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Ano VI - Nº 312

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Contra a violência e a exclusão, movimentos e moradores constroem experiências de luta por direitos e resistência dentro das favelas

Postado em 12 de Abril de 2018   - Luiz Felipe Stevanim - Revista Radis

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A favela vive na luta e na voz de cada um deles e de cada uma delas. Sabrina — conhecida como MC Martina — pede licença no busão para recitar uma poesia: “Você conhece a raiz do gueto?” Brenda descobriu na poesia marginal, feita nas ruas e na laje, um sentido para a existência que não encontrou na escola. Fransérgio luta contra estigmas e preconceitos que recaem sobre favelados e lembra: “Favela é resistência”.

Jaílson lidera há décadas projetos de inserção social e cultural de jovens periféricos, que buscam transformar os olhares sobre os espaços em que vivem. Rodrigo acredita que é possível construir uma publicidade afirmativa sobre a favela, revelando as suas potências a partir de dentro. Thiago Taif colore as paredes de sua comunidade com as tintas de um sonho: ser um artista renomado.

Érika e Rita entraram em universidades públicas e estão à frente de um pré-vestibular comunitário para que outros jovens como elas possam ter o mesmo direito. Pingo, ex-integrante do grupo Força do Rap, é conhecido em todo o canto de Acari como uma referência na defesa de seu povo e persiste organizando atividades culturais e artísticas onde mora.

Vidas nascidas na favela, esses nomes e muitos outros lutam para que as comunidades periféricas tenham acesso a direitos básicos, como educação, saúde, cultura, moradia, transporte e o mais essencial: o direito de viver. Até quando a favela vai ser vista apenas como “área de risco” e “espaço do crime”? É a pergunta que ecoa na fala de todas elas e todos eles. “Quantos mais vão precisar morrer antes que essa guerra acabe?”, afirmava Marielle Franco (PSOL), vereadora nascida na favela da Maré e executada no Rio de Janeiro em março. “Não entenderam ainda? A quebrada é tipo um livro e vocês matam a poesia que por ela corria…”, pergunta Brenda em seus versos. Mesmo com a violência e a discriminação, a poesia da favela vive e resiste.

Cadê a poesia do morro?

Uma voz ecoa no silêncio do trem: “Ataque!” Não é tiro que vem por aí, nem assalto. Como num eco, outros respondem: “Poético!” De repente, surgem cinco ou seis jovens, a maioria negros, e uma delas recita os versos: “Em nome do amor, se oprime, reprime e ilude. / Em nome da paz instaurada, a guerra que mata um preto, dentro e fora da favela, a cada 23 minutos.” Ao terminar, ela se apresenta: MC Martina, 20 anos, poeta, rapper e produtora cultural do morro do Alemão, no Rio de Janeiro.

Alguns reclamam daquela voz que vem perturbar o silêncio, mas a maioria aplaude. Depois é no BRT. Outra jovem negra dá o papo: “Apressado, a poesia podia estar ao seu lado/ Tenho o destino traçado pelas vozes do Estado / Boné afundado na cara / Mó cara de bolado”. Quem fala é Brenda Lima, 19 anos; e como ela mesma afirma, seus versos, carregados de gírias e expressões do morro, das favelas e das quebradas — diferentes nomes como a periferia é chamada —, refletem a luta e a resistência de seus antepassados.

Os Ataques Poéticos nas praças, no transporte público e nas escolas são realizados pelo coletivo Poetas Favelados, um grupo de artistas da poesia e da música formados por jovens de diferentes favelas do Rio de Janeiro. Dentre eles, estão Sabrina Martina — conhecida como MC Martina —, Brenda Lima e o rapper Al Neg. “Nosso objetivo principal é levar a arte favelada, nossa cultura, informação e realidade para a galera que mora em periferia, mas que não tem acesso a esse tipo de literatura”, conta Sabrina. Para ela, as pessoas não acessam a arte pois precisam trabalhar para sobreviver. “O Ataque Poético é um sarau itinerante, que vai ao encontro dessas pessoas. É muito interessante ver a reação delas. Muitas estão com um semblante abatido, a fisionomia cansada, e durante o ‘Ataque’, a gente vê a mudança”, relata.

