das estudantes afirmaram ter sofrido algum tipo de assédio em ambiente universitário. Porém, ao serem informadas do que podia ser considerado abuso, esse número subiu para 67%.

Isso porque esses comportamentos são tão normalizados que nem aprendemos a vê-los. Não gostamos deles, mas também não os reconhecemos como abusivos e às vezes até ilegais, não pensamos que temos direito de exigir que acabem. Eu não queria que meu livro se tornasse uma obra sobre assédio e estupro, e ele não se tornou, mas acredito que eles sejam frequentes em ambientes frequentados por adolescentes. Apesar de estarmos falando de universitárias, isso começa antes, quando ainda estão no Ensino Médio. Logo, é essencial ensiná-las a identificar comportamentos abusivos muito antes que isso aconteça.

E como podemos envolver os meninos nessas discussões?

Estou escrevendo um livro sobre meninos agora, então pelo menos é isso o que eu estou fazendo [risos].

Como está sendo?

Muito interessante, ainda mais nesse momento em que as discussões sobre modelos de masculinidade estão tão em alta. Estudo o comportamento emocional e físico de jovens há uns oito anos, e esses últimos tempos têm sido de grandes mudanças. Por conta de tudo que está acontecendo e sendo divulgado, o momento que estamos vivendo é impressionante. Mais meninos têm se tornado mais conscientes de comportamentos que passam dos limites. Isso significa que eles não agem assim? Não sei dizer. Mas pelo menos têm noção do que é e de que não podem se comportar assim.

No fim de Garotas & Sexo, quando converso com alguns universitários sobre o assunto, tanto as garotas quanto os garotos parecem abertos a entender seus limites juntos. A maioria das pessoas não quer abusar das outras, não é a intenção delas. Ajudar as pessoas a entender o impacto de seu comportamento, o motivo de ser abusivo e, mais ainda, o que seria uma experiência sexual e emocional apropriada e saudável é algo muito importante e que deveríamos ensinar nas escolas.

Quando Garotas & Sexo foi publicado pela primeira vez, Obama ainda era presidente dos EUA. Você sentiu diferença na forma pela qual meninas e mulheres encaram questões de gênero desde a eleição de Donald Trump?

Sim, não é irônico? Não sei se isso estaria acontecendo se Hillary Clinton tivesse sido eleita. É meio irônico que a eleição do maior monstro misógino e abusivo do planeta tenha resultado na mudança mais profunda na dinâmica de gêneros desde a década de 1970. Foi a gota d’água. Tenho uma coletânea de ensaios prestes a ser publicada, e o último que escrevi foi na época da campanha eleitoral, quando Trump falou que gostava de “pegar as mulheres pela vagina” (“grab them by the pussy”, em inglês). Mas em nenhum momento me passou pela cabeça a possibilidade de ele ganhar. Era inconcebível. A única coisa boa disso é que a eleição acordou as pessoas sobre a dinâmica entre gêneros.

Isso fez com que a conversa sobre gênero e feminismo se tornasse mais presente na mídia. A forma pela qual as garotas se veem está mudando?

Por anos, as jovens não admitiam ser feministas. No máximo diriam: “Sou feminista, mas…” ou “Ah, não sou feminista”...

“Não odeio homens”…

Pois é. Há pouco tempo visitei uma cidade universitária no centro-oeste do país e passei por uma loja de departamentos em cuja vitrine havia uma almofada com a palavra “feminista” escrita várias vezes. Na hora me dei conta de que o feminismo se tornou mainstream. Agora, a maioria das universitárias nem sonharia em não se assumir feminista. A quantidade de garotas que me contam que estão estudando teoria de gênero e feminismo é surpreendente. Passei a receber e-mails todo dia de meninas contando que querem aprender mais sobre o assunto.

No livro, usei um termo chamado “justiça íntima”, o que coloca tudo em um contexto de justiça social, considerando desde o sexo até a escolha de quem lava a louça em casa como atos políticos. Ao pensar nesses termos, consideramos desigualdade econômica, violência, pobreza, saúde física e mental, e questionamos quem tem o direito de se engajar em comportamentos sexuais, quem pode sentir prazer com isso e como um parceiro pode ou não ser bom o suficiente. Foi uma abordagem que as meninas conseguiram compreender e a partir da qual podem ressaltar que essas discussões não são frívolas, mas políticas. Não é individual, e sim sistêmico. Ter essas noções faz com que elas se empoderem e retomem as rédeas da própria sexualidade.

Nos últimos meses, a experiência feminina tem sido muito discutida em Hollywood. Mas, quando uma fotógrafa acusou o comediante Aziz Ansari de assédio, foi atacada por críticos, inclusive mulheres, dizendo que tinha sido “só sexo ruim” e que ela estava exagerando. O conceito de “sexo ruim” é uma forma de diminuir a importância do prazer feminino?

“Só” é uma palavra interessante. O que ela engloba? Esse caso é valioso — se devia ou não ser divulgado como foi é outra história — porque mostra que todos os dias ocorrem dinâmicas sexuais que não são nada éticas. A cultura da pegação faz com que, de um lado, os garotos fiquem tão focados na pornografia que acham que aquilo é sexo de verdade; de outro, as garotas querem ser desejadas, mas estão fora de sintonia com o próprio corpo. Isso faz com que haja histórias como essa, experiências sobre as quais precisamos discutir para entender quais dinâmicas e hipóteses políticas baseadas em gênero têm de ser transformadas para que não tenhamos mais “só sexo ruim”, que é uma forma nada ética de se relacionar com alguém.

Há a ideia de que, para ser discutida, a experiência tem de ser a pior possível...

É, algo como o caso de Harvey Weinstein [produtor de Hollywood que assediou dezenas de mulheres], que veio à tona depois que tanta gente se machucou. Por isso quis que o livro fosse sobre as experiências do dia a dia. Depois da história de Aziz Ansari, muitas pessoas me escreveram dizendo que o relato da fotógrafa fazia com que se lembrassem dos capítulos do meu livro — e concordo com isso, pois, como eu havia dito, não precisa ser ilegal para ser errado. Ilegal é, na verdade, um nível muito baixo a partir do qual considerar experiências sexuais. Acredito que podemos ser melhores que isso.


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