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Domingo 29.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Cidade do Panamá, a Dubai das Américas

Ilhas tranquilas são bom contraponto aos excessos da cidade

Postado em 25 de Abril de 2018 - Anna Virginia Balloussier – Folha de SP

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O que você sabe sobre o Panamá? Ok, eles têm o chapéu de palha estilosão que, apesar de levar o nome do país da América Central, tem suas origens a mais de mil quilômetros de lá, no Equador. 

E há, claro, o canal que liga os oceanos Pacífico e Atlântico e está para o turismo panamenho como o Cristo Redentor ou um par de Havaianas para o brasileiro.

Mas quem der uma chance ao país cuja capital é apelidada de "Dubai das Américas" perceberá que os atrativos locais são proporcionais aos "rascacielos" (arranha-céus) que se apinham na Cidade do Panamá. 

São colossos como a Trump  International Hotel & Tower, com seus 285 metros de altura (95 a mais do que o recordista brasileiro, o Orion  Complex, em Goiânia).

No prédio, aliás, aficionados por jogatina encontrarão o cassino mais badalado do país —atração proibida no Brasil desde que, em 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra baniu jogos de azar, dizem que por pressão da sua mulher, católica fervorosa, Carmela (conhecida como, veja só, Dona Santinha).

Se férias em Miami enchem seus olhos, vale a pena considerar este destino onde ninguém precisa de visto para entrar (até mais ver, fila interminável na embaixada americana) e o afã por compras e obras de Romero Britto caem tão bem quanto um drinque caribenho (com guarda-chuvinha) antes do jantar. Ah, sim: passagens em geral mil reais mais baratas também podem apetecer o turista. 

O famoso canal do Panamá era, até 1999, administrado em conjunto com os Estados Unidos. Pois bem, a influência americana está por todos os cantos da capital, que por vezes parece um bonsai da cidade mais latina da Flórida —lojas, lojas e mais lojas coladas a fileiras de torres espelhadas, com estaturas e nomes que deixariam a Barra da Tijuca roxa de inveja, como a Yacht  Club  Tower (torre do clube de iate).

A moeda oficial, balboa, parece "fake news": não há notas circulando. O país usa dólar americano no dia a dia.

O maior e mais famoso shopping é o Albrook  Mall, com 421 lojas e serviços, incluindo grifes estrangeiras como a JLO, linha de moda feminina criada pela popstar americana Jennifer  Lopez. 

Amantes de bugigangas vão se deleitar em lojas do tipo R$ 1,99, caso da Todo a Dollar, onde um par de calçado genérico de Crocs para "niños" sai por US$ 2.

Os que preferem etiquetas ostentação vão se refestelar no Multiplaza, shopping com uma "avenida do luxo" e onde uma regatinha da Dolce & Gabbana é vendida a preço que equivale a cem tamancos de plástico da Todo a Dollar. 

Se o dólar não estiver nas alturas, os produtos no Panamá, em geral, saem mais em conta do que importados no Brasil. Shopaholics (viciados em compras), corram para as montanhas --de sacolas!

E também para uma colina de verdade, a Ancón, caso você queira apreciar a vista panorâmica da capital. O que também pode ser feito na torre que leva o nome do presidente Donald  Trump, apenas 15 metros menor do que a Ancón. Recomenda-se ali tomar piñas coladas ou mojitos, drinques populares no Panaviera, bar "rooftop" no 66º andar.

Praças com coreto e arquitetura colonial são um respiro para a atmosfera "made  in USA" que impera na capital do país, sob jugo da coroa espanhola até 1821 —até Símon Bolívar, o revolucionário que povoa sonhos da esquerda e pesadelos da direita, anexá-lo à Grã-Colômbia, projeto naufragado dez anos depois.

Como o Panamá não é muito grande, vale encarar voos de meia hora para conhecer picos menos urbanoides.

Caso da cidade com nome "piada pronta": Boquete. Lá fica o vulcão Barú, de onde se vê tanto o Atlântico quanto o Pacífico. Deu onda.

San Blas é um arquipélago com mais de 350 ilhas, na parte menos explorada do Caribe

Se o “american way of life” que domina a Cidade do Panamá cansar a beleza do turista, ele sempre pode reservar uns diazinhos extras para ficar, literalmente, ilhado, livre das ruas abarrotadas de cassinos, dos arranha-céus e dos shoppings com lojas de marcas estrangeiras que dominam a capital do país.

Para quem tem mais tempo no cronograma, vale a pena viajar por duas horas de carro desde a Cidade do Panamá até San Blas, um arquipélago com mais de 350 ilhas não tão exploradas assim, considerando-se que é o mar do Caribe. O arquipélago corre o risco de sumir do mapa devido à elevação das águas naquela região.

Os que preferem zarpar da capital mesmo têm a opção de conhecer praias banhadas pelo oceano Pacífico. 

A brasileira Cristina Esprenger se especializou na rota: ela, que se mudou para o Panamá com a intenção de montar uma distribuidora de carne, acabou abrindo a Ferry Las Perlas, empresa que oferece pacotes para três ilhas por preços a partir de US$ 98 (R$ 332), com uma refeição inclusa.

Os passeios podem ser bate e volta ou se estender por dias, a gosto do freguês (que paga hotel à parte). A balsa que leva a clientela até o destino sai cedinho, por volta das 7h, e volta no fim da tarde. 

A embarcação que esta reportagem acompanhou, num domingo de março, partiu lotada de americanos com rosto lambuzado de filtro solar, óculos Ray Ban de lente espelhada e regatas como a do rapaz com logo da Duff (cerveja favorita de Homer Simpson) na estampa.

Primeira parada: Saboga, mais avizinhada ao conceito de praia deserta. No dia em que estivemos por lá, contou com a companhia de dez viajantes (os amantes do sossego que torçam para não calharem de cair na mesma data de grupos de despedidas de solteiro, comuns por lá). 

Valerie Ferrenbach, uma francesa que trocou o trabalho em Cannes pela beira-mar panamenha, administra o único estabelecimento comercial: um bistrô batizado com seu pseudônimo, Paula Nani. Como cortesia, serve aos recém-chegados um café da manhã com suco (o da vez foi o de manga), omelete, torrada, manteiga e geleia. 

É ela que dirige, como se disputasse um posto de figurante em “Velozes e Furiosos”, um dos carrinhos de golfe que transportam o turista do porto até a praia. 

A Contadora é uma ilha com mais estrutura —de mercadinho a lojas de suvenires. De Saboga até lá, vai-se de barco de pescador. O que levou a reportagem, batizado de Abuela (vovó), tinha peixes pescados na hora pelo condutor se debatendo e agonizando ao lado dos passageiros —budistas talvez queiram desviar o olhar. 

Pedindo com jeitinho, o motorista do carrinho de golfe deixa que o turista dirija o veículo (também disponível para alugar). 

Na praia de mar calmo e azul-claro, a carcaça de um navio enferrujado e aves aos borbotões formam um cenário que não faria feio num remake de “Pássaros”, de Hitchcock. 


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