Sabrina é nascida e criada no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, e Brenda mora em Petrópolis, na região serrana do estado. As duas chegaram ao Ensino Médio sem perspectivas para o futuro. “Eu comecei a escrever poesia quando larguei a escola no segundo ano do Ensino Médio. Não me encaixava no modelo de ensino aplicado pelo Estado, que não estimula a pensar”, narra Brenda. Ela então conheceu a literatura de outras mulheres negras, como as escritoras Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda, e decidiu que poderia fazer de sua própria poesia “uma forma de comunicação com o mundo”. “Eu sinto que, ao recitar, posso curar, alertar, denunciar, lutar”. Questões como racismo e violência aparecem em seus textos, segundo ela, como relato de “vivência própria”: “Não é sempre que falo, pois é algo que exige muita força, mas além de tudo aparece num tom de denúncia sobre o que meu povo sofre”.

Brenda lembra que, em sua poesia, não surge apenas a sua história, mas a expressão de “muitos de nós”. “Eu sou pelo que nós somos. Os meus irmãos interferem na minha arte e eu penso que posso e devo fazer por eles, intervir e trocar conhecimentos ancestrais que nos foram dados, tomados e que agora estamos retomando aos poucos”, afirma, lembrando um provérbio africano. Em um de seus versos, ela ressalta: “Eu sou a sombra dos meus ancestrais escravizados, sou poesia a chibatas, sou a música e dança que quase apagaram…” Em outra performance, ela se serve de um ponto de Umbanda para representar a orixá Oxum lavando os corpos dos meninos mortos. “Falo de todos nós, negros e negras vivos, fazendo sua arte, seu trampo, lutando contra o sistema que quer desde muito tempo nos ver mortos”, enfatiza.

A história de Sabrina não é diferente da vivida por Brenda: ao terminar o Ensino Médio, ela se viu sem emprego e nenhuma fonte de renda. Depois de participar de um projeto organizado por um coletivo de comunicação na favela, o “Gato Mídia”, abriu os olhos para algo que nunca tinha notado: o que havia de bom dentro da própria comunidade. “Eu não sabia que existiam tantos favelados universitários e tanta coisa acontecendo dentro da favela”, conta. Daí foi um passo para se descobrir produtora cultural e participar da organização de eventos nas favelas do Alemão e da Maré.

Do morro para o mundo

Sabrina transformou-se em MC Martina — e depois de acompanhar o trabalho do coletivo Poetas Ambulantes, na capital paulista, decidiu criar, junto com o amigo Al Neg, um coletivo de poesia com artistas das favelas do Rio, não só da capital, mas da Baixada Fluminense e do interior do estado. “A poesia está em tudo. Está em poder voltar para casa, ter comida pra comer, minha família estar bem, conseguir fazer as coisas que eu faço”, ressalta. A ideia era impactar o lugar onde mora, porque o Alemão contava com muitos coletivos de comunicação, mas nenhum voltado para poesia. “O objetivo inicial dos Poetas Favelados era combater o machismo, o racismo e uma série de preconceitos que existem na cena do hip hop. O coletivo realiza os Ataques Poéticos no busão, nas escolas e em vários lugares pela cidade, mas especialmente na favela e em espaços públicos”, descreve. O grupo conta hoje com cerca de oito integrantes oriundos de diferentes periferias do estado.

MC Martina também foi uma das idealizadoras do Slam Laje, a primeira “batalha de poesia” no Alemão feita pelos próprios moradores. O “slam” é um tipo de competição urbana em que os artistas recitam suas poesias em performances — os versos geralmente têm um caráter de resistência e politização. “O nosso objetivo é disseminar cultura e poesia marginal dentro da favela, furando a ‘bolha’”, conta. O projeto também reúne a famosa “batalha do passinho”, estratégia para se aproximar de crianças e adolescentes mais novos (a “menorzada”). “A favela é quilombo. A gente tem uma cultura incrível, não só a favela, mas o povo preto em si, sacou? Foi o povo preto que criou o samba, o hip hop e várias outras culturas. E arte é isso: um lugar que permite a gente ter voz e ser ouvido”, reflete.

