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Ano VI - Nº 320

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Comportamento

Com que idade as crianças devem acessar redes sociais?

Para especialistas, é importante respeitar regras das próprias plataformas

Postado em 25 de Abril de 2018   - Flávia Mantovani – Folha de SP

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Está nas regras do Facebook, Instagram, YouTube e outras redes sociais: só pode criar conta quem tem ao menos 13 anos de idade. Mas todo mundo sabe que, na prática, não é o que acontece.

Segundo pesquisa de 2017, 86% dos brasileiros de 9 a 17 anos que acessam a internet têm perfil em redes sociais. Entre aqueles de 9 a 10 anos, o índice é de 62% e, de 11 a 12 anos, 76%. WhatsApp e Facebook são as redes mais acessadas nessa faixa etária, ainda segundo o estudo, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

“Vemos as crianças entrando nas redes sociais cada vez mais cedo e usando por cada vez mais tempo”, diz o psicólogo Rodrigo Nejm, diretor de educação da associação Safernet. “A internet é a maior praça pública do planeta. Você tem que se perguntar: meu filho já tem maturidade para ter autonomia plena nesse lugar público?”, questiona.

Autora do livro recém-lançado “Como Criar Filhos na Era Digital” (ed. Fontanar, 220 pág.), a psicóloga britânica Elizabeth Kilbey diz que atende cada vez mais pais preocupados com o excesso de uso dos filhos. “Trabalho com crianças com quadros de ansiedade e tristeza porque acreditam que não são tão populares, bonitas ou magras quanto seus amigos nas redes sociais.”

Para a filósofa e escritora Tânia Zagury, os pais dessa geração, que convivem com a tecnologia há bastante tempo, acham que não há problema em deixar o filho entrar nas redes sociais precocemente. 
“As crianças só têm acesso porque os pais possibilitam. Eles tendem a achar que seu filho é mais maduro do que realmente é”, diz ela, que lançou em 2017 o livro “Os novos perigos que rondam nossos filhos” (Rocco, 192 págs.).

Segundo os especialistas, a solução não é proibir ou demonizar as redes. É orientar as crianças para que saibam navegar de forma saudável e segura nesse ambiente. E, uma vez que elas tiverem um perfil, monitorar seu uso.

“Supervisionamos nossos filhos muito mais no mundo real do que no virtual”, escreve Kilbey. “A maioria dos pais nem sonharia em dar um pote de biscoito ao filho todos os dias, tampouco deixar que comessem todos os biscoitos que quisessem, como quisessem. Mas muitos pais não pensam duas vezes em dar aos filhos acesso irrestrito a um aparelho digital”, compara.

A recomendação é estabelecer um diálogo transparente com as crianças. “Não é diferente da orientação que se dava antes da internet, de não conversar com estranhos, não divulgar seu endereço”, diz Maluh Duprat, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC-SP. “A internet é o mundo deles, não adianta querer que fiquem fora.”

Veja a seguir orientações dos especialistas para seis dúvidas sobre o tema.

Com que idade devo deixar meu filho criar um perfil nas redes sociais?

Os especialistas não recomendam desrespeitar a norma das próprias redes —quase sempre, a idade mínima é 13 anos. Antes disso a criança pode não ter maturidade para navegar ali.

Mesmo quando ela chegar à idade permitida, vale analisar cada caso. “Posso ver que meu filho de 13 ou 15 anos é imaturo, influenciável, não tem boa autoestima. E por isso achar que não vai fazer bem a ele”, diz Nejm.

Deixar a criança mentir a idade para criar um perfil é, para Zagury, uma “lição de falta de ética”. “Quem age assim ensina aos filhos que, sob certas circunstâncias, é válido fraudar regras”, afirma.

A criança não vai se sentir excluída se não entrar em uma rede social?

O argumento “todos meus amigos têm” pode ser desconstruído facilmente, afirma Rodrigo Nejm. “Os pais explicam que cada família é diferente e que na casa deles, por acharem que aquilo é o melhor, a regra é essa. Isso vale para para tudo.”

Zagury garante que a criança não ficará traumatizada se não usar as redes sociais até os 13 anos: “A pressão social sempre vai existir. Cabe ao adulto ser adulto e decidir o que é melhor para ela”.

Devo ter a senha das contas do meu filho?

Se os pais acham que o filho tem maturidade para criar um perfil, não deveria ser necessário compartilhar a senha —o que não significa deixá-los sem monitoramento. O importante é acompanhar o que eles postam e até, de vez em quando, entrar no perfil junto com eles, e não escondido. “Se você acha que seu filho não deve ter privacidade naquele ambiente, ele não deveria ter rede social ainda”, diz Nejm.

Para crianças mais novas, caso os pais optem por deixá-las usar as redes, podem criar a conta junto com elas e avisar que também têm a senha. Mesmo assim, o melhor é acessar o perfil só com o filho ao lado.

Qual é o problema de as crianças entrarem cedo demais nas redes?

Além de serem mais vulneráveis a desconhecidos que cometem crimes pela internet, elas precisarão lidar com problemas típicos da adolescência sem ter a maturidade para isso. Ficam expostas a um tipo de bullying com alcance ampliado e podem divulgar informações que comprometem a privacidade da família.

Elizabeth Kilbey ressalta que crianças têm mais risco de se tornarem dependentes. “Elas se tornam facilmente hiperfocadas nas redes e deixam de lado outras atividades importantes””, alerta.

Segundo estudos, o excesso de tempo de tela pode atrapalhar o desenvolvimento motor, social e emocional, causar dores e piorar a concentração e o rendimento escolar.

Como saber se tem algo errado acontecendo com meu filho nas redes?

Crianças e jovens que passam por dificuldades como bullying ou abuso na internet costumam mudar o comportamento. Ansiedade, tristeza, variações bruscas de humor, mudanças no sono e na alimentação são alguns sinais. “Eles dificilmente não transparecem quando algo está errado. Se isolam no quarto, não querem mais ir à escola, o rendimento cai”, diz Maluh Duprat.

Se eu uso muito as redes sociais, meu filho fará o mesmo?

Os pais são a primeira referência da criança para tudo. Pais que jantam olhando o celular e checam o Facebook enquanto conversam com os filhos devem esperar o mesmo deles. “É mais comum eu ter que dizer para os pais largarem seus celulares do que para as crianças e adolescentes com os quais trabalho”, diz Elizabeth Kilbey.

O ideal é que regras como não comer com o celular na mesa valham não só para os pequenos, mas para toda a família.


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