A rapper não esconde as marcas que a violência, o racismo e a segregação deixam na população das favelas: “Já levei muita dura [da polícia]. Dura em moto, no busão, na rua. Qual o motivo da dura? Eu não deveria ter medo de policial, mas eles são uma das coisas que mais tenho medo”, aponta. Segundo ela, uma das características da cultura da favela é a capacidade de reinvenção. “Desde sempre o povo preto, a periferia, apanhou muito. Apanha, levanta e continua, porque é a necessidade. Eu não tenho a escolha de ser fraca, porque preciso cuidar da minha família, entendeu?” Ela destaca que os jovens negros e periféricos são sempre vistos como “suspeitos”. “Ao mesmo tempo a favela é um lugar onde existe a ausência de direitos. O Estado só vem aqui dando tiro. Que política pública existe hoje em dia para a favela e a periferia?”, questiona.

Em um de seus poemas, MC Martina compara a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, que teve ampla cobertura midiática, com a “ocupação” do Brasil pelos portugueses em 1500: “A cor do colonizador nunca mudou / Mas o discurso sim de novo te enganou”, afirma. “Ser pobre, negro e favelado é ser criminalizado pelo que você é”, acrescenta à Radis. Estudante de um pré-vestibular comunitário, a menina nascida no Alemão planeja fazer faculdade de Ciências Sociais e continuar sua carreira como rapper, poeta e produtora cultural. Ela também faz parte do coletivo “Movimentos”, grupo de jovens de periferias do Rio que discutem e propõem uma nova política de drogas. “Antes de ser MC, sou favelada, sou preta e sou pobre. As pessoas não sabem o que a gente passa por trás do microfone. O triste é que estou falando isso pra você, essa matéria vai ao ar e muita gente não vai se ligar, porque já tem o coração frio. Não tem empatia”, desabafa.

Histórias como as de Brenda e Sabrina, que fazem poesia na favela, foram tema do filme “Meu fuzil é a poesia” (Grito Filmes), dirigido por Fernando Salinas e Victor Hugo Liporage e produzido por Cinthia Martins. O curta reuniu performances de diversos coletivos e poetas nas ruas, favelas e escolas do Rio de Janeiro. “A Suburbana estava marcada com sangue de João. / Quem dera fosse com migalhas de pão?”, sentenciam os versos do rapper Dyonnás Sykeira. Em conversa com Radis, Brenda afirmou que existe sim espaço para cultura na favela, mas esse enfoque não interessa ao Estado. “O que vende é a guerra e o massacre, a desigualdade, a falta desse olhar para a educação e para o resgate da nossa cultura”, avalia. Para ela, as pessoas querem cada vez mais se armar, mas o armamento “nunca foi garantia de paz e sim do caos”. “Cabe a gente fazer uma reflexão sobre nós que fomos afastados da nossa própria cultura e tivemos acesso negado ao direito de ser e estar, com um único objetivo: pretos contra pretos, pobres contra pobres se matando a mando do Estado, enquanto ele aplaude e fica com todo o lucro”, constata.

Luta pela vida

Quatro dias depois do anúncio da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro (16/2), crianças da comunidade Kelson, na Penha, tiveram suas mochilas revistadas em uma operação conjunta das Forças Armadas e das Polícias Militar e Civil. Como noticiou a Ponte (22/2), o Comando Militar do Leste afirmou que a ação não teve relação direta com a intervenção e foi feita sem um objetivo, apenas para mandar um “recado” a criminosos e “baixar a bola deles”. O episódio, porém, revela que as pessoas que moram nas favelas são as mais afetadas pela política de segurança pública baseada na “lógica da guerra”. Para Fransérgio Goulart, historiador e militante do Movimento de Favelas, atualmente assessor político do Centro dos Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu (RJ), essa não é uma novidade na história do Brasil. “A partir do discurso de pacificação, determinadas populações sofreram e ainda sofrem com a guerra. Foi assim com os indígenas, depois negros, hoje com os favelados, os movimentos de ocupações, os sem-terra, os assentados”, afirma.

Escolas e creches fechadas, postos de saúde com funcionamento interrompido e dificuldades para ir ao trabalho são ocorrências comuns provocadas pelas operações policiais, como relatam os diferentes moradores ouvidos por Radis. Dados da Pesquisa “Educação em Alvo: os efeitos da violência armada na sala de aula”, realizada pelo aplicativo Fogo Cruzado e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontam que mais de 20 escolas no conjunto de favelas da Maré (RJ) tiveram suas aulas interrompidas apenas em fevereiro de 2017. “Com a justificativa de ‘combater o crime organizado e o tráfico de drogas’, tais operações colocam em risco a integridade física e a saúde mental dos moradores de favelas, que vivem sob constante tensão”, afirma manifesto da Campanha “Caveirão Não! Favelas pela Vida e contra as Operações”, assinado pela Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência e mais de outras trinta instituições que atuam na área de direitos humanos.

Essa realidade também representa um cotidiano de medo para quem luta por direitos e políticas públicas dentro das favelas. “A pauta principal dos movimentos de favela hoje é ficar vivo. É a gente poder acordar no outro dia”, disse Fransérgio à Radis, em entrevista dias antes da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), que também teve sua trajetória marcada pela atuação junto à população das favelas. Oriundo de Manguinhos, na zona norte do RJ, Fransérgio conhece bem essa realidade pois atua como apoiador de diferentes movimentos de resistência e luta por direitos nas comunidades periféricas, como as Mães de Manguinhos, Mães de Maio e a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. Para ele, a favela é resistência desde a sua fundação. “Ela existe porque ela resiste. A favela precisa resistir se não ela não sobrevive, às vezes de forma coletiva, às vezes individual. No cotidiano das ruas e dos becos, isso já é claro”, aponta.

Como exemplo, ele narra a origem do conjunto de favelas da Maré (RJ), surgida de uma ocupação liderada por uma mulher negra, Dona Orosina, que depois teve de lutar para não ser expulsa pelo Exército. Para ele, os próprios moradores das favelas já vêm construindo saídas para a violência a partir de dentro. “Muito por meio do protagonismo dessa juventude que tem novas formas de ocupar o espaço público. São jovens negros, jovens mulheres, moradores de favelas, que a partir do cotidiano constroem alternativas para enfrentar a violência no campo da educação e da saúde”, defende. Ele cita alguns exemplos: o Coletivo Papo Reto, no Complexo do Alemão, que realiza um trabalho de denúncias de violência; o projeto “Histórias Vivas”, da Maré, para recriar as narrativas da favela pelos próprios moradores; e o Rolé dos Favelados, uma iniciativa de incentivo à atividade turística a partir de “dentro”.
Para Fransérgio, a visão que se tem da favela, marcada por estigmas e preconceitos, é fruto da construção do Brasil pautada no racismo. “O racismo é estruturante da constituição do Brasil enquanto nação. Isso reflete nos territórios de favelas, que são majoritariamente da população jovem e negra”, explica. Segundo ele, enquanto as políticas públicas não fizerem o enfrentamento do racismo, a realidade da segregação não vai ser alterada. “As discussões têm que ser pautadas a partir da centralidade do racismo, em ações de educação, educação em saúde e cultura”, propõe.

O racismo e o “olhar de fora”, que enxerga o outro como inferior, também está presente nas pesquisas acadêmicas sobre a favela, como ele ressalta: os pesquisadores das universidades “sobem o morro” e fazem estudos com as populações faveladas, sem dar retorno ou propor saídas para transformar a realidade pesquisada. Com o propósito de questionar essa prática, ele criou, junto com outros militantes, um espaço de discussão intitulado “Para que e para quem servem as pesquisas acadêmicas sobre as favelas?”. “Existe uma dominação branca e um grupo de privilegiados que fala sobre o outro. É muito ainda a visão do colonizador”, avalia. Ele defende mudanças para democratizar o acesso às universidades e propõe a construção de pesquisas e olhares a partir de dentro das próprias comunidades periféricas. A mesma crítica ele faz a comitês que apenas “observam” a violência a partir de fora: segundo Fransérgio, eles ajudam a dar visibilidade, mas não resolvem os problemas dos favelados. “Para quem mora nesses territórios, como eu e outros e outras, nossos problemas são muito mais intensos e são pautados no racismo. Isso deve ser colocado como prioridade”, reflete.

A favela por ela mesma

A rua Teixeira Ribeiro é um dos pontos de encontro da Maré, conjunto de favelas na zona Norte do Rio de Janeiro onde vivem cerca de 130 mil pessoas: além de ser um dos principais acessos ao bairro, pela Avenida Brasil, é onde acontece uma feira popular aos sábados que reúne desde rodas de samba à galera do hip hop. Para registrar as vozes e os rostos que compartilham o espaço, jovens da própria comunidade empunharam câmeras e microfones e fizeram um vídeo como parte do projeto Favela 3D (Disposição, Diversidade e Direitos), coordenado pelo Observatório de Favelas. São olhares para além da violência, que enxergam a favela como “lugar de potência”. “São agendas potentes que não são vistas como tal. Tem muito mais do que a violência. Tem vidas, pessoas, populações, histórias, memórias, afetos. A gente tenta o tempo todo mostrar para além da carência, a partir da perspectiva da potência”, afirma Rodrigo Azevedo, publicitário e coordenador do Observatório de Favelas.

Na Teixeira Ribeiro também está localizada a sede do Observatório, onde funciona parte de suas iniciativas, como a Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC) e o projeto “Imagens do Povo”. Duas ruas adiante, fica o Galpão Bela Maré, um local que incentiva expressões artísticas na favela e reúne exposições, biblioteca e atividades culturais. Foi na “Teixeira”, como é chamada carinhosamente pelas pessoas, que a equipe de Radis conheceu Rodrigo, nascido e ainda hoje morador de São Gonçalo (RJ). “Já andei muito e vivo a contradição da desigualdade desde que me entendo por gente. Sou morador de São Gonçalo, o segundo município mais populoso do estado e um dos piores em índice de desenvolvimento humano e violência”, conta. O publicitário foi coordenador da ESPOCC, projeto que formou cerca de 90 jovens por ano, entre 2012 e 2016, em audiovisual e cultura digital.

A escola desenvolveu o conceito de “publicidade afirmativa” para incentivar a construção de olhares positivos e de autoestima dentro da favela. “A gente utiliza elementos da publicidade para potencializar debates e agendas de territórios populares do Grande Rio que não ganham visibilidade e também se apropria desses recursos para mostrar um outro olhar sobre as favelas”, explica. Segundo ele, a publicidade afirmativa busca trabalhar a comunicação a partir de uma lógica que compreenda a diversidade social, em que uma multiplicidade de vozes estejam presentes. Também pretende superar os vícios históricos da publicidade, como sexismo, racismo e preconceitos. “Os jovens passam a utilizar a comunicação para potencializar causas e questões, fortalecer coletivos e organizações, produzir informativos e meios de comunicação que eles acham interessantes”, acrescenta.

Olhar as potências da favela não significa ignorar os problemas, dentre eles a violência. “Não é romantizar o território, nem neutralizar e abafar essas questões. De fato, existe o tráfico. Mas também tem samba, pagode, festival de rock, gastronomia, e por causa dessa questão do tráfico, a gente nega todas as potências que vivem e circulam nesse ambiente”, considera. Ele cita como exemplo um projeto desenvolvido por uma das turmas da ESPOCC como trabalho de conclusão de curso e intitulado “Juventude marcada para viver”: além de realizar uma intervenção artística no centro da cidade que denunciava o genocídio de jovens negros, a campanha criada pelos alunos da escola construiu um documento com propostas de políticas tanto no campo da segurança pública quanto de educação e cultura. “A gente discute segurança não mostrando corpos, mas a partir de perspectivas que propõem caminhos, soluções e políticas públicas”, avalia.

Criado em 2001, na Maré, o Observatório de Favelas surgiu com a proposta de produzir conhecimentos com um novo olhar sobre as favelas e os espaços populares. Um de seus fundadores, Jaílson de Souza e Silva, nasceu numa comunidade de Brás de Pina (RJ) e foi morador da Maré. Ele defende que as políticas urbanas nas favelas têm que ser construídas com a participação dos moradores, especialmente sua juventude. “O desafio é construir políticas públicas que ajudem a combater as bases estruturais da desigualdade, que são o racismo, o patrimonialismo e o sexismo”, considera. Segundo Jaílson, com o protagonismo popular e a partir do que chama de “paradigma da potência”, é possível pensar formas alternativas e criativas de desenvolver políticas para as periferias. “Não só no campo da educação e da cultura, mas também no campo da segurança pública e em todas as áreas, no que diz respeito ao direito à cidade por parte dos moradores dela”, reflete (veja entrevista).

Como parte da Maré, o Observatório vive o mesmo cotidiano do lugar. Rodrigo mostra na parede as marcas da água da chuva, que inundou a comunidade depois do carnaval e deixou centenas de desabrigados. Ele defende que a população das favelas, principalmente os jovens, devem se apropriar das ferramentas de comunicação para expressar sua voz. “A cobertura da grande mídia olha esses espaços somente como o território da violência, das vielas e das valas abertas. A constituição das favelas e dos territórios populares se deu em um processo muito duro, com deslocamentos, retiradas de pessoas dos grandes centros e desapropriações. Isso construiu um estigma complexo, de um lugar frágil e carente. Foi um lugar construído e pensado sem políticas públicas”, analisa. Mas a produção de novas narrativas e olhares passa por desconstruir esses preconceitos. “O caminho hoje é você ser o que realmente é, conseguir olhar a vida e a sua constituição a partir do que tem de melhor, da potência, da arte e da fala”, comenta.

No “forno” do Observatório, está um novo projeto, chamado de Agência de Narrativas, voltado para a produção de pautas e olhares alternativos sobre a favela. Segundo Rodrigo, a ESPOCC atualmente está sem financiamento, pois “é um projeto caro”, que oferecia não apenas formação, mas ajuda de custo aos cerca de 90 alunos. Outra iniciativa é o “Imagens do Povo”, que reúne registros de fotógrafos populares — o Observatório ajudou a formar, com a Escola de Fotógrafos Populares, alguns profissionais renomados e responsáveis por trazer novos olhares sobre a comunidade em que moram, como Ratão Diniz, oriundo da própria Maré. “O nosso conceito de ‘lindo’ não é só a arquitetura, mas a vida e as brechas de felicidade dentro desses espaços”, reflete.

Sobre as constantes operações militares na Maré, Rodrigo conta que vivenciou junto com a comunidade a presença do Exército, entre 2014 e 2015, por conta dos grandes eventos (Copa e Olimpíadas), e não houve resultados. “A militarização é muito ruim pois não resolve nada. Matam-se todos, morrem-se todos, e aí? Isso nunca vai resolver, pois não incide em políticas públicas, mobilidade urbana e direitos”, considera. No dia que conversou com Radis, ele havia esquecido a carteira em casa. De um lado, havia a preocupação se levasse uma “dura da polícia”, o que já aconteceu: “Abriram minha mochila e encontraram livros. Perguntaram: ‘Para que isso? Você trabalha onde?’”, conta. Mas de outro, a certeza de que, mesmo sem dinheiro, não ficaria sem almoço: “O lado bom é que aqui você não fica sem almoço, sempre tem um amigo pra te chamar para almoçar”, completa.

Acari é aqui

Aquele era o segundo dia após a execução da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, no centro do Rio. Quatro dias antes de sua morte, ela escreveu em sua página no Facebook: “Precisamos gritar para que todos saibam o que está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari”. Nossa entrevista sobre o pré-vestibular comunitário e a visita ao Centro Cultural Poeta Deley de Acari estavam marcadas para a sexta-feira seguinte ao crime (16/3). De manhã, nosso contato informou que não havia operações policiais na comunidade e que poderíamos conversar. Depois de descer pela rua que leva ao Centro Cultural, no bairro da zona norte do Rio, a equipe de Radis chegou ao espaço onde no passado funcionou um departamento de polícia, hoje tomado pelo pré-vestibular comunitário e por atividades artísticas e culturais.

Em uma das paredes, um grafite dava o papo: “Informado pela mídia, desinformado é.” Em outro canto, algumas palavras — “Liberdade”, “Paz”, “Amor, “Luta”, “Fé” — contornavam o esboço de uma favela, em tinta preta. Érika Oliveira, 26 anos, e Rita Ventura, 24, contam que, quando passaram a frequentar o Centro Cultural, ele era bem diferente do que é hoje. As aulas aconteciam apenas em metade do salão e, aos poucos, elas foram se envolvendo com o espaço e dando uma nova cara. Érika é estudante de História da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) há menos de um ano; Rita está com a formatura em Geografia prevista para 2018 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), “se não tiver greve”. Ambas moram em Acari e coordenam as atividades do pré-vestibular comunitário que recebe, pelo terceiro ano consecutivo, uma turma de cerca de 15 alunos da comunidade.

“Geralmente as turmas começam bem cheias e aí vão acontecendo diversas situações que dificultam a permanência dos estudantes. Muitos têm filhos pequenos, ou então trabalham à noite, e ainda tem a questão das operações que dificultam o acesso”, conta Rita, que foi professora desde a primeira turma — a única que morava em Acari. Todos os professores são voluntários. As aulas acontecem de segunda à sexta, sempre à noite. Já Érika foi estudante da primeira turma, o que rendeu sua aprovação em uma universidade pública; como ela mesma relata com orgulho, a participação na iniciativa fez com que ela “abrisse os olhos” para a própria comunidade em que vive e se envolvesse na luta para que outros jovens também possam ingressar no Ensino Superior. “Eu não tinha tanto contato com a comunidade em que moro. A gente é incentivada o tempo todo a sair e nunca a conhecer o que existe aqui dentro”, relembra.

Entrar em uma universidade não estava nos planos de Érika quando terminou o Ensino Médio e teve de conseguir um emprego para ajudar a família. Voltar a estudar, sete anos depois, foi um desafio, pois ela precisou novamente contar com a ajuda dos pais. “Minha mãe é dona de casa e meu pai sustenta a minha casa. E como é que eu falo para ele que novamente ele vai ter que me sustentar para eu conseguir conciliar os estudos?”, narra. Segundo a estudante, participar do pré-vestibular — primeiro como aluna, depois como voluntária — trouxe para ela solidariedade e ação. Cada aluno aprovado faz com que elas sintam a mesma sensação de vitória. “Eu quero ajudar outras pessoas daqui a terem as mesmas oportunidades que eu tenho”, afirma Érika. “É como se fosse a minha própria aprovação. Quando a gente vê que somos parte de uma vitória que foi dela, mas que também é nossa, é muito empolgante pra gente”, completa Rita.

Para elas, a aprovação em uma universidade pública foi apenas o início de uma luta cotidiana. As constantes operações policiais dificultam a trajetória das estudantes. “A universidade é elitizada. Ninguém quer saber se a gente passa por uma operação policial, se a gente tem dificuldades de três horas para chegar. A gente tem que estar lá na hora da aula, senão somos cortadas da matéria como qualquer outro”, relata Érika. Segundo ela, os professores do pré-vestibular debatem as dificuldades enfrentadas por uma pessoa de uma comunidade periférica para ter acesso ao Ensino Superior. “Várias vezes já perdi aula e avaliações por conta das operações. Alguns professores entendem, mas a grande maioria não compreende as necessidades e as especificidades dos estudantes”, ressalta Rita. Em sua monografia de conclusão de curso, ela estuda a banalização da violência no discurso dos jovens da comunidade. “Eles falam de inúmeras situações que já passaram. Toda vez que a gente sai daqui e está tendo operação, a nossa bolsa é aberta. Perguntam: Para onde você vai? Onde você mora? O que está indo fazer?”, conta.

Força da favela

“Parece brincadeira, mas tem moleque que nunca saiu daqui para ir no centro da cidade, na praia, cinema ou museu. Essa parada é gravíssima, mano”. A frase é do rapper e produtor cultural, MC Pingo do Rap, morador de Acari, e revela a realidade da exclusão das populações de favela em relação à cidade. “Existe moleque de 10 e 12 anos aqui que é um ótimo desenhista, mas não reconhece isso nele, não sabe o artista que ele é, pela falta de informação. Isso é também falta de acesso à cidade”, reflete. Ele aponta que, ao circular fora da favela, os moradores enfrentam preconceito e racismo.

“Toda vez alguém muda de calçada. Está na cor da minha pele, no cabelo, no modo de me vestir. Tem vários amigos meus que até tem condições de ir num restaurante, sair com a namorada pra almoçar, mas eles simplesmente não vão porque não sabem como vão ser recebidos. As pessoas te veem no ônibus e seguram a bolsa mais forte”, relata.

Por onde passa nas ruas de Acari, Pingo é reconhecido como “o MC”. Ele foi integrante do grupo Força do Rap, que fez sucesso na geração do funk carioca dos anos 1990, e hoje é um dos coordenadores das atividades artísticas e educativas do Centro Cultural. “A favela transpira arte o tempo todo. Tanto que a pista quer falar igual a favela. Os gringos querem entrar e fazer dela um lugar turístico”, comenta.

Em uma de suas letras recentes, na música “Quebra-cabeça”, ele expressa o tema da discriminação sofrida pelas populações de favela: “O que tu acha? / Promover a paz com sangue? / Mostrar que acha o nosso povo ignorante / Até concordo que não somos estudados / Mas achar que somos burros, aí já pegou pesado.” Para manter as atividades do Centro Cultural, ele conta que os voluntários se viram “na cara e na coragem”. “Nós não temos ajuda de nenhum órgão governamental ou privado. É cada um doando o seu tempo, dando tudo de si e do seu conhecimento, para fazer isso aqui respirar”, destaca.

Na conversa, ele narra a influência da avó em sua formação, que também aparece em suas letras: “A criação que eu tive eu acho que deu certo. / Ai que vontade de ter minha avó por perto”. Aos 39 anos, Pingo conta que já trabalhou vendendo bala no sinal e muito cedo descobriu a música. A vida na favela sempre esteve presente em sua arte e marcou a trajetória do menino de Acari que fez sucesso com o funk e hoje vive em sua comunidade como um artista que luta para garantir o acesso dos moradores à cultura. “Desde que favela é favela, sempre foi isso aqui que você está vendo.

Antigamente era o barro nas ruas, hoje é o esgoto a céu aberto, as doenças negligenciadas. Nós sofremos todos os tipos de violência aqui, mano. Por que tem tantas doenças? Nossa água é totalmente potável? Barracos de madeira na beira do rio faltando luz?”, questiona. E completa com uma frase emblemática: “A força do Estado é ao mesmo tempo ausente e opressora”

Para ele, todo o grito do favelado é tratado na “lei do chicote”. “Hoje você não pode nem denunciar a violência que a favela sofre. Se você fala, você paga com a vida”, pontua. Em sua camiseta, produzida pela estamparia Faveleira que funciona no segundo andar do Centro Cultural, estava grafado um provérbio africano: “Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”.

Dois dias depois do assassinato da vereadora Marielle Franco, não era possível silenciar sobre o tema. “Eu conheci a Marielle. Nós tocamos num bloco, ela já esteve em algumas rodas de funk. É a lei do chicote. Você tem que apanhar e ficar calado. Não é só em Acari, é em qualquer favela Brasil afora. Sempre que alguém tem essa coragem de colocar a cara e comprar a briga, de alguma forma é calado”, reflete. Mas ele considera que esse tipo de “mordaça” não vai calar a força da favela e das ruas. “Como alguém da cultura popular e periférica, que está dentro de um Centro Cultural, tentando fazer o melhor, só posso dizer que continuo na luta”, completa. Para Pingo, a poesia da favela nunca vai se render.


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